[Coluna do Menezes] O prazer de colecionar

Houve tempos em que coleção era coisa dos extremos da vida: ou matéria de crianças com seus bonés, álbuns de figurinhas e bolinhas de gude; ou distração de aposentados atrás de relíquias como moedas antigas e, ápice dos ápices, selos, muitos selos. Mas isso foi há tempos longínquos. O hábito colecionista agora já é outro: atinge todas as faixas etárias, diversas tribos e tem alternativas que vão dos rótulos de cerveja, passam por primeiras edições de livros famosos e chegam ao super desejados itens nerd-pop, feitos com a único e principal função de ser um objeto de colecionador, sem qualquer intermediário.

Mas de onde vem essa necessidade do homem de acumular e se ligar a objetos? Eis aí uma trama ancestral. De tão remota, “contaminou” todas as civilizações. Um exemplo é Tutancâmon, faraó do Egito antigo (ele teria vivido até 1324 a.C.), que tinha uma coleção de cerâmicas hoje exposta em museus ao redor do mundo. A lendária biblioteca de Alexandria, por exemplo, foi outra ilustre coleção também. Colecionadores nunca faltaram. No século 18, o médico naturalista Hans Sloane foi um dos primeiros a esticar o olho para juntar objetos do mundo inteiro. Até Freud tinha lá sua coleção de gravatas. A psicologia, aliás, tenta explicar fascínio humano por objetor. Uns acreditam que ter vários “exemplares” de alguma coisa faz o subconsciente acreditar na imortalidade, uma vez que depois da morte as coisas matérias “continuam”. Pouco convincente? Outros observam que ter uma coleção é dar significado a objetos como uma representação física de quem a pessoa é. Não é incomum, pelo menos entre os colecionadores de livros, dar aquela olhada na estante alheia para ver claramente que ficções ou temas representam o ser que as possui. Seja por qual significado ou motivo, há um aspecto que todos concordam: colecionar é, sim, muito divertido.

estante

Falando em livros, muitas coleções de autores são criadas para que estejam sempre juntas. Não raro se vê o mesmo design em vários livros para que fiquem bonitos e harmoniosos na prateleira. A linha da editora brasileira Alfaguara basicamente pede para que os títulos fiquem juntos – e não necessariamente na ordem de sobrenome de autor. Os clássicos importados Barnes and Noble’s, com acabamento em capa dura e gravados em dourado, almejam esta mesma união. Outros livros são criados para ter sua venda limitada a poucos exemplares e isso deixa a aquisição mais restrita e, por isso mesmo, logo se tornam objetos de desejo de colecionadores. Exemplo: SIR, de Mario Testino (Taschen), que teve sua publicação restrita a mil exemplares. Esgotou antes mesmo de ser publicado. Outro livro dessa categoria é a versão fac-símile da edição de 400 anos de Os Lusíadas, da Lello & Irmão, com somente 155 exemplares distribuídos no mundo.

Além dos livros, há uma área que cresce exponencialmente com mais e mais interessados ingressando no fabuloso mundo do vinil. Já não é de hoje que os LP’s voltaram e, seja pela qualidade de som ou pela beleza que ostentam, se tornaram mais objetos de decoração do exatamente uma alternativa para se ouvir música. A grande chave para entender o que é colecionar está intrinsecamente ligada à palavra fã: admirar o trabalho de alguém muitas vezes é querer tudo que rodeie esse artista ou personagem.

Assim, em pleno século 21, a indústria cultural se movimenta com convicção ao fornecer a exclusividade de ter algo de sua série/personagem/artista favoritos, entrando com aquela divisão que mais cresce entre todas as coleções: os itens feitos com o objetivo de serem somente o que são, ou seja, colecionáveis num segmento especialmente representado pelos “bonecos” e reproduções de todas as formas.

