Fundo do céu, O – Rodrigo Fresán

fundo do céu
Só resta eu, aqui, debaixo do céu.

Sob a diferença desse céu que poetas e religiosos insistem em pluralizar (os céus, dizem e recitam, românticos, perdidos), mas que, na verdade, é um só, indivisível.
Esse céu que está no céu e que cresce a partir do horizonte.
Esse lugar ao qual, quando éramos jovens em chamas, nos dirigíamos com a tranquilidade de quem sabia ser inalcançável, felizes porque tínhamos todo o tempo do mundo, sem suspeitar que – agora eu sei, agora eu sinto – é o horizonte que avança, sem pressa e sem parar, em nossa direção. O horizonte que vem desde o horizonte até finalmente nos alcançar e penetrar em nós, e, de repente, nos tornarmos o horizonte.
Na noite anterior, enquanto começava a escrever isso – quando? – vi na televisão uma entrevista com um escritor de livros infantis. Best-sellers sobre um garoto que viaja pelo tempo em sua bicicleta em busca da mãe. Ou algo assim. O homem respondia com o rosto oculto em sombras, porque afirmava que não gostaria que conhecessem seu rosto ou o identificassem pela rua. O que importava não era ele, e sim as histórias, insistia. E, em certo momento, falou algo que nunca esquecerei: “Escrevemos para vingar da realidade”.
Essas palavras me soaram afiadas, verdadeiras e até incontestáveis.
Mas não tenho certeza de que esse foi meu caso.
Comigo, a questão tinha mais a ver com o fato de escrever primeiro para só então poder me sentir mais ou menos real.
Mas acho que essa foi uma opção melhor.
Também não acho que que exista uma melhor que a outra.
Cada um –  Ezra, eu, Zack, qualquer outro – escreve por motivos muitos diferentes, unidos por um único impulso: não poderíamos parar de escrever e, quando não escrevemos, sentimos que estamos, sim, escrevendo, ou que deveríamos fazer isso.
Como um computador, nos confins do universo, cantando suas últimas palavras, que foram as suas primeiras palavras.
Como um androide que se desliga enquanto monologa sob a chuva acerca de tudo o que viu e ninguém verá.
(…)
Assim como eles se foram, em um passado futuro, eu gostaria de ir também.
Não é possível, é claro.”
Pág 173-175

Ao terminar o recém lançado livro de Fresán, percebi que havia muito tempo que não navega tão fundo na fc/fantasia quanto nesse primeiro semestre de 2014, basta ver meus últimos posts e notar que há uma certa predisposição ao fantástico, seja em sua forma mais sólida, seja na alegórica. Há quem ache que o fantástico se resume a nomes esquisitos, universos mágicos e non-sense. Em alguns casos pode até ser isso, mas esse são os ruins. Quando vemos as intrigas políticas de um Martin, as alegorias humanas de Dick, a recém resenhada trama imaginativa de Xerxenesky, ou o surreal em estado bruto de Rubião, vemos que há muitas possibilidades dentro do fantástico e por mais que ficção científica e poesia sejam um casal improvável de se avistar na pista das letras, Fresán conseguiu o milagre de faze-los ficar junto e O fundo do céu é seu resultado. Não preciso dizer que é diferente de qualquer um dos citados acima.

O que eu preciso dizer é que esta é uma leitura absurdamente fascinante, que já concorre ao meu pódio do fim de ano. E como qualquer leitura fascinante não é das mais fáceis, às vezes me perdia um tempo em uma página para decifrar todas as faces da construção linguística à minha frente. E ao melhor estilo joyciano de se narrar, seu começo é um lugar que vai do nada a lugar nenhum, com um ser perturbado em como começar a própria narrativa, jogando imagens e cenas na sua frente sem se preocupar em dar uma coerência narrativa a ela, mas ainda assim você se move pelo labirinto do autor pois há algo em sua prosa que a faz ficar misteriosa e irresistível até sermos lançados ao final dos anos 30, quando nosso narrador vai nos dar a ilusão de começar a narrativa do início, quando era um jovem gafanhoto e a história segue de como nosso narrador principal, Isaac Goldman, encontra seu melhor amigo, e fundador d’Os distantes, Ezra Leventhal.  Mas não se engane leitor, em uma piscada você perder décadas na narrativa que ora se concentra em certos momentos, ora pula etapas da vida do protagonista em eras. O tempo é o personagem principal.

Isaac é atormentado por um momento da vida específico entre ele, Ezra e a preterida de ambos e por um momento que nunca é revelado claramente em sua narrativa, também por uma outra etapa que ele denomina de Incidente, e o que representa em toda a sua extensão a semântica dessa singela palavra, que só fica clara nos momentos finais da narrativa. Há ainda a menção onipresente da obra Evasão, que o assombra, pois sua fama é quase bíblica dentro da fc e muitos creem que ele é seu autor secreto, o que de fato não é. Quando achamos que o romance vai se abrir em repostas, Isaac revela que não é o único dono da narrativa: o meio é narrado por um soldado no Vietnã e o fim por uma narradora que está em todos os lugares ao mesmo tempo, em todos os tempos….

E assim vamos com todos esses mistérios pela narrativa de Isaac com a curiosidade de saber o que acontece nesse mundo tão calcado na Fc, mas em linguagem tão poética que flerta com o perigoso poema em prosa, mas é um romance apesar de não seguir a estrutura de um romance típico, ainda que tenha ares de policial, afinal estamos indo de encontro a resolver um ou mais mistérios. O que O Fundo do céu? pode ser um pergunta válida, mas que você só faz depois de termina romance. Enquanto você está nele, só flui com a narração dos três narradores, que em seu final conseguem dar um final conciso a uma história que entre tantas camadas de complicação tem seu núcleo em um momento, um momento que muda tudo como aqueles que por muitos anos nós ficamos lembrando em nossas curtas e mortais vivências.

Então há um final e uma história sendo contada aqui, não se preocupem. Apesar de ser conhecido como um liquidificador de estilos, e ainda fazer um posfácio bem longo para justificar inspirações e que o livro não é uma Fc, e sim inspirado por ela. Tenho que informar Rodriguinho, especialmente na resolução da história: esse livro é uma Fc. Entendo receios de se tachar qualquer coisa de x ou z, pois já carrega uma imagem do que aquilo é no momento, que pode ser boa ou não. Toda obra é no fundo um exemplar original de um estilo, e minha tentativa de mostrar o quão difícil é tachar uma obra que flerta com tantas coisas está nesse caos acima, mas toda obra ainda tem sua medula óssea e essa é a fc, tanto porque O Fundo do Céu, é uma das homenagens mais belas a esse gênero tão adorado. Aqueles que forem fãs do gênero verão passagens de 2001, Blade Runner, Mochileiro das Galáxias, entre outros. Em alguns personagens, enxergarão figuras de escritores de Fc, como Philip K. Dick, Ballard e até mesmo uma tiração de sarro hilária com L. Ron Hubbard e sua Cientologia. A obra de Fresán é uma grande homenagem ao gênero.

E para aqueles que ficaram preocupados com a dificuldade, eu digo que é daqueles livros que mais te fazem prosseguir do que temer, e há uma história, a história da separação de dois grandes amigos: Isaac Goldman, que segue a carreira de escritor de Fc, e Ezra Leventhal, que parte uma aplicação mais prática da ciência. Os motivos estão ligados a uma personagem sem nome, e todos os grandes acontecimentos do(os) nosso(os)  tempos(os) giram em torno disso, até mesmo se concentrando em demasia no 11 de setembro. E apesar de cobrir 80 anos, e por que não, dois planetas (sim , isso mesmo!) essa é uma narrativa sobre um momento, que como a gravidade arrasta sempre a narrativa para ele, até que fique claro o por quê. E sobre o tempo, esse moinho incansável que carcome nossa vontade de ser. E, em última instância, é uma narrativa sobre o amor em sua forma incondicional, que talvez seja nossa única forma de lutar contra o tempo.

Preciso dizer que é um livro belíssimo? Uma homenagem a Fc e uma das narrativas mais originais que li. Obrigatória a leitura e se você é fã de Fc, já é um livro de cabeceira.

Fantástico em todos os sentidos.
O Fundo do céu
Autor: Rodrigo Fresán
Tradução: Antônio Xerxenesky
Editora Cosac Naify
352 pgs

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