[Favoritos da casa] Lygia Fagundes Telles

 

lygia

Não assisto novelas, mas sei que há algum tempo atrás uma novela de nome Ciranda de Pedra estava passando na televisão. Cheguei a comprar o livro como presente à minha vó, mas aparentemente ela não gostou muito, a densidade da história era muito mais profunda que a história da TV, que como toda a boa novela tem muitos momentos cômicos próprios ao gênero. No fundo bate uma curiosidade em entender como uma história cujo mote central é a solidão sem limites se transforma num folhetim visual, mas essa curiosidade não dura mais que dois segundos.

cirandaSoidão sem limites, você se pergunta. Talvez o autor deste texto seja trágico demais com essa descrição, (e sim ele é um pouco), mas faço a seguinte pergunta ao senhor leitor: Por que a obra se chama Ciranda de Pedra? Dentro do livro é a imagem do jardim da casa em que a fonte é decorada com alguns anões de pedra que formam um círculo. Fofo, mas nada na obra de Lygia é um adorno descritivo, na verdade tudo que você lê em suas melhores linhas tem um lado simbólico e a alegoria deste livro é em relação à sociedade que a protagonista vive, em que os seus irmãos e amigos formam um ciranda impenetrável. Ela é excluída socialmente desta roda por não ser aceita, e sua solidão começa a se aprofundar cada vez mais.

Mas estar só muitas vezes não é um símbolo negativo do nosso mal-estar contemporâneo, estar só em Lygia é o momento para reflexão, em que a personagem se volta a si para compreender e criticar o mundo que a rodeia. Em Ciranda de Pedra, é o momento que ela consegue ver além das máscaras sociais as verdadeiras caras (tristes) de seus colegas e aquele mundo que começa com um quê de colorido e ganha um véu cinza de melancolia. Não é das coisas mais comercias que vemos por aí, mas esse é o romance que lançou a autora para o panteão dos grandes escritores.

E também tem muitas das caraterísticas essenciais da obra de Lygia. Os tipos femininos fortes, fluxos de consciência, personagens homens caracterizados de maneira plana, uma história que flerta de leve com a crítica social de um tempo, um prosa poética que quase faz o tempo se diluir na percepção leitor. Tudo isso já está presente nesse romance de 1954. Costumamos caracterizá-la como um escritora de contos fantásticos, mas isso é somente uma das formas que ela trabalhou. Se fossemos fazer jus a seu legado literário, temos que vê-la como uma escritora de tipos psicológicos fascinantes.

Acho engraçado que o críticos sempre coloquem Virginia Woolf e Clarice Lispector no mesmo plano, vide que Lygia viveu o mesmo momento literário que Clarice e tem até certas características parecidas entre elas. A grande diferença é na forma. Enquanto Clarice foi muito mais experimental e criou romances inteiros afundando o eu-lírico dentro de si, a literatura de Lygia é mais clássica, ainda conservando narrador oniscientes que por vezes deixam o monólogo interior de seu personagem aparecer. Isso tanto nos primeiros contos, como nos romances ou no experimentalismo dos contos fantásticos. Agora, quando pegamos Perto do Coração Selvagem e Ciranda de Pedra, vemos que a raiz é quase a mesma.

Lygia já beirava os 30 anos quando teve o êxito com este livro, e já havia lançado três volumes de contos: Porão e Sobrado (1938), Praia Viva (1944) e O Cacto vermelho (1949). Não viveu de literatura durante esse período, e sim estudou Direito, escreveu para os jornais Arcádia e A Balança, além de trabalhar no Ministério Agrícola para pagar os estudos. Mesmo assim, frequentava rodas literárias e debates, onde conheceu nada menos de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Paulo Emílio Gomes e Hilda Hilst.

Mário e Oswald foram seu mentores no começo, Hilda sua melhor amiga e Paulo Emílio, seu segundo marido. Em 1962, após ajudar Emílio com o roteiro de Capitu, a adaptação de D. Casmurro, começou um affair que se estendeu por mais de 10 anos. Isso obviamente causou escândalo na sociedade paulista da década de 1960, mas Lygia sempre foi uma mulher à frente de seu tempo. Ser formada, divorciada e escritora de renome em plena década de 1960 já era uma vitória, mas ela foi além ao se aventurar no conto fantástico e escrever um dos mais importantes romances com o pano de fundo da ditadura.

Após o sucesso de Ciranda de pedra, Lygia escreveu mais algumas coletâneas de contos como Histórias do desencontro (1958), Jardim Selvagem (1966) e um romance muito similar ao primeiro, Verão no Aquário (1964). Mas somente na década de 1970 os contos tomaram a forma que hoje conhecemos, com os livros Antes do Baile Verde (1970) e principalmente Seminário dos ratos (1977), em que os limites entre real e imaginário, memória e imaginação são praticamente abolidos.

Meu primeiro contato com a obra da escritora foi como a maioria a descobriu, tendo que ler no colégio Venha ver o por-do-sol, uma coletânea de 1987 lançada com um apelo mais juvenil e com a maioria dos contos extraídos desses dois livros. A inesquecível viagem dos namorados à cripta no principal conto que dá título ao volume é um dos momentos literários mais vívidos na minha cabeça. Talvez por ser a primeira vez que via situações fantásticas de um jeito tão misterioso, natural e até mesmo real. O conto fantástico nada mais é, na obra da escritora, como um veículo para atingir as psiques de suas personagens.

meninasEm 1974 escreve sua obra prima, As meninas. O romance mostrava três universitárias e como elas viviam e lidavam de maneiras distinta com a situação do país, sob um tom crítico à ditadura militar. Ana é a mais humilde do grupo, estuda Psicologia, é modelo e viciada em drogas. Lia é uma baiana com ideias revolucionárias, claramente esquerdista e acredita que tem ser a mais forte. Lorena vem de uma família rica, e estuda Direito. Mostra-se ingênua, mas esconde traumas. Em meio a monólogos interiores, vamos conhecendo o drama que vai se construindo na vida destas três amigas. É uma obra fascinante e que ganhou todos os prêmios de sua época, mas ainda está um pouco esquecida em nosso cânone.

Após esse ápice, a obra de Lygia seguiu estas direções estilísticas mais centrada no conto fantástico. O que vale a pena destacar é Estrutura da Bolha de Sabão (1978) e Invenção e Memória (2000), que lhe rendeu o terceiro Jabuti, na categoria Contos. Neste livro, fica mais claro como o tema da memória tem um apreço especial em seus contos. Além deste, em 2005 sua obra foi agraciada com o o Prêmio Camões, que talvez seja a maior honraria em língua portuguesa.

Conheci-a pessoalmente em 2010, na Balada Literária, escutamos várias historias na palestra que ela concedeu e minha simpatia pela autora só aumentou. Para mim é uma das grandes escritoras brasileiras de todos os tempos.

No dia de hoje Lygia completa 90 anos. E pensar que na última entrevista que concedeu ela diz que escreve todo o dia, só podemos comemorar. Afinal, ainda há muitas histórias para contar e invenções para se narrar.

Feliz aniversário para Lygia!

2 comentários em “[Favoritos da casa] Lygia Fagundes Telles

  1. Que post mais lindo. Eu gosto muito dela, da pessoa que ela é. Lembro da Ciranda de pedra de alguns anos atrás, que eu até queria assistir mas não tive paciência. Novela não me pedre, nunca prendeu… Mas acho que não perdi muita coisa…
    Parabéns a ela pelo dia e a vc pela bonita homenagem. bjos

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