[Uma rima obsessiva] Leituras na Quarentena

Por: Michelle Henriques

Poucos antes da quarentena eu estava trabalhando na editora com toda a ansiedade do mundo. Achava que quando estivesse em casa eu ia conseguir respirar, trabalhar direitinho e o mais importante, ler. Claro que nada disso aconteceu. As duas primeiras semanas em casa foram infernais. Eu já trabalhei seis anos em casa, mas era diferente, eu saía para ver meus amigos, ia até a padaria pegar um pão. Agora não, é minha casa o tempo todo, no máximo uma ida até a cozinha para pegar um café. Acho que se não fossem meus gatos eu teria surtado. 

Vim para casa com uma leitura em andamento, Mulher, Solteira e Feliz, da Gunda Windmüller (Tradução de Petê Rissatti, Primavera Editorial). Eu estava lendo para participar de uma live a convite da editora (você pode assistir a live aqui). Claro que estava gostando, o texto era muito bacana e fluído, mas o livro se arrastou por dias. E não era culpa dele, nem minha. Como você se concentra quando o mundo ao seu redor está ruindo? 

Li com certa facilidade Se deus me chamar não vou da Mariana Carrara (Editora Nós), que seria o livro do encontro de comemoração de cinco anos do Leia Mulheres. Fiquei bem triste com tudo isso, era uma data bem importante e eu gostaria de estar com as minhas colegas. Depois li Eu, Sozinha da Marina Colasanti (Global Editora). Por algum motivo bizarro, eu nunca tinha lido nada dessa autora e comecei logo com seu livro de estreia. Gostei bastante da temática (ah, a bad vibe). 

Estou tentando dar continuidade ao Desafio do Leia Mulheres, e o tema de março era poesia. Fui certeira: Adília Lopes. Peguei Aqui estão as minhas contas (Editora Bazar do Tempo), uma coletânea de seu livro. Li de uma vez e foi um bom respiro. Aí, claro que eu gosto de complicar as coisas, e foi a vez de Mrs. Dalloway da Virginia Woolf (tradução da Denise Bottmann, L&PM Editores). Eu já tinha começado a ler esse livro umas três vezes e achei que a quarentena seria a época ideal. Claro que não foi. Eu gostei do livro, mas foi fisicamente cansativo. Virginia tem disso. 

Numa manhã de domingo acordei de sonhos intranquilos e abri descompromissadamente o meu Kindle. Bati o olho na Ana Paula Maia. Ela sempre é uma ótima escolha e só faltava Assim na terra como embaixo da terra (Editora Record) para eu ter lido a obra completa dela. Completa não, ainda falta o primeirão que é impossível de achar. Inclusive, se você estiver lendo isso e quiser me dar o livro, eu aceito. 

Aproveitei e já emendei outra escritora contemporânea que eu adoro, Cristina Judar, com seu Oito do Sete (Editora Reformatório), que é ótimo. Em seguida foi a vez de poesia, Preocupações da Ana Guadaulpe (Edições Macondo), que também amei. 

Vocês têm um escritor-conforto? Pois eu tenho: Stephen King. Sempre que as coisas ficam complicadas eu parto para algum livro dele. Escolhi Doutor Sono (tradução de Roberto Grey, Editora Suma), pois entrei de cabeça nesse mundo do Hotel Overlook. Claro que amei, achei lindo, uma delícia e fiquei triste quando acabou. Obviamente que já comecei outro dele, Mr. Mercedes (tradução de Regiane Winarski, Editora Suma) e estou gostando bastante. 

No fim de semana eu terminei A Nova Mulher da Marina Colasanti (Editora Nórdica) e foi uma leitura bem curiosa. O livro foi lançado no começo dos anos 1980, então eu tinha que pensar na mulher daquela época. Claro que muita coisa não faz o mínimo sentido hoje, mas queria dizer que o capítulo sobre manter diários é a coisa mais perfeita desse mundo. Domingo eu também li Lobo de Rua da Jana Bianchi (Editora Dame Blanche) que é uma novelinha super bacana sobre lobisomens. 

Bom, relendo o texto eu percebi que até que minhas leituras foram produtivas. Não foi como eu queria, não me senti muito confortável, mas valeu. Li coisas bem bacanas, aprendi muito e conheci escritoras novas. Agora é acostumar com a nova rotina (pois é, dois meses e ainda não acostumei) e entender que não sou obrigada a ler nada, nem em um determinado tempo. Deletei minha conta no Goodreads por isso, não queria me sentir pressionada, muito menos por mim mesma. 

 

Se você, assim como eu, tem que ler coisas a trabalho, te desejo muito foco e vamo que vamo. Mas as leituras por prazer devem ser unicamente leves e divertidas (mesmo que seja uma temática gore). O mundo está doido, mas a gente não pode embarcar nessa. Que os livros sejam companhias e confortos.

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