Batman Noel – Lee Bermejo

Sim, é um título estranho. Sim, estamos a muitos dias do Natal ainda, mas a HQ está saindo agora. E ainda que à primeira vista o título nos faça remeter ao cavaleiro das trevas com um enorme saco das trevas distribuindo brinquedos, à la Nightmare Before Christmas, não é isso que a história trata, e para quem não pensou nisso, explico… sou muito imaginativo. Ainda que essas fossem minhas expectativas com o volume, elas foram viradas de cabeça para baixo naquela que eu já considero uma das melhores histórias do Homem-morcego dos últimos tempos.
E é uma adaptação de Um conto de Natal de Charles Dickens. Você pode estar pensando “WTF???”, mas é isso mesmo, conseguiram colocar Dickens no meio de Batman e ficou fantástico, ainda mais que, ao contrário de muitos outros super-heróis, o Homem Morcego já tem várias histórias alternativas e reinterpretações que estão nos anais das HQs, dentre elas Cavaleiros das Trevas, Asilo Arkham, Piada Mortal, Longo Dia das Bruxas, citando só algumas conforme me vem na memória e devo informar que Batman Noel figura agora entre estas agradáveis companhias.

A história se passa durante a noite de Natal e seguimos Bob, que está traficando um pacote a mando de alguém, até que o Batman o intercepta e revela o conteúdo do pacote: milhares de dólares, Bob jurando não saber o conteúdo do pacote foge, mas ele na verdade é apenas uma isca para o Homem- Morcego chegar ao verdadeiro dono do dinheiro: O Coringa.
Para quem conhece um pouco a obra de Dickens, ou pelo menos a sua novela mais famosa, ainda por que ela passa todos os anos na véspera de Natal, nota que a história que acabei de descrever não se assemelha nada ao conto moral do Senhor Scrooge sendo visitado por três fantasmas durante a noite de Natal que o muda para sempre. E realmente não há nada explicito, a não ser uma voz que vai contando a história do senhor Scrooge conforme a graphic vai acontecendo.
Não há uma correlação direta dentro da história a não ser o texto narrado (a história resumida de Um Conto de Natal) e a narrativa sequencial da graphic que conta a saga de Batman para capturar o coringa. Tendo isso, o personagem de Bob, que é um funcionário da Wayne Enterprises, se torna o famoso funcionário de Scrooge que pede o dia folga a seu chefe, enquanto Bruce Wayne se torna nessa interpretação, o próprio senhor Scrooge. Os espíritos por sua vez não são fantasmas, e sim encontros que Batman vai tendo durante a noite. O passado se revela na forma da Mulher-Gato e sua lembrança de quem o Batman já fora anteriormente. O presente se manifesta na forma do Superman e sua visão mais otimista da humanidade, que contrasta (e sempre contrastará) com a visão do Homem-Morcego. O futuro por sua vez é o próprio Coringa que traz uma visão perturbadora de como será o mundo se a visão de Bruce da humanidade for sempre a negra.
Ainda assim é um pouco difícil visualizar o que Lee Bermejo quer fazer ao justapor duas histórias tão diferentes, mas que dentro dessa composição parecem ser tão complementares. Uma das primeiras, senão a maior, dúvidas é o tema central de Um conto de Natal, que no original é um sovina burguês que reencontra um novo sentido na vida. O texto do narrador é bem ágil em evitar contextualizar as motivações de Scrooge e sim seu espírito, pois ele quer e tem que ser duro, distante, não acreditar em nada que não seja objetivo, etc… Um sujeito inflexível. E durante os acontecimentos da noite, o texto se baseia muito menos na crítica à burguesia que Dickens faz em sua novela e sim na capacidade que o ser humano tem para mudar, e como isso é necessário. 
Sem sair do tema da obra original e adotando um ponto de vista mais amplo psicologicamente, a saga de Batman aqui vai simplesmente saindo de um completo niilismo para um ponto de vista que nem todo o criminoso o é porque está em sua natureza, mas porque por vezes as condições não lhe deram escolha, e em tempos que se vota a redução da maioridade penal, mas não se discute o sistema de reforma do encarceramento este é um pensamento instigante. O Batman aqui entra condenando todos os criminosos com a máxima de que sempre há escolhas, mas sai com um pensamento um pouco mais complexo.
É interessante notar que essa história apesar de não estar situada nos primeiros anos do herói, como Ano Um e Arkham Origins, ela nos traz um herói com dúvidas e falho tanto nos julgamentos morais como no físico, uma vez que está bem doente na graphic, e isso é talvez um dos grandes motivos do por quê a criação de Bob Kane consegue criar tantas histórias complexas, pois ele é um personagem palpável, quase que presente no mundo real. O Batman é um personagem que até quem não curte HQ’s de super-heróis gosta.
Ainda assim eu creio que possa ter ficado confuso como Dickens encontra Batman, mas eu tentei… O melhor mesmo é ler pois essa é uma graphic obrigatória até para quem não curte Super-heróis, justaposição entre texto escrito e visual nunca foi tão criativa e ainda por cima a arte de Lee Bermejo com a paleta de cor de Barbara Ciardo, é absurdamente magnífica, lembrando um pouco o mestre Alex Ross. Olho neste artista.
Batman Noel
Texto e Ilustração: Lee Bermejo
Editora Panini
112 pgs

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