[Foguete feito de papel e tinta] No meio do caminho tinha um Duchamp

Por: Paula Queiroz

Diálogo:

– Arte..o que é arte?

– Não sei. Não entendo nada.

 

arteEssas primeiras linhas desse diálogo refletem muito sobre a recepção das pessoas em relação às artes plásticas: muitas afirmam que não compreendem, não entendem o porquê de uma obra ser considerada arte. Eu era uma delas. Conforme os anos foram passando, fui lendo, indo a museus e iniciei meu estágio voluntário no MAM – Museu de Arte Moderna de São Paulo e continuei duvidando sobre a minha capacidade de compreensão de obras de arte. Eis que li Isso é Arte? do Will Gompertz e acho que as coisas começaram a se encaixar na minha cachola.

Gompertz abrange as escolas de artes plásticas a partir da arte moderna. E afirma: o que as pessoas dizem não conhecer sobre arte é justamente sobre a (quase) incompreensível arte moderna. Antes dela, muita gente que se diz não entendida “das arte”, sabe quem pintou Monalisa, quem fez a Capela da Sistina…ou seja, nós conhecemos arte sim. O problema em questão se dá na apreensão do que a arte moderna tem a dizer ao público e, por isso, aí sua incompreensão (aparente).

Já parou numa exposição de arte moderna/contemporânea e ficou se questionando por que diabos aquela obra é, de fato, uma obra? Então esse livro é para você. À parte das (inúmeras) discussões acadêmicas, ficamos às vezes desorientados diante de tanta ou nenhuma informação que nos é colocada ali no museu. Gompertz, ao contrário das nossas desorientações, afirma: a arte moderna é devidamente simples. E não é que é mesmo?

Ao longo dos capítulos há uma desmitificação de boa parte das grandes obras modernas. De Duchamp até os dias de hoje, descobrimos as revoluções artísticas que fizeram os críticos arrancarem seus cabelos. Eu fiquei maravilhada com o caos que os impressionistas causaram no mundo das artes. Os impressionistas! Justamente o movimento – na minha opinião –esteticamente mais “aceito” pelo público em geral.

O artista é quem dita o que é arte. Esse é o segredo para compreender ou se revoltar com aqueles traços raivosos do expressionismo abstrato, por exemplo. Daí me veio a reflexão justamente à época do polêmico homem nu no vernissage da exposição do 35º Panorama Brasileiro ocorrida no MAM. “Como isso pode ser arte???”, “Isso é pornografia!!!” e dentre outras opiniões dividiram redes sociais e jornais brasileiros. A performance era justamente interagir com o corpo humano ali debruçado e retirar todos os pré-conceitos em relação a um corpo. Sexualizamos nossos corpos, sem raciocinar que são…corpos. Que por de trás dos nossos guarda-roupas não somos mais que carne e osso, como qualquer animal. E a arte é isso: questiona, apavora, critica.

Mas a arte não precisa ser sempre política… será? Houve depois outro episódio lamentável na “Queermuseu”, exposição ocorrida no Santander Cultural de Porto Alegre. E as obras eram políticas. E não há problema nisso. Porém, o tabu sobre sexo, minorias – tais como homossexuais, transexuais – é algo a ser derrubado na nossa sociedade brasileira. Por que censurar algo que está ali, presente? Por que censurar o amor, o ato sexual? Infelizmente, ainda caminhamos com pés invertidos e inchados, e quem sofre repreensão são justamente os artistas que nos põem em contato com o que existe – existência essa que não é aceita por um bando de reacionários, creio eu.

Afora às controvérsias, Gompertz atentou meus olhos ao que eu via em exposições. Terminada a minha leitura, fui ao MASP – Museu de Arte de São Paulo e percebi que a leitura me aguçou aos traços, riscos e rascunhos das obras que percorriam minhas vistas. Pude perceber a delicadeza e ao mesmo tempo fúria de Van Gogh, as quebras de padrões de Picasso, as formas disformes de Tunga, dentre inúmeros artistas. Saí do museu contente, disposta a afiar incessantemente minha mente para as produções artísticas.

Claro que determinada obra não é necessariamente do nosso gosto pessoal. Duchamp com sua “Fonte” ainda é questionado por muita gente que vai aos museus ou entra em contato com a história da arte mundial. Porém, quando descobrimos a importância de se colocar um objeto aparentemente tão comum e tão irrisório como um mictório no meio de uma exposição, percebemos que ali estava o cerne da arte produzida de lá até os dias atuais: os artistas continuarão a quebrar os paradigmas de quaisquer movimentos, críticos, escolas e academias possíveis. A arte tem que ser aqui e agora, retomando o passado mas olhando pro presente e visando um futuro, quem sabe.

Isso é arte? ficou como um dos meus livros favoritos. Relerei e relerei muitas vezes, na esperança de absorver mais um pouco desse mundo fantástico que é a produção artística. Não há nada mais humano que a produção cultural efetuada por nós, mulheres e homens desse mundão. “Arte é vida”. Vida que pulsa, disforma, renova, revolta, escandaliza, acalma, destrói. E, como diz Gompertz, é um dos maiores prazeres da vida.

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