As melhores leituras de 2019 de Antonio Hermida

Por: Antonio Hermida

2019, ah, 2019! Que ano, meus amigos! Que ano de desolação, desesperança e desespero. Acho que todos ligados à cultura, por qualquer que seja o laço, sentiram-se, no mínimo, apreensivos com os fatos passados e com o que vai assombrando o horizonte adiante.

A par disso, venho de uma sequência de anos nos quais a leitura, para mim, vinha se tornando um fardo, um esforço consciente a fim de manter um hábito que aos poucos ia cessando.

Todavia, desde que minha esposa e eu começamos nosso clube de leituras compartilhadas e, por consequência, tenho as recomendações dela e não apenas as minhas (que para mim não vinham dando muito certo) a leitura tem sido um remédio a me subtrair da realidade e das redes sociais. 

Dito isso, os meus cinco principais refúgios ao longo do ano que expirou foram: 

Augustus John Williams (Tradução: Alexandre Barbosa de Souza; Editora Rádio Londres)

Como ex-estudante de latim e, consequentemente, da antiguidade romana, Augustus foi um deleite. Foi um livro do qual não queria me separar e, tendo alguma familiaridade com o personagem histórico, a leitura mostrou-se uma experiência riquíssima no acompanhar, fragmento a fragmento, a construção do imperador. Construção onde, muitas vezes, ao mesmo tempo em que o humaniza, trazendo-o para o mundo dos homens e do convívio familiar, deifica-o como escolhido, mantendo-o entre esses dois mundos até ouvirmos sua própria voz, na última parte do livro. De minha parte, mesmo depois disso, ele permanece ali, suspenso. 

Um artista do mundo flutuante – Kazuo Ishiguro (Tradução: José Rubens Siqueira; Editora Cia das Letras)

De maneira sutil e concisa, Ishiguro conduz a narrativa da vida um velho artista japonês através de pequenas fissuras plantadas no país desde de “abertura”* do Japão até o pós-Segunda Guerra. 

A construção do protagonista a partir de sua casa carrega todo o peso do que é ser, de certa forma, patriota e, através disso, ex-artista de vanguarda num período transicional de reconstrução do que é ser japonês como nação e indivíduo e como essa distinção torna-se abissal tanto para os que falharam quanto para os filhos que, derrotados, culpam os mais velhos e suas tradições.

É a história de um velho em busca de redenção e emendas consigo mesmo, mas que pode, facilmente, ser encarado como alegoria à história período de reinvenção da nação nipônica pós-guerra. 

*Coloco entre aspas porque o Japão segue insondável em sua totalidade para o ocidente de maneira geral.    

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O último trem da Cantareira – Antonio Arnoni Prado (Editora 34)

Aos 45 do segundo tempo, quase 2020. A narrativa percorre, como quem cochila e acorda brevemente apenas para voltar a cochilar, o passado de um professor universitário prestes a se aposentar. 

Este passado (que é o sonho insistente nesse cochilo) é a vida na rua na região da Cantareira num tempo em que a vida era ditada pelas chegadas e partidas da maria fumaça. 

O livro percorre episódios da infância, arrependimentos latentes e a dor do distanciamento forçado e consciente daquele período condenado ao passado e a uma memória falha. Impossível não relacionar a Meninos da rua Paulo, no entanto, eu achei mais pesado por se tratar de uma realidade mais dura e palpável.

Recomendo demais.  

Antologia fantástica da literatura antiga – Marcelo Cid [org.] (Ed. Ateliê Editorial)

Com textos que vão do período clássico grego até Santo Agostinho, o livro contém excertos (muitas vezes contendo apenas uma frase) que, descolados assim, são, de fato, exemplos autônomos do fantástico na literatura clássica.

Quando comecei a ler, meio sem saber o que esperar, imaginei que a composição seria através de recortes de textos como a Metamorfose de Ovídio, por exemplo. Estava muitíssimo errado. O livro traz os mais variados recortes, alguns com mais de uma página, outros em poucos parágrafos – são extratos de tratados médicos, ficção, poesia, história e textos religiosos. Para quem gosta de literatura fantástica e de literatura clássica acho que não tem nada parecido.

Seguem dois textos improváveis: 

O Tratamento da lepra do Rei

Quando os reis [do Egito] eram infectados [de lepra], a mortandade entre os súditos era grande, pois para o tratamento do rei era necessário encher várias banheiras com sangue fresco. Plínio, o velho, História Natural, XXVI, V,8 

Comer um Livro

Comer um livro é [sonho] vantajoso para os preceptores, para os professores de retórica e para todos aqueles que vivem dos discursos e dos livros. A outros, isso anuncia a morte para breve. Artemidoro, Onirocrítica, II, 45.

 

As religiões que o mundo esqueceu – Pedro Paulo Funari [org.] (Editora Contexto)

Pessoalmente acredito que a religião e suas construções de imaginário são a maneira mais rápida de se compreender o meio e o povo de onde ela predomina. Fora isso, me é um assunto caro e sobre o qual  gosto de chafurdar. 

O livro traz artigos que buscam contextualizar o período e o meio no qual aquela religião se insere, seus dogmas, rituais, motivações, panteões e, por consequência, dos fiéis. 

Como o próprio nome diz, o livro trata de religiões que caíram no esquecimento, mas não fica no óbvio (Celtas, Vikings, Egípcios) e traz também artigos sobre vertentes primitivas e esquecidas do cristianismo, por exemplo. 

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