[Mania de listas] – Melhores do ano do Menezes

Comecei esse ano acompanhando o clube na tarefa de ler Liberdade, livro que eu acabei não terminando por me entediar com os personagens, mas em algum momento eu volto, quando estiver no clima.
No meio do ano fizemos o ritual coletivo de enfrentar o Jogo da Amarelinha, do Sr. Cortázar, livro que faço a menção honrosa de me surpreender de como foi fácil lê-lo e desonrosa de constatar que ele envelheceu mal, e ainda que entre numa eterna de discussão com algumas pessoas por não ter lido dos dois jeitos religiosamente falando, mas não posso fazer nada, o livro não me pegou de jeito algum.
E no momento eu estou me divertindo mais do que imaginava com o Graça Infinita do David Foster Wallace. Dito isso, vamos a bomba: Esse foi o ano que menos li na vida. Ou pelo menos desde que fui iniciado. Também foi um ano sem muitas idas ao cinema, e mesmo sem jogar tudo que gostaria… agora vem a parte que ele começa a reclamar do tempo você pode pensar, mas na verdade não. Diria que tive até bastante tempo, mas durante este descobri o significado de um dito popular: “Férias de mim mesmo”, e foi mais ou menos isso, acabei fazendo muito mais coisas diferente do que a velha rotina, e foi ótimo.
Copiando Juliana, a gente sempre acha no momento do top que não vai conseguir encher os slots, especialmente quando se tem a certeza, como eu, de que não foi um ano produtivo em leituras, mas no final ainda estava com 13 livros para encaixar no top 10, então ainda não chegamos a um limite crítico. Também constato que 2014, um ano ótimo para mim mas horrível para 99% dos meus amigos, foi um ano de retorno a FC e fantasia.
Sem mais delongas vamos ao top:
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10 – Caixa Preta, A – Amós Oz (ISR) Ed. Cia das Letras

Uma das coisas mais legais do nosso clube de leitura é oportunidade de ser forçado a ler um livro específico, e isso é ótimo. Nunca leria um epistolar com a temática de A Caixa Preta se não fosse a insistência kalebiana, especialmente depois de dois Amós Oz tão esquecíveis, que esqueci o enredo (Rimas da vida, Rimas da Morte e De repente nas profundezas do bosque). No fim, não foi um dos romances mais brilhantes que li, nem o mais intenso, ao contrário da maioria dos leitores do clube, mas me moveu por muitos sentimentos desde empatia a ódio mortal pelos personagens, por esse turbilhão de sensações e pelas discussões que o romance adentra, esse é o melhor Amós Oz que li e uma das grande surpresas desse ano.
9 – Primeira Morte, A – Maíra Ferreira (BRA) Ed. Oficina Raquel
É muito bom encontrar um volume de poesia com concisão. Muitos dos que me aventurei a tentar ler esse ano da lírica eu nem tive forças para resenhar exatamente por parecer um apanhado de poemas encadernados. Mas a coletânea da escritora carioca carrega uma identidade própria e uma coligação entre suas poesias e temas que dizem bastante. No final temos um leitura bem compacta com temas da juventude, sexo, amor e indubitável amor pela arte como um todo, nas citações das entrelinhas, um belo e agradável trabalho. (resenha aqui)

8 – Espada do Destino, A/Sangue dos Elfos – Andrzej Sapkowski (POL) Ed. WMF Martins
Todo mundo sabe que trapaceio em algum momento do top, e aqui está: dois livros em um slot, mas tem sua razão de ser, pois se A Espada do Destino (resenha aqui) é maravilhoso por ser um livro de contos que em seu último junta as histórias para ser um pseudoromance, Sangue dos elfos (resenha aqui) segue o caminho contrário e é apresentado como um romance que tem um estrutura tão fragmentada que parece um livro de contos. A Espada do destino é mais genial, pois muda a saga do bruxo Geralt de uma maneira brutal; Sangue dos elfos já parece não sair do lugar. Em todo caso, com tantos personagens interessantes você contínua a leitura querendo saber o destino deles no mundo de fantasia sujo e cru que é Temeria.

7 – Rei de Amarelo, O – Robert W. Chambers (EUA) Ed. Intrínseca
Gostei mais da parte escancarada de terror do compêndio, do que da ficção de costumes que se presta a partir de seu meio. Ainda que entenda a experimentação formal, o mito da peça Rei de Amarelo que assombra os protagonistas dos primeiros contos é algo muito mais genial. O terror é tecido como uma leve suspeita inquietação no espírito do interlocutor, ao não explicitar o que é o Rei de Amarelo, Chambers criou um ícone que se alimenta principalmente da psique do seu leitor, que logo mais está visualizando nos seus pesadelos a imagem de ser com capa amarela. Genial. (resenha aqui)

6 – Noite devorou o Mundo – Pit Agamen (Martin Page) (FRA) Ed. Rocco
Essa talvez tenha sido a grande surpresa do ano, pois peguei o livro para ler algo sem muita complexidade, vide que vinha de algumas leituras porradas. Não posso dizer que a leitura seja tensa, mas com certeza não é agradável, pois Agamen/Page utilizam do clichê do século 21: o apocalipse zumbi, para retratar um outro clichê do romantismo, a solidão do ser. Ao colocar um personagem preso em um apartamento enquanto o mundo se torna num inferno, Page une as duas coisas e faz um livro incrivelmente original. (resenha aqui)
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5 – Filho de Mil Homens – Valter Hugo Mãe (POR) Ed. Cosac Naify
Minha segunda chance ao escritor angolano-português, pois havido achado A Máquina de Fazer Espanhóis um título lindo para um livro chato, e esse é um título estranho para um romance arrebatador. Muito porque ele não está em consonância com nossa sociedade niilista do século XXI, a trama polifônica que valter hugo mãe descreve é um poema simples, mas profndamente emotivo, que ainda que pontue vários males do mundo tem um fundo otimista e cheio de simbolismo com a criação de uma família, não a genética como nossa sociedade ocidental tece odes, mas aquela que se escolhe, a um amor tão puro, que parece ser uma fantasia. Mas isso existe exatamente para nos lembrar que para a ficção é essencial fantasia. (resenha aqui)

4 – Cosmópolis – Don DeLillo(EUA) Ed. Cia. das Letras
Entretanto o mundo é cínico, e essa acaba sendo a veia da literatura que mais produz obras instigantes. Cosmópolis é mais uma obra para zombar da vida no Século XX, um superempresário preso num trânsito sem igual para ir cortar o cabelo, enquanto vaga a passos de tartaruga em sua limusine, que mais parece uma mansão, encontrando vários personagens e situações que estampam o absurdo cotidiano, a ganância por dinheiro e a perdição de um personagem, que apesar de ser surpreendente, integra a galeria dos personagens mais desprezíveis da literatura. Galeria essa que conta com Raskolnikov e Josef K. o que não é pouca coisa. (resenha aqui)

Bronze: Precisamos falar sobre Kevin – Lionel Shriver (EUA) Ed. Intrínseca
Outra lembrança linda do clube de leitura. Demoraria muito para ler esse romance se não fosse pelos meus colegas, ainda que seu roteiro me instigasse a curiosidade há algum tempo. Não vi o filme, por isso o choque é legítimo em seu final. Uma mãe escreve cartas a seu marido para contar a vida após o incidente ocorrido com Kevin, que se tornou em uma desses adolescentes que produzem massacres nos colégios. Um drama especificamente americano, e talvez por isso já seja um ponto forte para Shriver, que trata deste tema com uma clareza de espírito fascinante. Nas cartas a protagonista é tão real e cruel consigo que também choca seu leitor ao admitir que ela desde que Kevin nasceu já não gostava da criança. Não há vítimas aqui, muito pelo contrário… há pessoa falhas, que não buscam redenção mas somente viver. Se não bastaste o tema delicado, a abordagem crua e o psicológico rico dos personagens, temos um final… que conseguiu me surpreender e muito. (resenha da Juliana)

