[Colunista] Os sete crimes de Roma

Por: Ivan Ricardo

“- Lá em cima – murmurou Flavio.
Levantei a cabeça, crente do que veria, como sempre, a longa espiral de pedra cinza com desenhos das vitórias de Marco Aurélio contra os germanos e, no topo, a trinta metros de altura, a estátua do conquistador a cavalo.
Mas, para minha grande surpresa, o imperador não estava sozinho em sua montaria: alguém ou, talvez devesse dizer, o que restava de alguém: um corpo nu, vermelho de sangue, horrivelmente decapitado. Uma espada curta estava enfiada em suas costas, como uma flecha no meio de um alvo. Àquela distância, não dava para distinguir se o corpo pertencia a um homem ou a uma mulher.” (p. 10)
 

Num texto sobre o conto policial que faz parte do livro Borges Oral, livro que reúne cinco palestras ministradas por Jorge Luís Borges em Buenos Aires, em 1979, o escritor argentino diz que Edgar Alan Poe foi o responsável não só pela criação do conto de suspense, mas do próprio leitor de suspense, aquele leitor que aguarda com ansiedade o desfecho de uma história – conto, novela ou romance – de mistério, ficando sempre “em suspensão”. Pode-se concordar ou não com a afirmação de Borges, que, além de grande poeta e contista, foi um agudo crítico literário, mas o fato é que Poe criou uma fórmula de sucesso explorada até hoje, pela literatura, pelo cinema e pela televisão, e que agrada o grande público.

Borges afirma que Poe imaginava seu leitor ideal como sendo um passageiro que embarca num trem em Nova York com destino a Boston, ou vice-versa, e que nas duas horas de percurso entre as duas cidades, não quer tirar um cochilo nem admirar a paisagem, mas deseja se entreter com outra coisa, como, por exemplo, um conto longo ou uma novela curta e que, ao final do trajeto, seja resolvido. Começando a ser publicado em jornais e revistas, e agindo intuitivamente como um verdadeiro precursor da chamada Indústria Cultural, Poe, então, dedica-se a preencher a expectativa desse indivíduo com algo que possa vir a agradá-lo e a atender àquela demanda: um texto cheio de mistério, reviravoltas e, claro, morte, mas que, podemos acrescentar, nem sempre prima pela elegância no estilo, dada as condições materiais em que é realizado, nem pela verossimilhança (vide “Os assassinatos da Rua Morgue”).


Os sete crimes de Roma, de Guillaume Prévost, é um bom exemplo de como a “fórmula de Poe” continua funcionando com o acréscimo de um ingrediente novo surgido nos últimos anos com mais força: a inclusão de um personagem histórico, no caso Leonardo da Vinci, na elucidação do crime ou de um enigma. Na verdade, da Vinci irá auxiliar o jovem Guido Sinibaldi, estudante de medicina de 21 anos, filho do ex-xerife de Roma assassinado três anos antes, a resolver uma série de assassinatos brutais entre dezembro de 1514 e janeiro de 1515. Ao todo, são seis assassinatos e a execução de um provável inocente. Todos os crimes parecem ter sido praticados por um fanático religioso, já que as vítimas são pessoas que vivem em pecado, o que faz do assassino, para alguns, uma espécie de anjo vingador.

Desde o início percebemos um certo déja vu literário com a introdução de Guido afirmando estar em seus últimos momentos de vida e que os eventos narrados se passaram há quarenta anos. Umberto Eco, que sempre gostou de pastiches e paródias literárias, caso tenha lido Os sete crimes de Roma, se sentiria lisonjeado com a homenagem implícita – ou nem tanto – ao seu romance mais famoso. Caso o leitor não se sinta desestimulado pela obviedade da referência, haverá momentos razoáveis durante a trama e outros nem tanto. Como qualidades do romance de Prévost, podemos citar a correta contextualização histórica – o autor é professor de História – do papado de Leão X (Giovanni de Médici), último papa não-sacerdote, que viu a Igreja Católica ser dividida pela Reforma de Lutero pouco depois dos eventos narrados, em 1517; outro aspecto interessante do romance é a ideia do assassinato ter vinculado a execução de seus crimes a uma obra de arte da época e que, é bom ressaltar, não se trata de nenhuma obra de da Vinci; e, por último, uma hipótese plausível para um dos mistérios envolvendo a Igreja Católica e uma de suas relíquias mais importantes.


Sobre os defeitos, podemos dizer que os mais comuns são certas inverossimilhanças que não são explicadas – um exemplo: na cena inicial, um corpo foi parar no alto de uma estátua que está a trinta metros de altura sem que maiores informações sejam dadas nem antes nem depois – e uma candidata a heroína de dezessete anos, por quem o herói platonicamente se apaixona, que não tem mais que seis páginas de participação em todo o livro e sua atitude despropositada nas duas situaçãoes em que se veem frente a frente. A não ser que o personagem de Guido tenha uma nova aventura a ser narrada por seu autor e que haja desdobramentos desta relação, que de fato desconheço, a participação da personagem poderia ter sido descartada, já que nada acrescenta para a trama principal.


Temos que convir que, diferentemente do romance comum, quando contamos muitos detalhes de um suspense, o interesse do leitor acaba diminuindo, por isso deve-se ter cuidado com o que revelamos, principalmente numa resenha. Mas em vista de tudo que foi dito neste texto, pode-se perguntar se vale a pena a leitura de Os Sete pecados de Roma. Bem, não sou um aficcionado por histórias policiais, mas me interessei pelo livro, e, enquanto lia, fiquei interessado em saber como tudo aquilo terminaria, portanto acredito que a leitura do romance é plenamente justificada como entretenimento, o que prova que a “fórmula de Poe” continua atual e funcionando. E ampliando um conselho de Calvino a respeito dos clássicos: porque é melhor ler do que não ler.

Ivan Ricardo Melz é formado em Jornalismo e trabalha na Livraria da Vila.


Os sete crimes de Roma
Autor: Guillaume Prévost
Tradução: Fernando Scheibe
Editora Autêntica/ selo Vertigo
256 pgs

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