[Trecho da semana] Corpos secos

No princípio era o caos e a urgência; vieram então as semanas do medo, mergulhando aos poucos num silêncio moribundo; reina agora a paz da cidade morta.”
(pg. 7)

Essa poderia ser a frase de um artigo analisando a pandemia. Mas é o início do romance Corpos secos, recém publicado pela Alfaguara. O livro tem um projeto bem inusitado: escrito a quatro (ou seriam oito?) mãos, cada um desenvolve um personagem. A historia se passa durante uma epidemia que assola o país em que os doentes parecem-se com zumbis, são os corpos secos do título. 

Os autores, Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado, nunca tinham escrito nada do gênero e é divertido ver o desempenho deles. O livro tem aventura, ótimas cenas de ação e boas pitadas de ironia. 

Em entrevistas, os autores disseram que o livro foi escrito pouco antes da eleição de Bolsonaro. A previsão de lançamento do livro era abril de 2020 e mesmo com muitas editoras atrasando lançamentos por conta da pandemia (e livrarias fechadas e incertezas sobre o futuro), isso foi mantido. É bem curioso como o livro antecipou muitas coisas e ler isso durante uma quarentena, fugindo de uma doença, no meio de uma crise política (para ser muito gentil com o que está acontecendo) é bem impressionante.

Na escola, diziam que mais de dez mil pessoas já tinam morrido. Depois alguém dizia que mil pessoas morrem de gripe todo ano no Brasil e ninguém fica surtado por isso. Por que ninguém fala disso na Argentina, hein?, perguntavam nos comentários. Isso é doença de brasileiro, culpa do governo, culpa do PT, culpa do FHC, culpa do Lula, culpa do Foro de São Paulo.”  (pg. 50)

Corpos secos
Autores: Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado
Editora Alfaguara
192 páginas

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