As melhores leituras de 2019 da Cíntia

Por: Cintia Andrade

2019 foi um ano de pouco foco e muitas tensões.

Passei o ano todo numa sensação que poderia ser descrita como o oposto da esperança: um sentimento de ameaça iminente, de espera pelo pior, achando, sempre, que da próxima vez em que apertasse o F5 surgiria uma nova medida autoritária, um novo corte em benefícios trabalhistas, um novo episódio de censura ou um novo incidente internacional. Foi um ano em que me senti também diretamente em antagonismo com grande parte da população onde quer que eu fosse, tentando sempre adivinhar se as pessoas com quem cruzava haviam votado pelo governo atual (e já imaginando as discussões com elas na minha cabeça).

A literatura pode ser uma forma maravilhosa de viver vicariamente uma realidade paralela e poderia ter sido meu refúgio mais provável para um ano horroroso, mas não foi bem isso que aconteceu. No meio de um contexto no qual esperei o tempo todo que o pior acontecesse (esperando também pelo pior das pessoas), foi bastante difícil me envolver com a ficção. Li bastante até, mas sinto que foi raro me encontrar em um estado de suspensão da realidade, digamos assim. 

Espero que 2020 seja o ano em que conseguirei, novamente, me envolver com ficção longuíssima (alô, Os demônios, será que é esse ano?). Espero também que não estejamos em estado de alerta o tempo todo. Enquanto isso, as leituras que mais me marcaram em 2019 foram as seguintes:

Top 2 - Cintia

Augustus – John Williams (Tradução: Alexandre Barbosa de Souza; Editora Rádio Londres)

Os livros do John Williams foram todos favoritos em seus respectivos anos de leitura (Stoner em 2016 e Butcher’s Crossing em 2018). Não pensei que o autor ainda guardava uma surpresa do tamanho de Augustus. Escrito através de cartas, documentos históricos, diários e outros tipos de publicações, enxergamos, nas duas primeiras partes do livro, fragmentos do personagem principal, que só virá a falar na última parte do livro. Assim, o protagonista é construído na mente do leitor a partir de uma multiplicidade de perspectivas, como uma quimera contraditória e confusa. Não é um livro rápido nem fácil de ler – não flui tão bem quanto os outros dois, na minha opinião – mas vale muito a pena mesmo que você não saiba nada sobre o imperador (era o meu caso). Meu marido e eu temos o hábito de escolher livros para lermos juntos, e essa foi uma das leituras compartilhadas do ano. Passamos muitas manhãs de maio trocando impressões sobre o livro – é uma ótima escolha para clubes do livro.

O cérebro no mundo digital – Maryanne Wolf (Tradução: Mayumi Ilari e Rodolfo Ilari; Editora Contexto)

Em um ano em que me peguei muitas vezes pensando “por que não consigo mais me concentrar nas leituras como antes?”, este livro trouxe perspectivas interessantes sobre o cérebro leitor. A autora investiga como são formados os circuitos de leitura no cérebro e as vantagens cognitivas que a leitura e a escrita possibilitaram à humanidade. A partir daí, ela parte para uma investigação sobre como a leitura em telas (o meio em si) e o tipo de leitura fragmentada que é feita em meios digitais podem afetar na formação e manutenção desses circuitos. 

A tese da autora é de que nosso cérebro se adapta a cada meio, se preparando para o nível de desafio cognitivo e de imersão normalmente requeridos por cada formato. A conclusão dela é de que muitas pessoas atualmente têm justamente esta sensação de não conseguirem se concentrar em livros porque o cérebro, depois de tanta leitura digital feita de forma rápida e superficial, não consegue se reprogramar para operar em um nível mais denso de leitura, tornando a leitura muito mais trabalhosa, especialmente ao tentarmos ler textos complexos em formatos digitais. Achei bastante interessante e fez muito sentido para mim.

top 3 e 4 cintia

Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk – Nikolai Leskov (Tradução: Paulo Bezerra; Editora 34)

A protagonista desta novela, Katarina Lvovna, insere-se em uma longa tradição literária de donas-de-casa entediadas (clássicas como Emma Bovary, Anna Karenina e Edna Pontellier e, mais recentemente, em livros como NW e Hausfrau) que direcionam suas frustrações com o casamento e a domesticidade para uma paixão ardente – onde tradicionalmente só a mulher se dá mal. Ao contrário de muitas protagonistas pacatas, entretanto, Katarina – assim como a Lady Macbeth que lhe empresta o título – não é capaz de corresponder às expectativas de fragilidade, docilidade e compaixão esperadas do sexo feminino. Ela quer o que quer e nada irá impedi-la de perseguir suas vontades, especialmente quando o que está em risco é uma vida que ela não escolheu e não aprecia. Um livro curtinho e incrível (o filme é ótimo também).

