[Trecho da semana] Um amor incômodo

Aqui n’O Espanador sempre discutimos se grifar livros é um ato de barbárie ou uma forma de tornar a leitura ainda mais particular. Alguns marcam o livro com marcador de texto, outros com post-its coloridos, alguns se arriscam e fazem comentários a lápis e outros chegam ao extremo de escrever a caneta (existem até uns outros que dobram levemente os cantos páginas, mas achamos que isso é ir longe demais). 

Mas independente da forma de destacar a leitura, adoramos compartilhar esses trechos e comentar sobre eles. Resolvemos, então, que seria legal poder compartilhar com vocês. Toda semana um trecho de um livro estará por aqui. 

Boas leituras!

Por outro lado, eu não quis ou não consegui enraizar ninguém em mim. Mais algum tempo e perderei até a possibilidade de ter filhos. Nenhum ser humano jamais se desligaria de mim com a mesma angústia com que me desliguei da minha mãe apenas porque nunca consegui me apegar a ela definitivamente. Não havia nenhum mais ou nenhum menos entre mim e outro ser feito de mim. Eu permaneceria sendo eu até o final, infeliz, insatisfeita com aquilo que arrastara furtivamente para fora do corpo de Amália. Pouco, demasiadamente pouco, o butim que eu conseguira tomar, arrancando-o do seu sangue, do seu ventre, e do seu fôlego para esconder no meu corpo, na matéria caprichosa do meu cérebro. Insuficiente. Que maquiagem ingênua e descuidada tinha sido essa tentativa de definir o “eu” como essa fuga forçada de um corpo de mulher, embora eu tivesse levado comigo menos do que nada! Eu não era nenhum eu. E estava confusa: não sabia se o que eu estava descobrindo e contando para mim mesma, agora que ela não existia mais e não podia retrucar, me causava mais horror ou prazer. (pg 78)

UmAmorIncomodo_GEm Um amor incômodo, Delia descobre que sua mãe, Amália, morreu em circunstâncias misteriosas. A filha tem que voltar para a cidade da mãe, Nápoles, para cuidar do enterro e de todos os trâmites da morte, enquanto confronta a história conflituosa entre as duas. Entre fantasmas do passado e outras revelações, Delia precisa compreender quem era sua mãe de fato e como isso reflete nela mesma.

Um amor incômodo

Autora: Elena Ferrante

Tradução: Marcello Lino

Editora Intrínseca

173 pgs

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