Do que falo quando falo sobre Murakami

Por: Fernanda Rossin

muraMurakami conta a seguinte história sobre o início da sua carreira como escritor: ele estava um dia assistindo ao primeiro jogo de uma liga de beisebol quando pensou “Acho que eu poderia escrever um romance”. Conciliando esse novo objetivo com a administração do bar que tinha em Tóquio, começou a escrever durante a madrugada após encerrar o expediente, e foi assim que depois de mais ou menos seis meses finalizou seu primeiro romance, Ouça a canção do vento (1979).

A história foi enviada a um concurso e esquecida por uns tempos, até que Murakami recebeu a notícia de que tinha ganhado e que seu romance seria publicado. Diz o autor que se não tivesse ganhado, o livro estaria perdido para sempre, porque a única cópia fora enviada aos jurados. A partir dali, decidiu que gostaria de dedicar-se à escrita integralmente e se permitiria essa tentativa, mesmo que muitos ao seu redor fossem contra sua decisão.

Deu certo. Desde a primeira publicação, Murakami vem escrevendo e publicando continuamente há quase quarenta anos. Apesar de escrever contos e não-ficção, além de traduzir livros do inglês para o japonês, seu principal foco são os romances, que logo se destacam por sua peculiaridade.

Uma constante crítica em seu país natal é que Murakami não parece um escritor japonês. Ele desenvolveu uma maneira muito própria de escrever, que compara com o estilo direto da escritora Agota Kristof, uma mulher húngara refugiada na Suíça. Kristof desenvolveu sua obra com o francês limitado que sabia, criando sentenças muito simples para transmitir o que gostaria.

Mesmo em seus romances longos, essa é uma característica do romancista. Ele tem uma maneira concisa de escrever, sejam em descrições ou sentimentos, que são um dos pontos altos de suas obras porque trazem aquelas situações mais próximas da realidade, sem muitos floreios. Murakami costuma descrever rotinas detalhadamente, por exemplo – a mulher acordou, escovou os dentes, preparou o café da manhã cortando os legumes em rodela… –, e sua simplicidade em mostrar uma sequência banal de ações traz uma dimensão distinta às histórias.

Outra peculiaridade de Murakami são as referências. Ele cita muitos livros, autores, cantores e músicas em suas criações, e ainda que isso geralmente não colabore muito para o desenvolvimento das personagens, interpreto isso como pequenos luxos que o autor se permite para expor suas próprias preferências, além de ajudar a construir a atmosfera única dos textos. Para o leitor, transforma-se em uma ótima fonte de recomendações de jazz, música clássica e literatura.

As tramas costumam ser recheadas de realismo mágico, com um tanto de coisas inexplicáveis acontecendo, às vezes reconhecidas pela personagem como algo estranho, às vezes não. As personagens em si costumam ser pessoas bastante regulares em seus gostos, rotinas e capacidades – melhor dizendo, a maioria de seus protagonistas são assim, mas cercados de pessoas peculiares que acabam motivando a narrativa. Apesar de geralmente escrever do ponto de vista de personagens masculinos, Murakami consegue criar personagens femininas incríveis, à altura de sua obra.

O primeiro romance que li dele foi Norwegian Wood, de 1987, cujo título faz referência à música dos Beatles e foi seu primeiro sucesso comercial nos Estados Unidos. É um dos seus livros mais “normais”, sobre um estudante que perde uma pessoa muito próxima e reaproximasse-se de uma antiga colega, e um dos meus preferidos junto com o incrível Kafka à beira-mar (2002).

Considero Kafka à beira-mar o ápice criativo na carreira de Murakami – apesar de ainda não conhecer toda sua obra –, construindo uma história com dois protagonistas: um garoto de quinze anos cheio de problemas familiares, com narrativa em primeira pessoa; e um senhor pobre já com uns sessenta anos que tem a habilidade de conversar com gatos, com a narrativa em terceira pessoa.

Esses dois livros são bons pontos de partida para conhecer o autor. Dos mais curtos, Minha Querida Sputnik (2001) traz os elementos onipresentes em suas criações, com a história de uma aspirante à escritora de vinte e dois anos que se apaixona por uma mulher mais velha. Vale também conferir o conto Sono (1991), que ganhou uma edição própria com ilustrações incríveis de Kat Menschik, protagonizado por uma mulher que há dezessete dias não dorme.

Mesmo seus romances com menos força, como Após o anoitecer (2004) e O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação (2011), compensam o tempo investido porque sempre há algo de novo e singular na escrita de Murakami, ou uma referência que vai te apresentar um artista incrível, uma citação que vai fazer com que você mude sua perspectiva sobre alguma coisa.

Como ele discorre no livro (maravilhoso) de não-ficção Romancista como vocação (2008), Murakami tem vocação para a escrita e isso, alinhado com sua disciplina invejável, leva à construção de obras consistentes, bem trabalhadas e interessantes de ler. Nem todos seus romances foram publicados em português até o momento, mas a Alfaguara tem edições lindíssimas e na Amazon dá para encontrar mais algumas publicações em inglês.

Fernanda Rossin – tem 25 anos, pesquisa sobre feminismo em âmbito internacional e adora gatos, livros e aprender coisas estranhas. 

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