Prata: Androides sonham com ovelhas elétricas? – Philip K. Dick (EUA) Ed. Aleph
Durante minha viagem este ano, li Cavernas de Aço, que é bom, mas tem aquela sensação de que falta algo para se tornar inesquecível. Especialmente porque um pouco antes eu tinha lido o clássico livro que inspirou Blade Runner, finalmente de volta às prateleiras brasileiras e ainda com o título original. Minha leitura foi cercada de expectativas que se concretizaram todas, ao ver um romance que é totalmente diferente de Blade Runner ainda que tenha uma história bem similar ao filme e um tom noir igualmente semelhante, enquanto a complexidade de Scott está nas imagens e em fazer algo essencialmente filosófico no seu final. A obra original é abertamente abrupta com a questão filosófica já a introduzindo logo em sua subtrama com animais falsos e outros verdadeiros que só pessoas com dinheiro possuem. Com essa divisão social bem explícita, a história gira com uma alegoria dessa divisão entre sintético e carnal , e isso muda tudo. A própria confusão de Deckard, se ele seria um replicante ou um humano, é muito mais ácida no livro, como tudo. Enquanto a obra cinematográfica é sutil ao retratar essa questão, o livro é escancarado ao lidar com o que realmente significa ser humano, e o mais incrível é que se pensarmos no esquema de três atos: é a mesma história. Assim Apocalipse Now/Coração das Trevas provaram é possível ter grandes obras literárias e cinematográficas dede que constituam sua própria essência. (resenha aqui)
Meus últimos livros do ano foram:
2010: Verão – J. M. Coetzee
2011: Dublinesca (Enrique Vila-Matas)/ 2666 (Roberto Bolaño)
2012: Torreão, O – Jennifer Egan
2013: Som e a Fúria, O – William Faulkner
Em 2014 a MEDALHA DE OURO vai para Fundo do Céu, O – Rodrigo Frésan (ARG) Ed. Cosac Naify

fundo do céu
Fantástico em todos os sentidos, foi assim que terminei a resenha e após 6 meses posso dizer a mesma coisa ainda. Isso já seria motivo suficiente para colocá-lo no alto do pódio, mas devo enfatizar que há um motivo bem pessoal na escolha desse, coisa que tento evitar mas meus campeões para livro e filme (Nebraska) são pessoais. Isso porque por muito tempo eu ignorei aquilo que me fez gostar de ler: a Ficção Científica/Fantasia foram meus mentores a entrar no universo das letras, ainda antes de começar a procurar o clássicos e por fim me render a ler os contemporâneos, mas foi a fome de devorar a especulação científica que dominou meus anos adolescentes e eu tinha esquecido como é divertido entrar nesse mundo. Este ano eu retomei e acabei me deparando com uma obra que é uma grande homenagem ao gênero.
Indicação de uma pessoa que nunca lerá essas linhas, mas que eu gosto muito, Fundo do céu é uma mistura esquisita entre Ficção científica e Poesia, com três narradores e um universo lírico calcado em brincadeiras com autores de FC com nomes diferentes, mas que você reconhece como sendo K. Dick, Asimov e outros. Ele nos leva por 80 anos de história real e imaginária e pela separação de dois amigos em função de uma menina, a mais clichês das histórias lançada nesse mundo que abrange dois planetas e muitos sentimentos humanos. Sua narrativa fragmentada ao seu final concisa e tem a forma simbólica de um buraco negro, criado por um singelo momento, que atrai tudo para seu centro personagens, história e até mesmo o tempo. Leitura 8/80, ou você vai se jogar de cabeça ou estranhar da primeira linha, mas para aqueles que se aventurarem, lerão uma das epopeias mais fascinantes da literatura latino-americana. (resenha aqui)
Por favor, faça sua lista de melhores do ano também. Adoramos listas e indicações também. No mais, um Feliz Natal para todos.

 Alegre

Um comentário em “[Mania de listas] – Melhores do ano do Menezes

  1. Rafael, adorei sua lista! 2014 também não me ajudou com o número de leituras. Adorei suas indicações. Ano que vem pretendo começar a ler ficção cientifica, então suas indicações vão me ajudar! Nunca tinha feito listas, mas adorei a ideia! Vou copiar. rsrs. Beijos!

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