Quando se pensa neste segmento já vem à mente a figura do colecionador tão excêntrico e radical que sequer tira seu “objeto do desejo” da caixa/embalagem. Não tirar da caixa pode até ser uma “regra” para muitos, mas nem todo colecionador é assim, que fique claro. Desmistifique-se já: atualmente muitos bonecos vêm com aparatos para trocar (cabeças diferentes, braços e até mesmo roupas), caso da linha Marvel Select, que pede para ser imediatamente retirada da caixa. Por trás da “lenda da embalagem”, uma questão prática: é sempre mais fácil guardar na caixa em que o boneco veio inclusive para que não se percam peças. Outros modelos, no entanto, são verdadeiras esculturas, cujo principal objetivo é exatamente ser idêntico às “figuras reais”. Por isso estão mais ligados à decoração do que à articulação. Os bonecos da série 1/6 da Hot Toys, por exemplo, são os mais incríveis de se ver pelo tamanho (a quantidade fracionada significa que eles são 1/6 do tamanho do modelo original!), detalhes e com um visual idêntico aos modelos originais. O destaque para essa linha fica para o modelo de Luke Skywalker e o Batman Arkham City.

Outra expert em modelos símiles, mas menores, com 1/10, é a série Art Scale, da Iron Studios, uma das mais pedidas no Brasil segundo Renan Orenes Pizii, CEO da Piziitoys, uma das principais importadoras brasileiras de bonecos colecionáveis. Pizii salienta o que o cliente mais busca em colecionáveis: os detalhes na pintura. “ É sempre um grande diferencial. Principalmente quando você tem versões battle damaged, elas fazem um grande sucesso entre os colecionadores”, ele diz. É realmente incrível pegar um boneco da Art Scale com 15-20 centímetros e ver o quanto de detalhes é possível colocar em uma figura tão “pequena”. Nesta série, o destaque fica para a Capitã Marvel e o Capitão Cassian Andor, personagem de Rogue One

Ainda que grande parte dos colecionáveis tenha a ver com o universo nerd (Star Wars, Marvel, DC Comics) , eles estão longe de ficarem restritos a esse “circuito temático”. Há ainda Walking dead (Morgan Jones), Game of Thrones (Arya, Brienne, entre outros), que geram action figures também. E se boa parte do conteúdo está atrelado ao universo nerd existem marcas que conseguem ter uma amplitude maior e atingir até quem não se identifica tanto com esta “praia”.

Talvez o grande exemplo hoje de publisher com um catálogo bem diversificado seja a Funko, que se tornou uma febre no Brasil e no mundo. A marca consegue ter o mesmo apelo para os personagens do universo pop-nerd como todos os Vingadores, o Universo DC, Star Wars e ainda abrir fronteiras  relacionadas com games (Street Fighter, Assassin’s Creed), seriados (Breaking Bad) Disney (Dumbo, Frozen) e cantores internacionais, nomes como Amy Winehouse e Axel Rose. O grande diferencial da Funko, porém, é o design, indo na contracorrente do que um colecionável mais almejava: a verossimilhança. A empresa criou um design simples, nem tão infantil, mas com uma aparência lúdica capaz de seduzir tanto crianças quanto adultos e a um preço mais acessível (em torno de R$ 100). Foi um aparato essencial para que a explosão do Funko’s começasse em 2014 e se mantivesse até hoje. Para ser um colecionador de bonecos agora não é necessário desembolsar milhares de reais em uma coleção. 

funko

Assim, mais do que nunca os personagens povoam a imaginação de seus fãs. Para eles, entusiastas que são, ter uma peça de seu herói/personagem/cantor/ator favorito não é mero capricho, mas quase um ato de amor-devoção. Não importa se for um HQ ou uma banda, será sempre um reflexo da personalidade de quem adquiriu, independentemente das hipóteses psíquicas (e há várias) para explicar porque as pessoas fazem o que fazem, colecionam o que colecionam. Na prática, coleciona-se porque há um prazer, não importa o motivo, e um imenso orgulho de poder mostrar na estante ou no rack que aquela é sua coleção particular. Seja livro, boneco ou um item exclusivo, o ser humano coleciona também para se expressar e dar forma a uma das características mais notáveis da sua própria existência.

* Texto publicado originalmente na revista Vila Cultura de abril de 2017

Para ler o número atual da revista, acesse este link.

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