(mais) Livrarias que amamos em Nova York

Por: Mariana Tomazelli
Nova York abriga um crescente número de livrarias independentes, que têm conseguido se manter relevantes apesar da competição com as grandes redes e a Amazon. A tendência recentemente observada no mercado americano tem sido a vitória dos extremos: por um lado a Amazon cresce devido aos preços super competitivos que apresenta; por outro, voltam a crescer também as pequenas livrarias independentes, com curadoria especializada e profundas relações com as comunidades que as abrigam. Elas estão se reinventando, assim como as bibliotecas. Quem tem sofrido é o meio-termo: as grandes redes de livrarias físicas, que não ganham nem em um front, nem em outro.
 
Eu já escrevi posts neste blog sobre duas livrarias independentes que eu adoro: a Bluestockings e a Strand. No post de hoje vou falar de mais três livrarias “indies” interessantes que eu já visitei em Nova York (bom, a Albertine não é indie, mas vou deixar na lista porque é única e linda <3).

Astoria Bookshop

 
Operando há quase cinco anos, fica no meu bairro e é uma das poucas livrarias do Queens. Todos sabemos que o rio que corre pela minha aldeia é mais belo que o Tejo, mas bairrismos à parte, ela é um ótimo exemplo da boa livraria independente: as donas são um casal de mulheres, a curadoria é diversificada e cuidadosa, foram voluntários que ajudaram a montar as prateleiras e pintar as paredes antes da inauguração. A compra do primeiro estoque de livros foi financiada por crowdfunding, o que já não é uma novidade no mundo das livrarias independentes americanas. O envolvimento com a comunidade é grande, incluindo a realização de feiras de livro em escolas da região, parcerias com negócios locais e leituras/oficinas com escritores do Queens. 
 
Posicionando algumas cadeiras para receber o Clube de Leitura Feminista

Posicionando algumas cadeiras para receber o Clube de Leitura Feminista

 
Como o espaço é limitado, as prateleiras são móveis, e costumam ser reposicionadas para aumentar o espaço quando a livraria organiza eventos. Além das eventuais oficinas de escrita criativa, todas as semanas há sessões de leitura para crianças, muitas vezes temáticas (“Noite do Harry Potter” ou “Mês da Cultura Negra”). Atualmente a livraria abriga três clubes de leitura diferentes – eu frequento o Clube de Leitura Feminista, que se reúne uma vez por mês. 
 
Como toda boa livraria independente, a Astoria Bookshop não apoia as políticas da atual administração americana.

Como toda boa livraria independente, a Astoria Bookshop não apoia as políticas da atual administração americana.

A Astoria Bookshop está entre as cinco finalistas do prêmio “Livraria do Ano 2017”, entregue pela Publishers Weekly.
 
Na vitrine o livro do mês do Clube de Leitura Feminista: The Argonauts, de Maggie Nelson

Na vitrine o livro do mês do Clube de Leitura Feminista: The Argonauts, de Maggie Nelson


Albertine Books

 
Batizada em homenagem ao personagem de Proust em Em busca do tempo perdido, a Albertine foi inaugurada em 2014. A livraria foi concebida como um projeto da Embaixada Francesa para intensificar o intercâmbio cultural entre França e Estados Unidos. O acervo conta com mais de 14 mil títulos, sendo composto, em grosso modo, de literatura do mundo em francês e de literatura originalmente francófona traduzida para o inglês. A seção infantil faz grande sucesso, atraindo um público de pais francófonos à procura de livros que ajudem seus filhos a aperfeiçoar a língua francesa. Eu compreendo o fenômeno, pois vários amigos brasileiros procuram livros para que seus filhos aprendam o português – além do inglês, que as crianças já aprendem indo à escola em Nova York. 
 
O teto estrelado do segundo andar, que virou símbolo da livraria

O teto estrelado do segundo andar, que virou símbolo da livraria

Localizada dentro da bela mansão que abriga a Embaixada na quinta avenida, a Albertine possui dois andares decorados com sofás e poltronas em couro e veludo, piso de taco, prateleiras e mesas em madeira escura e grandes lustres amarelos. O teto do segundo andar é um mural pintado à mão com estrelas e símbolos do zodíaco. Como diz uma amiga, “tem livraria que é tão linda que dá vontade de morar dentro”.
 
Piso de taco, madeira escura, lustres amarelos

Piso de taco, madeira escura, lustres amarelos

Muitos eventos com autores franceses são realizados todos os meses, e anualmente acontece o “Festival Albertine”, que dura uma semana e conta com painéis de discussão compostos por notáveis convidados franceses e americanos. O festival deste ano teve como tema “O Feminismo não tem fronteiras” e contou com a curadoria da ativista americana Gloria Steinem. Eu gostei especialmente da discussão sobre a relação entre linguagem e opressão, um debate que esteve super aquecido na França recentemente.
 
O andar térreo e um dos lustres pendurado no andar de cima (foto 1)

O andar térreo e um dos lustres pendurado no andar de cima

Curiosidade: a Albertine obedece à lei francesa que proíbe que as livrarias dêem descontos superiores a 5% do preço de capa dos livros (Lei Lang). Essa lei existe desde 1981, mas foi adaptada mais tarde para incluir e-books, e o objetivo é proteger as pequenas livrarias e a diversidade do mercado editorial francês. Um projeto para a criação de uma Lei do Preço Fixo brasileira atualmente tramita no Senado
 
O andar térreo e um dos lustres pendurado no andar de cima (foto 2)

O andar térreo e um dos lustres pendurado no andar de cima

Molasses Books 

A Molasses fica em Bushwick, atualmente uma das regiões mais “trendy” e alternativas de Nova York – e, por enquanto, menos gentrificada que sua vizinha célebre, Williamsburg.
 
A fachada da Molasses, numa área residencial de Bushwick

A fachada da Molasses, numa área residencial de Bushwick

 A loja na verdade não é exatamente uma livraria: é um sebo-café-bar. Tem música rolando o tempo todo, tocando na vitrola atrás do balcão (identifiquei também um toca-fitas ao lado da vitrola, que não estava ligado, mas parecia operacional). O happy hour acontece todos os dias, entre 18h e 20h, e nesse horário a cerveja é vendida a três dólares, um preço incrivelmente atrativo para os padrões nova iorquinos. Além disso, você não precisa pagar seu café ou cerveja com dinheiro: livros usados são aceitos como pagamento no balcão. A palavra é escambo, minha gente.
 
Pessoas lendo no bar

Pessoas lendo no bar

O horário de funcionamento também é diferente, talvez por causa do bar: a Molasses fica aberta até a meia-noite. E há eventos todos os dias, alguns francamente originais, como a “Noite do Xadrez” ou “Traga seu próprio vinil”. Às quintas-feiras a noite é dedicada aos profissionais dos livros: são bem-vindos os livreiros e trabalhadores do mercado editorial em geral, e mais descontos são oferecidos nas bebidas. 
 
O fim da ficção (e o começo do teatro)

O fim da ficção (e o começo do teatro)

O lugar é pequeno, e a oferta de livros também não é grande. Os fortes são ficção e poesia. Como explicado em um panfleto colado na parede – e até por se tratar de um sebo – a ideia não é ir à Molasses atrás de um livro específico. A graça está em espiar as estantes e serendipitosamente encontrar algo interessante. “O serviço de curadoria está embutido no preço”, diz o panfleto. Quase todos os livros são vendidos por menos de 10 dólares.
 
Mariana é engenheira atuante, atriz amadora e poetisa aposentada.

Um comentário em “(mais) Livrarias que amamos em Nova York

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *