O Metro e outras histórias

Existem coisas que usamos diariamente e nunca paramos para pensar porque as usamos e como elas surgiram. Pesos e medidas são umas dessas “coisas”. Quem definiu que um metro tem 100 centímetros? Quem definiu que 1 kg pesa 1000 gramas? Para saber a resposta dessas e outras perguntas que vale (muito) a pena ler A Medida do Mundo, de Robert P. Crease. “Conheci” Crease por acaso, quando encontrei numa livraria o livro pop-up Os Mais Belos Experimentos Científicos, livro incrível que fortemente recomendo e que eu deveria resenhar aqui. Sua paixão pela ciência, seu respeito pelo leitor – expresso na forma como escreve sobre ciência de forma clara, divertida e instigante -, fizeram com que eu quisesse muito ler A Medida do Mundo. Além disso, o assunto é instigante: quem escreve sobre pesos e medidas? Como ver ciência em coisas tão “cotidianas”? 
A ciência, como as divindades, está em todos os lugares, inclusive na definição dos pesos e medidas. Mas nem sempre foi assim. Como lemos no livro, a humanidade sempre buscou formas de mensurar o peso e comprimento das coisas. Cada civilização, à sua maneira, buscou definir suas unidades de medidas: os chineses movidos pela necessidade de religiosa definiram suas medidas de forma a construírem os sinos ritualísticos mais afinados possíveis. Para tribos africanas, o sistema de pesos e medidas era mais que ferramenta para mensurar quanto pesava ou quanto media alguma coisa: seus sistemas de pesos e medidas eram parte do tecido que formava a sociedade.  Mas foram os franceses que resolveram tornar científico o ato de medir e pesar. Na esteira da revolução francesa, os primeiros peso e metro padrão foram criados. Com o advento da industrialização, ter medidas padronizadas e confiáveis se tornou uma necessidade econômica. A partir daí iniciou-se uma mobilização mundial para se definir um sistema universal de pesos e medidas. Mobilização essa ainda em curso e muito perto de ser bem sucedida.

Como tudo na ciência, é uma história de aventura, de homens cheios de princípios e boas intenções e de outros que passam longe do que se pode chamar de honra. Fazer ciência é, em certa medida, uma atividade épica, com avanços e retrocessos, com sucessos espantosos e fracassos retumbantes. A metrologia (a ciência que estuda pesos e medidas) também é assim: seu fracasso principal foi os EUA e Inglaterra se recusarem a usar o sistema decimal desenvolvido na França e que todo o resto mundo (nós incluído) usamos. Seu maior sucesso foi finalmente conseguir que a definição dos pesos e medidas realmente fossem baseados na natureza. Então calibramos nossos relógios de acordo com o desdobramento hiperfino do Césio-133, o metro é definido pela velocidade da luz no vácuo e o peso será definido pela constante de Planck (num experimento belíssimo que só quem ler o livro vai saber).
Houve um tempo que as pessoas podiam medir, pesar e definir a passagem do tempo usando parâmetros imprecisos que eram familiares, naturais. Nesse livro vemos que quanto mais nos aproximamos da natureza para definir essas constantes, mas nos afastamos da familiaridade dos padrões. O que esse livro mostra é que, como o papel moeda, tão importante quanto definir o verdadeiro peso e medida, é torna-las confiáveis. Somente quando as pessoas no dia-a-dia confiam no sistema métrico é que realmente se torna válido.
Nunca achei que existisse um ramo da ciência chamado metrologia e nunca imaginei que pudesse ser tão interessante e desafiador. Nunca me passou pela cabeça que um livro sobre isso pudesse ser tão informativo e gostoso de ler. Fui agradavelmente surpreendida por saber que esse livro existe eu tive o privilegio de ler. Acredito que todos os que se aventurarem a lê-lo ficarão agradavelmente surpreendidos, como eu.
A Medida do Mundo
Autor: Robert P. Crease
Tradução: Georje Schlesinger
Editora Zahar, 2013
296 pp

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