A velocidade da Luz – Javier Cercas

“Uma vez li uma frase de Pascal que afirma que ninguém se entristece por completo com a desgraça de um amigo”, escreveu Rodney dois meses depois de sua chegada a Da Nang. “Quando a li me pareceu uma frase mesquinha e falsa: agora sei que o que ela diz está certo. O que torna verdadeira é esse ‘por completo’. Desde que estou aqui, vi vários companheiros morrerem: a morte de cada um deles me horrorizou, me enfureceu, me fez chorar; mas mentiria se dissesse que não senti um alívio obsceno diante dela, pela simples razão de que o morto não era eu. Ou, dito de outro modo: o horror está na guerra, mas já muito antes estava em nós.”
Página 93


Quando comecei a prestar um pouco mais de atenção nos filmes, por algum motivo os filmes sobre a Guerra do Vietnã sempre chamaram a minha atenção. Filmes como Apocalipse Now (Francis Ford Copolla em um dos filmes mais espetaculares que eu já vi e um dos mais significativos sobre a questão do Vietnã, o trailer original abaixo), Full Metal Jacket (ou Nascido para matar, Stanley Kubrick), Nascido em 4 de Julho (Oliver Stone), Pecados de Guerra (Brian De Palma), Forrest Gump, Platoon e Rambo (por essas vocês não esperavam né? Ele era um veterano do Vietnã que passou por alguns traumas na guerra) tratavam desse assunto, que durante um bom tempo foi uma ferida exposta na sociedade americana.


A guerra do Vietnã aconteceu em plena Guerra Fria, quando o medo do comunismo estava em alta e logicamente os EUA entraram em guerra com o Vietnã do norte (que nesse época já era dividido em norte comunista e sul capitalista) para defender os interesses dos cidadãos do sul (mais ou menos como aconteceu com o Iraque). Tá certo que existem outros motivos por trás dessa guerra, mas nunca ficou muito claro o porque. EU não conseguia entender ao certo esses motivos e os filmes me ajudaram um pouco mas o estranhamento era muito grande.

A Guerra do Vietnã foi a primeira que a imprensa acompanhou de perto e talvez esse tem sido um dos fatores que contribuíram para que a população soubesse o que de fato estava acontecendo. Só que essa ‘denúncia’ da imprensa também pode ser vista por outro aspecto. Todos esses filmes mostram o absurdo que foi essa guerra e principalmente como os soldados que voltaram de lá ficaram completamente malucos. Boa parte dessas histórias tratavam dessas pessoas que passaram por esse horror (que é difícil até mesmo de imaginar), e ao chegar aqui eram acusados por muitas pessoas de matarem crianças; chegavam a levar cusparadas entre outras coisas. Estou longe de querer defender a guerra ou coisa parecida, mas um soldado que infelizmente segue ordens vai para esse lugar ‘defender’o seu país (vale lembrar que no começo quase ninguém sabia o que estava acontecendo e as pessoas não concebiam a ideia do governo estar mentindo para a população), chega lá e descobre que lá é um inferno e quando volta, não é respeitado por ninguém. É pra enlouquecer um pouco a cabeça dessas pessoas que voltaram, não?

Toda essa longa introdução tem tudo a ver com o livro de hoje, Velocidade da Luz, do espanhol Javier Cercas. No livro o autor conta uma história de um veterano do Vietnã ao mesmo tempo que ele questiona a própria forma de contar essa história.

Cercas narra em primeira pessoa a história de um jovem professor universitário que deseja ser escritor e acaba indo dar aulas de espanhol numa cidade chamada Urbana, próxima a Chicago. E é lá nessa cidade que ele conhece Rodney Folk, veterano da guerra do Vietnã, que também dá aulas na universidade, mas é uma figura reclusa e que não parece se importar em fazer muitos amigos por lá.

