[uma rima obsessiva] Never disagree with your youth

Por: Michelle Henriques

Eu tinha 11 anos e estava ajudando minha mãe a tirar o pó da estante dela. O livro da Christiane F. chamou minha atenção. Foi o primeiro livro “de adulto” que li, e naquele dia eu lembro de ter feito cenouras ao molho branco.

Lembro de uma tarde de sábado lendo A Ira dos Anjos do Sidney Sheldon, enquanto ouvia o “disco da vaca” do Pink Floyd. Numas férias de julho eu estava deitada no sofá, ouvia Without you I’m nothing do Placebo enquanto lia algum livro da Agatha Christie. Em outras férias de julho, eu li Harry Potter. Já num carnaval, passei os quatro dias lendo Pássaros Feridos.

Hell da Lolita Pille foi o primeiro livro que comprei na Cultura, livraria que se tornaria importante para mim ao longo dos anos. Tenho até hoje o marcador que me deram naquele dia. O segundo dela, Bubble Gum, eu li enquanto estava viciada no disco Souvenirs do The Gathering. E para minha surpresa, o disco era citado no livro.

O Morro dos Ventos Uivantes eu comprei no sebo, durante um período estranho da minha vida. Eu o reli num domingo que estava num lugar que não queria estar. Mesma coisa com a primeira leitura de Frankenstein, li naquele momento em que nos damos conta de que a vida adulta chegou e não é nada divertida.

Terminei de ler Só Garotos da Patti Smith na fila do ônibus, e chorei ali mesmo, com todo mundo me olhando. Li Assombro num ônibus, enquanto ia marcar a minha próxima tatuagem. Fui dormir tarde num feriado porque fiquei lendo A morte de Bunny Munro do Nick Cave, e voltei ao trabalho com muito sono e atrasada.

Tive uma fase esquisita de fazer academia, e eu lia muito na esteira. Com o perigo de deslocar a minha retina, reli os poemas da Florbela Espanca. Nessa época também li o que considero o melhor livro do mundo, Anna Karenina, do Tolstói.

Bukowski e Kerouac dominaram a minha mente por muitos anos. Até hoje tenho resquícios deles em mim, inclusive na pele. Ainda tenho algum carinho, mas aquela coisa de sublinhar trechos e achar que seria escritora como eles, não mais.

Terminei de ler Fahrenheit 451 em uma noite de doença. Tive febre, coloquei um pano molhado sobre a testa. Dormi e o pano caiu em cima do livro, que mofou, enrugou e hoje está todo destroncado na minha estante.

Tentei reler Cem anos de solidão na fase em que conheci uma pessoa que parecia ser importante. Li um livro sobre um cachorro na mesma época em que conheci um cara que tinha um nome parecido. Troquei muitas vezes os nomes deles. Li o livro preferido de duas pessoas, apenas por gostar muito delas. E gostei muito deles.

Lia Ensaio sobre a Cegueira no ônibus, após sair de uma prova difícil da faculdade. Uma mulher sentou ao meu lado e começou a tagarelar sobre ele. Me apaixonei por diversas pessoas no metrô que carregavam algum livro que eu gostava.

Li Não verás país nenhum do Ignácio Loyola Brandão enquanto tempestades caíam em São Paulo, contrastando com a secura que eu lia. Um dia no metrô vi uma moça lendo o segundo volume da trilogia “Millennium” do Stieg Larsson, eu estava lendo o terceiro. Trocamos sorrisos. Chorei muito lendo o final de Harry Potter e uma senhora me parou para perguntar se eu estava me sentindo bem.

Eu sempre comprava livros de um cara que montava uma banquinha perto do meu trabalho. Passei esses dias e ele continua lá. Ele me vendeu uma edição de Mulheres do Bukowski, antiguinha, da Brasiliense. Ele sempre me puxava para mostrar as novidades.

No final de 2008 eu li A menina que roubava livros. Uma senhora no metrô perguntou se podia conversar comigo, porque ela tinha adorado o livro e não tinha com quem conversar. Um cara me abordou para perguntar o que eu estava achando de O Complexo Portnoy, de Philip Roth. Eu tinha passado pela cena do fígado e não soube o que responder.

Há 19 anos que os livros estão presentes em todos os momentos da minha vida, nos bons e nos ruins. E sempre continuarei a listá-los, como confidentes de tudo que me cerca.

PS – O título do post é o trecho da música “Souvenirs”, do The Gathering

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