Aos 7 e aos 40 – João Anzanello Carrascoza

“Eu vivia entre as pessoas, as árvores, as casas. Não tinha aprendido ainda a viver na sua raiz, só saltava sobre seus galhos, no espaço entre uma e outra. Ignorava o que era voltar, eu só ia às coisas -era o meu tempo de começos. Pra mim havia o dia (a escola, os amigos, as brincadeiras) e a noite; mas a noite não era o fim do dia, a noite (o medo, o cansaço, o sono) era apenas uma escura hora antes de um novo dia.
Então foi que entendi, e, mais do que entender, eu senti o que era partir, quando num sábado, fui com meu pai, cinco horas de viagem, visitar o tio Zezo.”
Página 117

 
Há algumas semanas falei do livro de contos, Primeira Pessoa, da Ali Smith (aqui), em que ela ‘brinca’ com as diferenças entre o conto e o romance. Sei que esse assunto é muito massa véia (fazia muito tempo que eu não ouvia essa expressão e para aqueles não familiarizados aqui vai uma breve explicação: Massa Véia são aqueles ‘fórmulas’ usados à exaustão, por exemplo nos quadrinhos de heróis que utilizam alguns desses recursos direto), mas ainda me fascina.

Essa divisão dos contos e romances sempre me chama a atenção e hoje temos um exemplo excelente e curioso.


Aos 7 e aos 40 é o primeiro romance de João Anzanello Carrascoza depois de mais de 13 livros de contos e outros tantos infanto-juvenis (e mais outros livros com perfil universitário sobre publicidade, profissão que ele não exerce mais e hoje dá aulas) e também depois de vencer alguns prêmios como o Jabuti (2007) e o APCA (2012).

Como o próprio título parece entregar, Aos 7 e aos 40 narra a história de um mesmo personagem em 2 momentos distintos: quando ele é mais novo, aos 7 anos, e depois aos 40. Até aí tudo bem não?

Mas existem alguns detalhes que tornam essa história especial.

Antes de mais nada vale destacar o texto poético de Carrascoza. Já tinha lido 2 contos do seu livro anterior, Aquela água toda (tem um personagem que aparece nesse livro e depois volta no Aos 7 e aos 40), mas talvez por não ter dado continuidade ao livro não consegui pegar todas as nuances do seu texto. E quando li o seu romance, tudo mudou. Adorei a sua escrita poética, a forma como ele constrói imagens tão belas e emocionantes, só que em nenhum momento ele é piegas, pelo contrário, ele consegue fazer você acreditar na história e querer saber ainda mais.

Outra coisa curiosa é a atenção que Carrascoza dá aos pequenos momentos da nossas vidas, diferente do que achamos, ele parece acreditar que os momentos importantes são esses da vida cotidiana, do marido que quer chegar logo em casa para encontrar a mulher e o filho, ou ainda quando você é criança e está esperando o seu pai chegar com balas e doces e naquele instante não parece que você precisa de mais nada.

Na parte do livro que narra a infância, ele resgata momentos que de certa forma o marcaram e tem ligação direta com o momento da sua vida adulta (que segue uma linha cronológica mais normal, por assim dizer). Por exemplo, sua mãe diz que ele vai aprender a ‘ler’ as pessoas e ele fica brincando com ela e não consegue entender o que ela quis dizer, até o momento que ele entende e isso o marca. Quando adulto ele já sabe quando o momento não é bom, como se tivesse mesmo aprendido a ‘ler’ as pessoas.

O livro tem como base a relação entre pai e filho, seja na infância ou mesmo com ele adulto, só que ele ainda consegue abordar outros momentos, outras sensações, aprendizados, perdas e a dificil passagem do mundo infantil para o mundo adulto.

Queria pode falar mais e mais da história, mas acho que estragaria as surpresas, o prazer em descobrir junto com o autor os detalhes nas menores coisa, do nosso cotidiano.

Para complementar a história vou destacar o projeto incrível do livro.

Mas vou precisar de algumas ilustrações:

O Livro tem como capítulos impares sempre ele aos 7 e os capítulos pares sempre aos 40. E aquela ideia dos capítulos que se completam fica claro com os títulos de cada um, por exemplo DepressaDevagar DiaNoite.

E aí uma das coisas mais intrigantes do livro: Sempre que estamos acompanhando aos 7 ele fica na parte de cima do texto e o texto parece ter muito mais vida, lembrando aquela urgência que temos quando criança.

Agora na parte adulta é sempre na parte de baixo e o texto parece diminuir, e entra um elemento muito forte no texto de Carrascoza, o silencio. Quando ele chega na idade adulta, ele parece falar muito menos. As vezes faltam as palavras e só sobra o silêncio. Que parece ter muito a dizer.

Ps. Além de tudo isso, a capa é linda!

Aos 7 e aos 40
Autor: João Anzanello Carrascoza
Editora Cosac Naify
158 páginas

4 comentários em “Aos 7 e aos 40 – João Anzanello Carrascoza

  1. Há coisa de um mês folheei esse livro na livraria, atraída pela capa. E, caramba, achei bem legal as diferenças de diagramação; ainda mais interessante foi a construção do livro, com o mesmo personagem ora criança ora adulto. Nada tremendamente inovador, mas achei especialmente curioso (a diagramação com certeza teve efeito sobre essa minha impressão), acho que é uma estrutura que proporciona uma série de desdobramentos interessantes.
    Nem preciso dizer que fiquei com vontade de ler o livro…

    Um beijo, Livro Lab

  2. Kalebe, curti o blog! Ótima fonte para as futuras leituras.

    Adianto que comecei a ler “apocalipse dos trabalhadores”, que vc tinha me indicado na feira do livro da Sanfran, lembra? To curtindo! E consegui ir no bate papo literário com autor que vc tinha comentado, no Sesc Pompéia, na sexta passada. Quem sabe agora não me fidelizo como fã de Valter Hugo Mãe?

    beijos, Aninha.

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