Eu leio pessoas

Por: Mariana Tomazelli
Creio que muitos leitores escolham seus livros por indicação, buscando inspiração com conhecidos ou através de críticas e resenhas. Antigamente quase só se encontravam críticas oficiais, emitidas por entendidos e publicadas nos periódicos. A internet democratizou também as sugestões de leitura, e hoje temos um monte de blogs (cof, cof) com gente compartilhando suas opiniões e também um belo espaço nos sites de livrarias para achar ou deixar comentários sobre as obras.
 
As livrarias físicas também já entenderam bem esse hábito, e com frequência reservam estantes na entrada para os “staff picks”. Esses palpites parecem carregar uma certa autoridade porque partem de alguém que trabalha em uma livraria, ou seja, alguém que assumimos que conhece muitos livros e está por dentro dos catálogos, dos lançamentos, das vendas. Indo mais fundo, bons vendedores são capazes de personalizar suas sugestões a partir de alguma informação sobre autores, obras ou temas que já agradaram ao solicitante no passado. 
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Aí a Amazon automatizou esse processo: as ideias passaram a vir de um algoritmo apoiado em uma enorme base de dados. Quando você compra ou clica na página para comprar um certo livro, as sugestões já aparecem: “Se você gostou disso, vai gostar daquilo”. Até as livrarias físicas da Amazon possuem estantes associando títulos dessa forma. E a pergunta óbvia é: e esse algoritmo funciona? 
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Eu me pergunto por que não deveria funcionar, se ele é baseado no mesmo método que usam os vendedores (diga-me de que coisas você gosta e eu te darei indicações semelhantes)? O algoritmo provavelmente sabe muito mais sobre você do que você conta para o solícito livreiro, já que a Amazon conhece seus hábitos de consumo para além dos livros… e para além da própria Amazon (mas deixemos esse tópico assustador para uma outra ocasião).
 
Só que, surpreendentemente, para mim o algoritmo da Amazon não “funciona”. E não digo isso porque ele me indicou livros dos quais não gostei – na realidade nunca testei nenhuma das suas sugestões. A questão é outra: eu gosto de receber indicações de livros não só para conhecer livro, mas para conhecer pessoas. A Amazon personalizou o recebimento, mas despersonalizou o envio da sugestão, e por isso falhou comigo.
 
Eu gosto de saber porque alguém amou ou odiou um certo livro. E se a pessoa nunca me explicou, eu gosto de descobrir (ou pelo menos conjecturar com meus botões). Acho que o gosto de uma pessoa por livros diz muito sobre ela, considero um dado extremamente pessoal. E a indicação que alguém te faz de forma personalizada também diz muito sobre o que aquela pessoa pensa ou espera de você. Ao ler um livro que me foi recomendado, me sinto muito conectada com o autor da sugestão, como se em algum nível nos compreendêssemos melhor, como se tivéssemos vivido algo juntos. Como se compartilhássemos uma vivência e uma memória.
 
Quando o Kalebe, um dos meus amigos mais sensíveis, me indica livros, eu já sei que vou chorar (Outras vidas que não a minha, por exemplo, fez eu me acabar dentro de um ônibus). Quando peço dicas pra Juliana, já aprendi que provavelmente vem autora mulher ou alguma obra pouco óbvia – nada de sentimentalismos fáceis (Stoner foi um que eu não gostei nem desgostei, e que está longe de ser unanimidade). Meu marido, durante nosso primeiro ano de namoro, costumava me emprestar seus próprios livros – olha que intimidade – para eu treinar meu francês. Ele é daqueles que não dão a mínima para a forma e gostam mesmo é de uma história original (com ele aprendi a gostar de Amélie Nothomb). Meu amigo Adriano não é um homem da ficção: seus livros frequentemente envolvem alguma área da ciência, mas não se parecem em nada com apostilas. Pelo contrário, são deliciosamente bem-escritos (Bilhões e bilhões, do Carl Sagan ou Um Antropólogo em Marte, do Oliver Sacks). E minha melhor amiga Ana Paula não é minha melhor amiga por acaso: temos um gosto para literatura parecidíssimo – vale de tudo um pouco, de poesia brasileira a quadrinhos Macanudos, mas se for assim, meio realismo mágico… aí é que o coração até acelera (García Marquez, Saramago, Allende)!
 
Eu (em geral) não leio livros pela capa. Pelo título. Por resenhas de completos desconhecidos (nas livrarias ou nas redes). Por sugestões de algoritmos. Eu procuro ler livros por sugestões de outras pessoas – pessoas que por alguma razão me interessam. E por isso me interessa saber que livros elas leram, que livros mudaram suas vidas e que livros elas me recomendariam – a mim, especialmente. Não gostei de todos os que já me foram indicados – mas sempre aprendi alguma coisa nova sobre o autor da sugestão. 
 
Mariana é engenheira atuante, atriz amadora e poetisa aposentada.

2 comentários em “Eu leio pessoas

  1. Sentimentos múltiplos! Honrado por ter sido citado no artigo e mais pensativo quanto a um eventual próximo livro que recomendarei ou que confessarei estar lendo, hehehe.

    Parabéns pelo texto Mari, e por não se render à frieza dos algoritmos 😉

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