As Melhores leituras de 2019 da Fabrina

Por: Fabrina Martinez

2019 foi um ano de releituras e descobertas tardias. Talvez porque o ano anterior tenha sido uma pedreira sem fim e as leituras ficaram lá no fim da lista de sobrevivência. Até pensei duas vezes em aceitar fazer essa lista por acreditar que ela não traga grandes novidades para os leitores, mas o ego falou mais alto e aqui estou. A lista não tem necessariamente uma ordem de favoritos e segue como as leituras foram acontecendo, mas Elena Ferrante reina absoluta no topo. É, eu avisei que havia descobertas tardias. Vamos lá?

Salt – Nayyirah Waheed 

Livro de poesias auto publicado em 2013 e ainda sem tradução para o português. A poeta é muito popular na rede de fotinhas, onde publica apenas poemas, mas garanto que a leitura do livro vale cada segundo empenhado. Gosto muito de um poema que resume bem a vida da mulher em 2019: “all the woman. in me. are tired.”. Disponível na Amazon.

As coisas que perdemos no fogo –  Mariana Enriquez (Tradução: José Geraldo Couto; Editora Intrínseca)

Lançado em 2017 pela Intrínseca, foi a primeira das descobertas tardias desse ano. Li para o Leia Mulheres de Marília e ao terminar tinha certeza de que somente uma mulher poderia escrever esse livro. Mariana (somos íntimas) fala de um terror que conversa diretamente com a vivência da feminilidade e materialidade da mulher. Ansiosa pelo próximo que virá em 2020.

A vida não me assusta – Maya Angelou (Tradução: Anabela Paiva; Editora Darkside)

Livro infantil com um poema de Maya Angelou ilustrado por Jean-Michel Basquiat. Você tem medo de quê?, ela pergunta. Sério, não sei o que posso dizer além disso. Ah, publicado pela Darkside em 2018.

Top 123

Você é minha mãe? – Alison Bechedel (Tradução: Erico Assis; Editora Companhia das Letras)

Drama em quadrinhos que decidi reler em 2018, mas só consegui em 2019. A HQ publicada pela Quadrinhos na Cia em 2013, é um relato cru e poderoso sobre ser filha, ser pessoa e se relacionar com a mulher que nos é apresentada como mãe.

O vazio que nos completa – Sergio Chaves e Allan Ledo (Editora Jupati)

Publicada em 2018 pela Jupati Books, é uma HQ sobre esquizofrenia, amor e realidade (seja lá o que for isso). Acompanhar a jornada de Douglas e sua saúde mental garante momentos de risada, angústia e acolhimento mesmo quando nos coloca diante de perguntas como “você tem medo de ser julgado?”.

Bruxisma – Pilar Bu (Editora Urutau)

Publicado pela Editora Urutau em 2019, é um livro de poesias que, sem dúvidas, me ajudou a voltar pro gênero nesse ano. Se pudesse cometer um crime e definir o livro numa palavra seria ‘matrilinearidade’. Em seus poemas, ela fala sobre questões pertinentes e doloridas sobre ser mulher e, por que não?, estar viva.

Dumplin’ – Julie Murphy (Tradução: Heloísa Leal; Editora Valentina)

Lançado em 2017 pela editora Valentina e fala sobre ser adolescente e gorda. Tem muitas coisas que gostaria de dizer sobre esse livro e necessário é uma delas. Ao abordar a relação de Dumplin’ com seu corpo, sua mãe (miss e fissurada em dietas) e a sociedade (quando ela se candidata a Miss como forma de protesto), a autora nos coloca diante de uma existência delicada, sensível, normal e que segue invisível e rechaçado. Ah, como sempre, o livro é bem melhor que o filme da Netflix.

Top 4 ao 7

O que terá acontecido a Baby Jane? – Henry Farrell (Tradução: Mariana Moreira; Editora Darkside)

Clássico do suspense e do horror escrito por Henry Farrell em 1960 e republicado em 2019 pela Dark Side. A edição é linda e atende o quesito “fetiche”, mas confesso que abrir o livro e dar de cara com a foto das atrizes Bette Davis e Joan Crawford caracterizadas como as irmãs Hudson no filme de 1969 foi ligeiramente decepcionante, já que não nos dá sequer o espaço que precisamos para diferenciar uma obra da outra. O texto é ótimo mesmo e tem momentos questionáveis nos períodos atuais, mas vale muito a pena.

A vegetariana – Han Kang (Tradução de Jae Hyung Woo; Editora Todavia)

Publicado pela Todavia, é, de fato, uma das melhores alegorias que já vi sobre a violência contra mulheres. Acompanhar as dores da personagem sul-coreana Yeonghye que deixa de comer, fazer e servir carne após um sonho é angustiante e nos mostra que as pessoas próximas sempre querem o nosso bem desde que não sejam afetados por isso.

Diário de luto – Roland Barthes (Tradução:Leyla Perrone-Moisés; Editora WMF/Martins Fontes)

Publicado pela WMF/Martins Fontes em 2011, é o diário feito por Barthes após a morte de sua mãe. O livro é curto direto, mas não simples. Li na mesma condição em que Barthes o escreveu e, em muitos momentos, parecia que estávamos conversando. Quase um companheiro de dores. Destaque para o trecho: “Todos calculam – eu o sinto – o grau de intensidade do luto. Mas é impossível (sinais irrisórios, contraditórios) medir quanto alguém está atingido.”.

A filha perdida – Elena Ferrante (Tradução: Marcello Lino; Editora Intrínseca)

É. Peguei ranço do livro por conta de todos os “você tem que ler” que ouço desde que ele foi lançado pela Intrínseca em 2016. Passei os últimos anos fugindo da Ferrante de maneira comprometida, até que – não me lembro como –, comecei a ler A filha perdida. Não sei se existe algo de novo que pode ser dito sobre o livro, mas Leda segue como minha melhor amiga no quesito sentar na praia e falar de vida, morte e maternidade.

top 8 a 11

Fabrina Martinez é jornalista, leitora e assim como Leda espera rejuvenescer dez anos quando sua filha for aceita na universidade.

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