Parque Cultural – Serguei Dovlátov (Tradução: Yulia Mikaelyan; Editora Kalinka)

Em 2019 fiz um curso sobre literatura russa e minha professora indicou assistirmos ao filme “Dovlatov”, que achei excelente. Corri atrás dos livros do autor e acabei lendo dois que amei, Parque Cultural e The Suitcase, ainda não editado em português. Tendo uma predileção especial pelos russos mais debochados e por humor autodepreciativo, Dovlátov me ganhou de imediato. O que ele faz é uma espécie de autoficção ao mesmo tempo engraçadíssima e repleta de melancolia. Em Parque Cultural, o protagonista, um jornalista perseguido pelo regime que não consegue mais emprego na sua área, começa a trabalhar em um parque temático que celebra o escritor Púchkin. O parque em si funciona como uma União Soviética em miniatura onde temos figuras autoritárias, regras insensatas, defensores da ordem, rebeldes, delatores e artistas perseguidos e frustrados. Mesmo tratando de temas como alcoolismo, perseguição política e pobreza, Dovlátov é capaz de sempre emprestar leveza ao texto através do humor. 

top 5 e 6

Sobre os ossos dos mortos – Olga Tokarczuk (Tradução de Olga Baginska-Shinzato; Editora Todavia)

É sempre fascinante quando um autor muito talentoso decide explorar as barreiras da literatura de gênero. Olga menciona, em seu discurso do Nobel: “A literatura de gênero é cada vez mais como uma espécie de forma de bolo que produz resultados muito similares, sua previsibilidade considerada uma virtude, sua banalidade uma conquista. O leitor sabe o que esperar e recebe exatamente o que queria”.

Neste livro, Tokarczuk traz à literatura policial algo muito diferente do esperado, semeando elementos da chamada ficção literária ao gênero. O maior trunfo da obra, na minha opinião, é a escolha de uma narradora não convencional, uma senhora fascinada por astrologia, professora de inglês, defensora dos animais, aparentemente dócil porém capaz de uma agressividade intensa, altamente complexa, confusa e 100% não-confiável. 

Tokarczuk constrói uma narrativa focada nas nossas relações com o mundo natural e com os outros humanos, deixando o leitor constantemente desconfortável, reavaliando seus posicionamentos e discursos. É um livro em que você se pega frequentemente questionando as atitudes das personagens e em que é difícil se colocar mais perto de um ou de outro, justamente porque são repletos de complexidades. Protagonistas problemáticos e demasiado humanos, contem comigo para tudo.

10:04 – Ben Lerner (Tradução: Maira Parula; Editora Rocco)

Assim como Parque Cultural, este romance também costura a ficção e a não-ficção através de um narrador com características que compartilha com o autor. É difícil fazer alguém se interessar por este livro porque ele foge a descrições simples, uma vez que é sobre nada. Apesar de alguns eventos de pano de fundo, o livro não é guiado pelo enredo, ele acontece nas entrelinhas, nos comentários do protagonista sobre eventos que se aproximam e eventos que já ocorreram, em um entrelaçamento muito interessante de passado e futuro. O autor faz uso de recursos narrativos não convencionais que funcionam muito bem, como fotografias, obras artísticas e uma mistura de gêneros inusitada (Lerner é, afinal, também um poeta). Há trechos do fluxo de consciência do narrador que são muito bem escritos e revelam insights muito interessantes sobre o nosso tempo. Foi das melhores coisas que li nos últimos tempos e acho que traz um certo frescor ao romance contemporâneo.

Cíntia é formada em letras, professora de inglês e editora de didáticos (aqueles com muita coisa escrita). Adora literatura russa e quadrinhos. Tem seis gatos.

 

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