O livro é narrado pelas lembranças de Cercas (ou o escritor espanhol que parece e muito com Javier Cercas), do tempo em que ele conviveu com Rodney e depois das cartas que ele escrevia para o pai enquanto estava no Vietnã. Rodney é um daqueles personagens fascinantes e atormentados que marcam a vida do jovem escritor (por um período muito curto de tempo) e não só pela sua história pessoal, mas principalmente pela visão que ambos tem da literatura. Tanto que em dado momento ele confessa para Rodney que quer escrever e entrega a ele um rascunho do seu romance e a honestidade com que ele destrói seu livro é assustadora. E nesse momento vem uma reflexão sobre a escrita, os escritores o sucesso que é uma das melhores partes do livro. Entre essas revelações, uma chamou muito a minha atenção:

“Então o narrador é você mesmo?”, inferiu Rodney. “Nada disso”, devolvi, feliz porque agora era eu quem conseguia confundi-lo. “Ele se parece em tudo comigo, mas não sou eu”. Encharcado do objetivismo de Flaubert e Eliot, argumentei que o narrador do meu romance não podia ser eu porque nesse caso me sentiria obrigado a falar de mim mesmo, o que não era só uma forma de exibicionismo ou obscenidade, mas um erro literário, porque a verdadeira literatura nunca revelava a personalidade do autor, mas a escondia. “É verdade”, reconheceu Rodney. “Mas falar muito de si mesmo é o melhor jeito de se esconder.” Página 50

Essa ideia do autor como personagem e a forma como Cercas narra esses episódios é simplesmente fascinante. Porque logo após essa conversa (ou um pouco mais adiante), Rodney some e vamos entender mais um pouco sobre ele quando o escritor entra em contato com o seu pai e daí descobre essas cartas da época do Vietnã. Essa primeira parte do livro termina e você não consegue entender onde ele quer chegar, e isso é a melhor coisa que pode acontecer no livro.

Depois de conhecer um pouco do passado de Rodney, o escritor volta para a Espanha e a vida contínua.

Só que nessas digressões de tempo, entre passagens do Vietnã, vida na universidade e Espanha, Cercas questiona a utilidade de escrever mais um livro ou mesmo de contar essa história (o próprio livro e também a história de Rodney) e ele começa a escrever e se preocupar com outras coisas, começa até ter um certo sucesso. Mas quando tudo não parece mais ter saída, talvez seja o momento de contar essa outra história, como se acreditasse que é possível a redenção (numa busca que beira o desespero).

A história de Rodney é impressionante e horrível, por assim dizer, mas a forma como Cercas a narra consegue construir uma trama cheia de detalhes (e dúvidas), mas de uma forma não convencional. Poucas vezes li um livro que relacionasse assuntos e formas diversas como esse. Uma outra vez que eu me lembro de ter lido algo parecido no estilo foi quando li Roberto Bolaño. E isso não é coincidência: Bolaño e Cercas eram amigos e inclusive o autor chileno foi um dos personagens de Soldados de Salamina, livro anterior a esse Velocidade da luz e que foi o sucesso que consagrou o autor espanhol. Soldados de Salamina retrata a Guerra civil espanhola de um modo inovador e curiosamente tem um narrador chamado … Javier Cercas.

Ainda estou pensando no livro e na forma arrebatadora que ele termina.

Já estava querendo ler Javier Cercas desde o ano passado, quando ele foi um dos protagonistas da melhor mesa da Flip (junto com o colombiano Juan Gabriel Vasquez) e depois desse Velocidade da Luz, um dos meus próximos livros com toda a certeza vai ser Os Soldados de Salamina.

PS. a longa introduçaõ surgiu como uma forma de pensar o texto além de querer passar o contexto do que eu imaginava do livro e na forma de compartilhar um pouco da história sem estragar as surpresas que existem.

Ps. 2 – Não consegui relacionar no texto, mas pensei muito num filme que vi recentemente, Hannah Arendt, sobre essa questão das pessoas que simplesmente cumprem ordens. Na verdade o perigo disso. Filme incrível e assustadoramente real. Se puderem assistam.

A Velocidade da Luz
Javier Cercas
Tradução de Sérgio Molina
Biblioteca Azul / Globo Livros
245 páginas

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