[meu país das maravilhas] Sobre promessas não cumpridas

Por: Isa Leite

2017 foi um ano difícil, muito difícil. e foi também, infelizmente, um ano de promessas não cumpridas. Durante o tempo ensaiei e comecei diversas resenhas, de livros que foram fundamentais pra mim, mas todas elas ficaram abandonadas em algum ponto.

Por isso, pra começar 2018 exorcizando todos os demônios corretos, decidi abrir os trabalhos com uma coluna de mini-resenhas de tudo aquilo que eu devia ter escrito mas não escrevi. Curiosamente, todas as leituras dão pistas do assunto a que resolvi me dedicar em pesquisa. Deve aparecer muito mais por aqui durante 2018.

Espero que gostem das sugestões, e feliz ano novo!

Quinze dias – Vitor Martins (⭐⭐⭐⭐⭐)

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Uma comédia romântica adolescente LGBT. Podia ser só isso, mas não é. É um dos melhores livros de 2018, e é a estreia de um autor sensacional. Vitor Martins tem a capacidade de trazer o coloquial ao nosso lado, sem perder a mão em nenhum momento na escrita. Linguagem elaborada a tal forma que você se sente conversando com um amigo, enquanto o texto transborda em empatia e descontração. Ainda gosto de definir como o livro que eu li com um sorriso nos lábios do começo ao fim.

Quinze dias 
Vitor Martins 
208 Páginas
Editora: Globo Alt

Fera – Brie Spangler (⭐⭐⭐⭐)

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Adaptação contemporânea do clássico a Bela e a Fera, o livro da americana Brie Spangler traz a história de Dylan, um menino tímido com uma aparência excêntrica: vítima de alguma doença genética (que afetou o pai da mesma forma), ele é muito maior que os garotos de sua idade, disforme, forte e muito, muito peludo. Após um acidente que faz sua mãe pensar que ele é um suicida, Dylan é obrigado a frequentar uma terapia em grupo. E lá ele conhece Jamie, uma garota linda, diferente, misteriosa, por quem ele se apaixona quase instantaneamente. Até descobrir que Jamie é uma garota trans. O livro é sensível, delicado, e fala das tantas questões envolvendo o relacionamento e a sexualidade de pessoas trans, o preconceito e a auto-aceitação. Jamie é cativante, divertida, gosta de se aventurar e Dylan luta contra – e a favor – do sentimento e da aparência, ele mesmo uma vítima do julgamento dos outros. O livro ganhou Selo Cátedra da Unesco, como obra altamente recomendável, e foi uma das melhores leituras do meu ano.

Fera
Brie Spangler
Editora: Seguinte
384 páginas
Tradução: Eric Novello 

A (r)evolução das mulheres – Mindy McGinnis (⭐⭐⭐⭐)

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Perturbador. Acho que é a primeira palavra que eu usaria pra descrever esse livro. beirando, por vezes, a linha do irreal, ele não tem meios termos ao falar de uma questão extremamente delicada: estupro. A irmã de Alex foi assassinada e desde então a vida da menina tem como único objetivo se vingar do homem que a estuprou e matou. Ela vira uma espécie de justiceira, não hesitando nunca diante de qualquer homem que ameace sexualmente uma mulher. Mas, nesse ano, ele tem pela primeira vez duas coisas até então inéditas: uma amiga e um namorado. E Alex precisa esconder deles seus atos, extremamente violentos, e tem que lidar também com a própria sexualidade, com outros adolescentes… O meu “irreal” do começo se refere ao sangue-frio quase diabólico da menina, mas a verdade é que A (R)evolução da mulheres descreve mais situações reais que nós gostaríamos. Não é um livro para estômagos fracos, é cheio de gatilhos de violência e abuso, mas é uma leitura adolescente corajosa como poucas.

A(r)evolução das mulheres
Mindy McGinnis
Editora: Plataforma 21
313 Páginas
Tradução: Lavínia Faveiro

Eleanor & Park – Rainbow Rowell (⭐⭐⭐⭐⭐)

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A desajeitada Eleanor ganhou, para sempre, um lugar no meu coração, e o geek Park se tornou o modelo de garoto que toda garota merece, um dia, ter na vida. Rainbow Rowell acerta com precisão ao nos contar a história dessas duas figuras tão diferentes que se conhecem por um acaso e acabam mudando a vida um do outro. Eleanor gorda, grande, esquisita. Acostumada a não se amar, e se sentir a pior das criaturas encontra no descendente de coreanos Park uma companhia única, capaz de valorizar e defende-la de tudo e todos – uma vez que ele assuma seus sentimentos por ela. Foi paixão da primeira à última página, e o sentimento doce, ao final, de que o amor ainda é possível, e mais bonito do que podemos imaginar.

Eleanor & Park
Rainbow Rowell
Editora Novo Século
328 Páginas
Tradução: Caio Pereira 

Os 13 Porquês – Jay Asher (⭐⭐⭐⭐)

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O livro ficou famoso graças a série da Netflix, e suscitou mais debates do que podíamos imaginar. A jovem Hannah se matou há dois meses, mas deixou 7 fitas onde narra todos os motivos que a levaram ao suicídio. Conforme vamos ouvindo junto com Clay, garoto apaixonado por Hannah mas que janais conseguiu dizer isso a ela, vamos montando o quebra-cabeça de ações e reações de todos ao redor, que culminaram na desistência da garota. A série teve suas alterações e prefiro não falar sobre ela. A verdade é que como uma sobrevivente ao suicídio, Os 13 Porquês foi uma obra impactante para mim. Muito se especulou sobre Hannah culpar as pessoas pelo que acontecia com ela, mas sigo achando essa uma leitura rasa. A questão da culpabilização é menos de indivíduos (exceto um ou dois casos), e mais de uma cadeia de acontecimentos que fizeram a dor e o problema da garota não serem percebidos, enquanto a imagem dela ia se distanciando cada vez mais do interior. O livro serve de alerta sobre julgamentos, sobre se precipitar ao decidir quem são os outros e o que eles querem, sobre egoísmo e sobre as dificuldades de lidar com uma doença como a depressão. Junte-se a isso a outros problemas, a sociedade abusiva e os abusadores reais e o enredo está formado e a compreensão de como uma mente tão jovem é incapaz de enxergar uma saída. Recomendo muito a leitura empática.

Os 13 Porquês
Jay Asher
Editora: Ática
256 Páginas
Tradução:José Augusto Lemos 

Ninguém nasce herói – Eric Novello (⭐⭐⭐⭐⭐)

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O meu livro do ano. Eric constrói uma distopia assustadoramente próxima: um Brasil vítima de uma ditadura fundamentalista, onde a religião cristã tomou o poder, através da figura de um líder que soa mais semelhante a certos nomes da atualidade do que eu gostaria. em meio a tal caos, cinco jovens tentam seguir a vida, amores e se rebelar dentro dos seus limites. Chuvisco é um protagonista que nos leva pra fantasia, por meio de seus “apagões” que o fazem pensar ser um super herói forte e poderoso, e aliviam o peso e o gosto amargo que o livro poderia trazer. representativo ao máximo, com personagens gays, bis, trans, etc. Ninguém Nasce Herói é um manifesto otimista de amizade e luta em meio a um mundo caótico – que nós temos que urgentemente nos inspirar. 

Ninguém nasce herói
Eric Novello
Editora: Seguinte
384 Páginas

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