Espananews Especial: Programação Flip parte 1

Nessa semana que passou enfim a Flip anunciou sua programação oficial. E para aqueles que, como nós aqui d’O Espanador, aguardavam com ansiedade os nomes, a primeira sensação que fica foi um certo  estranhamento. Essa sensação foi provocada pelas inúmeras e significativas mudanças em sua programação e no modo como víamos a Flip.

Pensando nessas mudanças, resolvemos fazer um post em 3 partes sobre a Flip e quem são os autores que vamos acompanhar no evento.

Vamos começar falar do principal atração da Flip: a programação.

Um tiquinho mais cabeçuda
O que chama a atenção nos nomes anunciados é a variedade e a falta de autores mais ‘conhecidos’, por assim dizer. Não que faltem bons nomes, não é esse o ponto. Mas se pararmos pra pensar que no ano passado tínhamos nomes como Ian McEwan, Enrique Vila-Matas, Jonathan Franzen, Javier Cercas, esse ano os nomes que mais chamam a atenção são John Banville, Lydia Davis e Michel Houellebecq. Não vamos discutir a diferença dos nomes, mas nitidamente os da edição anterior tem um peso muito maior, são mais lidos e conhecidos aqui no nosso país.


Uma notícia da Folha de SP do último dia 24, conta que a Flip não se interessou pela sugestão da LeYa de trazer Chuck Palahniuk, autor de Clube da Luta. O nome pode até parecer simples, ou fora de propósito (pensando na curadoria), mas com certeza atrairia um público que é bem fiel ao autor, mas que, no fim das contas, destoaria do tom do resto da programação. Infelizmente.

Essa mudança de perspectiva de autores mais ‘famosos’ (péssima escolha de palavras), acabou por fazer um contraponto interessante com autores brasileiros: neste ano são 23 nomes, o maior número de todas as edições da Flip.

À primeira vista o que chama a atenção na programação são os nomes de outras áreas que não a literatura, como por exemplo o Cinema, presente na mesa 10 com Nelson Pereira dos Santos (ainda que o tema seja os filmes do diretor que adaptam a obra do homenageado, Graciliano Ramos) e a mesa 12, um encontro com Eduardo Coutinho; a Arquitetura como tema na mesa 2 com Paul Goldberger e Eduardo Souto de Moura; ou ainda a mesa 4 com T.J.Clark na mesa Olhando de novo para Guernica, de Picasso.

A curadoria da Flip diz que o evento sempre teve outros interesses. “Desde o início, a Flip é um festival de artes e ideias que tem como eixo a literatura mas incorpora cineastas, por exemplo. O hibridismo de diferentes áreas é muito estimulante, a exploração do limite entre o literário e outros tipos de discurso”, afirma Miguel Conde, curador da Flip, durante a coletiva de imprensa.

O que não dá para entender e aceitar é que nesse ano (diferente dos anteriores) não tenha nenhuma mesa sobre o quadrinhos. Uma pena. Nas edições anteriores comemoramos o reconhecimento da 9ª arte dentro da programação, com uma mesa, e este ano ficamos um pouco órfãos.

Quando falamos sobre a forma como vemos a Flip, pensamos em alguns pontos que estão nas entrelinhas, mas que merecem uma atenção especial.

“Público de alta qualidade”(?)
Depois de falarmos um pouco sobre a programação, fica muito claro que o objetivo é que ela não seja ‘popular’, por assim dizer. A curadoria escolheu um caminho mais alternativo (novamente, uma escolha ruim de palavras) do que vinha acontecendo nos últimos anos.Acompanhamos a Flip de perto há pouco mais de 5 anos e a cada ano que passa, a cidade fica ainda mais cheia e mais cara. Ano passado talvez tenha sido o ápice da Festa (que se juntou ao fato da Flip ter completado 10 anos) e a sensação de que não seria possível dela crescer ainda mais.

Mas será que era necessário fazer uma programação tão ‘diferente’? Todas as pessoas com quem conversamos sobre a programação estavam impressionadas (de uma forma negativa) com a falta de ‘grandes nomes’, ou mesmo com esse grande números de mesas sobre outros temas que não a literatura.

E durante a coletiva que divulgou a programação, chamou a atenção a declaração de Mauro Munhoz, diretor-geral da Flip, que informou que o orçamento da Festa deste ano é de R$ 8,6 milhões, e, segundo ele, o valor maior representa um crescimento. “Não queremos que extrapole a capacidade da cidade, mas queremos alcançar um público de alta qualidade. A expectativa é de recebermos entre 20 a 25 mil pessoas, que é o que alcançamos nos anos anteriores. São 15 mil leitos em hotéis mais os moradores”, afirmou Munhoz.

Difícil entender o que ele quer dizer com essa afirmação de um público de alta qualidade, já que pelo fato de ser um evento tão caro, não é pensado num público maior mesmo.

Custo-Flip
Essa questão do alto custo do evento se torna um grande problema.

Depois de 10 anos como livraria oficial da Flip, a Livraria da Vila não vai para Paraty neste ano e quem entra no lugar é a carioca Travessa. Vou reproduzir a nota da Raquel Cozer na Folha de SP do dia 25 de maio:

“A estréia da Travessa como livraria oficial da Flip, em julho, é um plano que Rui Campos adiou por uma década.
Em 2004, a loja carioca concorreu com a Livraria da Vila, que bancou o projeto mais caro. “Resolvemos tentar de novo”, diz o livreiro, que prevê investir R$ 200 mil e não imagina lucrar muito com as vendas. “É um jogo para o empate.”
A decisão coincide com a expansão da Travessa, que em novembro estreia fora do Rio, com loja em Ribeirão Preto.
Já a Livraria da Vila informou que desistiu justamente pelo trabalho envolvido na abertura de sua primeira loja fora de terras paulistas, em Curitiba. E porque o aumento no custo de serviços tornou a participação “inviável”.”

Difícil imaginar que um empresário vai investir R$ 200 mil e não vai ter muito lucro. Lógico que a exposição de uma marca conhecida e consolidada como a Travessa é um ótimo negócio, mas causa um estranhamento sobre as questões dos valores da Flip.

Um bom exemplo disso, é a questão das casas das editoras.

Para quem não sabe, algumas editoras ao longo dos anos criaram um espaço onde acontecem bate-papos, divulgação e até mesmo venda dos livros. No ano passado algumas editoras tiveram o seus espaço como a Companhia das Letras (de longe o espaço mais simpático dos últimos anos), Rocco, Intrínseca e o IMS.
Nesse ano a única que anunciou que vai ter um espaço até agora foi a Record (autora do Autor Homenageado, Graciliano Ramos) e o maior choque foi a Companhia não ter a sua casa, bem com Intrínseca e Rocco. As editoras alegaram o “alto Custo-Flip”, segundo a Coluna do Babel (Maria Fernanda Rodrigues) do dia 24 de maio.

Talvez esse texto tenha ficado um tanto pessimista, mas achamos que seria interessante apontar algumas contradições que encontramos. Mas é bom lembrar que ano passado também colocamos em dúvida algumas escolhas da curadoria e a programação foi ótima. Nos próximos posts vamos falar sobre os autores convidados. Até lá!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *