O Lado Bom da Vida – Matthew Quick

Meu pai não fala comigo desde que os Eagles perderam para os Giants, e não verei o Dr. Cliff até a próxima sexta-feira. Além disso, começo a achar que Tiffany é a única que poderia entender, já que ela parece ter um problema semelhante ao meu e está sempre explodindo, como na praia, quando Veronica sem querer mencionou o terapeuta dela na minha frente.
Olho para Tiffany, curvada em seu assento, os cotovelos na mesa. Está usando uma camisa preta que faz o seu cabelo parecer ainda mais preto. Está maquiada demais, como de costume. Parece triste. Parece com raiva. Parece diferente de todas as outras pessoas que conheço -ela não consegue fingir aquela expressão feliz que os outros fingem quando sabem que estão sendo observados. Ela não precisa fingir comigo, o que me faz confiar nela, de certa forma.
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Sempre que falamos sobre adaptações (sim, estou generalizando porque esse assunto é sempre recorrente), é comum apontarmos que em 99% (exagero) dos casos o livro seja sempre melhor que o filme. Na verdade essa comparação é injusta. O livro nos exercita e nos propõe usar nossa imaginação, criando imagens que são impossíveis de traduzir na maioria dos casos. Penso que mais do que isso, são plataformas com propostas diferentes e uma boa adaptação de um livro para o cinema depende fundamentalmente desse entendimento. É preciso entender também ao que o filme/livro se propõe.

Tudo isso para dizer que eu queria ter lido o livro O Lado bom da vida antes de ter visto o filme, lançado aqui no começo do ano (mais especificamente na temporada dos filmes do Oscar). O filme foi uma das maiores surpresas do ano e está entre os melhores de 2013 (claro que na minha opinião).

O Lado bom da Vida narra a história de Pat Peoples que passou um tempo internado em uma instituição psiquiátrica, depois de um acesso de raiva em que não fica muito claro (para o leitor) o que aconteceu. Ele é ‘resgatado’ pela sua mãe, que acredita na sua melhora e um dos fatores que podem ajudar nessa recuperação é Pat estar perto dela e da família.

Pat não consegue perceber exatamente o que aconteceu nesse tempo que ele passou internado. Na verdade ele não consegue acreditar no tempo que as pessoas dizem que ele ficou lá dentro do ‘lugar ruim’ (como o próprio Pat chama a clínica): 4 anos (no filme eu tenho a sensação que talvez tenha sido menos tempo, talvez alguns meses).

Quando volta para casa, Pat só tem uma coisa em mente: provar que ele está muito melhor mentalmente (e fisicamente) para que ter a chance de reconquistar sua ex-mulher Nikki. O problema é que Pat fantasia a situação e não consegue aceitar o fato de que Nikki tem uma ordem de restrição contra ele, e até já se casou novamente.

Pat é um personagem extremamente carismático que está num processo lento e muito doloroso de recuperação e você acaba torcendo muito para ele. Em diversos momentos, Pat perde o controle, mas ao mesmo tempo que isso acontece (e algumas vezes ele não se lembra muito bem), ele tem consciência de que todo esse esforço pode ter sido em vão se ele não se controlar e o seu terapeuta ajuda muito nesse processo.

Ao longo da história vamos conhecendo outros personagens como a mãe (já citada), que sofre muito para manter a família unida, o pai, que é um maluco obsessivo fanático pelo Philadelphia Eagles – time de futebol americano -, o irmão já bem sucedido, mas que não sabe como lidar com a ‘doença’ (muitas aspas nessa palavra) e o melhor amigo que tem medo da mulher. Aliás, esse amigo acaba por apresentar a sua cunhada que há pouco mais de 1 ano perdeu o marido (ele era policial e foi assassinado) e que também está passando por um longo e difícil processo de recuperação. Tifanny começa uma amizade bem estranha com Pat e percebe que ele é uma boa pessoa só pelo fato dele não se aproveitar dela como todos os outros homens fizeram desde que o seu marido morreu. Na verdade Pat ainda acredita que é casado com Nikki.

Tiffany começa a acompanhar (seguir é um termo melhor) Pat em suas corridas diárias e de alguma forma parece que talvez ela possa ajudar a entrar em contato com sua ex-mulher.

O lado bom da vida se concentra nessa jornada de Pat. Narrado em primeira pessoa, é uma boa história, mas muito simples, sem grandes mudanças e em alguns momentos até um pouco cliché, mas o que salva a história de passar desapercebido é o carinho por Pat, carismático, sincero e profundamente humano em suas falhas.

Filme

Quando eu comecei a falar das diferenças entre filme e livro, fiquei pensando muito em O Lado bom da vida. Queria ter lido o livro antes de ver o filme. Talvez porque eu tenha gostado demais do filme, quando fui ler o livro, ainda estava com muitas cenas na cabeça.

Algumas diferenças do filme para o livro (sem Spoilers):

O clímax do filme é incrivelmente bem construído e foge muito pouco para o livro;

Ainda que seja a história de Pat, no filme, Tiffany é muito importante. No livro às vezes fica a sensação de uma coadjuvante simples;

Ainda que seja difícil de caracterizar isso como uma diferença de livro x filme, a química entre Pat (Bradley Cooper, ótimo) e Tiffany (Jennifer Lawrence, apaixonante) é fantástica.

Acho que o bacana é que um complementa o outro. Se viu o filme, leia o livro, se não aproveite o livro, veja o filme.

Abaixo o trailer do filme:

O Lado bom da vida
Autor: Matthew Quick
Tradução Alexandre Raposo
Editora Intrínseca
252 páginas

Um comentário em “O Lado Bom da Vida – Matthew Quick

  1. Também vi o filme antes de ler o livro e confesso que o filme me pareceu bem mais verossímil. Tem coisas muito boas no livro, mas várias outras que eu simplesmente não consegui engolir. Talvez, pra mim, esse gênero de história funcione melhor nas telas do que nos livros.
    Lembro que saí da sala de cinema me sentindo melhor (estava passando por uma fase complicada quando o assisti), enquanto o livro me deixou angustiada. Ahh, e a química entre o Pat e a Tiffany é insuperável nas telonas :33

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