[meu país das maravilhas] Minhas tardes com Antonio

Por: Isa Leite

Em 2009 eu ingressei naquele que, talvez, tenha sido o primeiro grande sonho da minha vida: a faculdade de Letras na USP. Eu era uma jovem da classe pobre que estava ascendendo à média (obrigada, governo Lula), vinda da periferia e com nenhuma tradição literária, mas sabia com toda a certeza da juventude que queria ser professora de português e, um dia, mudar a vida de outros jovens como eu, sendo a grande inspiração para meus alunos.

A faculdade trata, rapidamente, de minar vários dos sonhos que todos os seus ingressantes acalentam, e comigo não foi diferente. Logo me vi substituindo meus grandes ideais por outros um pouco menos elevados, mas igualmente ambiciosos: eu conheci a crítica literária e Antonio Candido, e decidi que era isso que eu também queria fazer. Investi e insisti muito nesse ideal, e se também ele foi deixado para trás (ao menos nos moldes acadêmicos então pensados), a paixão pelo professor e mestre que eu conhecia dos livros, vídeos e depoimentos daqueles que conviviam com ele nunca me abandonou. Todos desejávamos, também, ouvir Antonio Candido, conversar com ele, conviver com o mais famoso dos professores que já passara por aquela instituição.

Até que meu dia chegou.

Em 2014 eu trabalhava na biblioteca da faculdade, e ele iria fazer uma doação maciça do seu acervo particular, mas precisava da ajuda de alguém para a triagem, um braço mais jovem (ele já tinha 95 anos) para fechar caixas, carregar livros e preparar o material para ser levado à biblioteca. Tive a honra ou sorte de ser essa pessoa e lá fui eu, para a casa de Antonio Candido.

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Desnecessário dizer que a biblioteca dele (que era um quarto pequeno de fundos e todo o resto da casa, livros em armários e estantes espalhados por onde se via) era fascinante: tive em mãos as primeiras edições (autografadas!) de Bandeira, Drummond, Lígia Fagundes Telles, entre outros. Vi também obras antiquíssimas, me lembro de uma em especial: um livro religioso encontrado pelo irmão de Antonio Candido em meio a escombros de uma igreja na Itália, durante a segunda guerra, e que estava perdido e eu dei a sorte de encontrar. Mas o mais preciosos da casa era o homem que guardara todos aqueles livros durante tantos anos.

Eu fui a casa dele duas vezes por semana, durante três semanas, totalizando seis encontros. Neles, durante cerca de meia hora ou quarenta minutos nós “descansávamos” sentados na sala de estar do apartamento dele e era essa a hora que eu mais ansiava, pois era a hora de ouvir histórias. Ele me falou sobre a vida como professor universitário, sobre o tempo em que conhecia todos os funcionários do prédio da reitoria pelo nome. Também era muito atento e observador, e pesquisou (dentro da própria cabeça, talvez a maior biblioteca já encontrada na cidade de São Paulo) sobre meu sobrenome (“o Leite vem da Bahia, sabe? Conheci em 1970…”) e encontrou uma música, em francês, para cantarolar com meu nome. Mas o meu maior prazer era ouvi-lo falar sobre seus amigos escritores, as muitas histórias sobre o “seu querido Bandeira, Isabela”, ou sobre Drummond.

Foi numa dessas histórias sobre amigos que eu ganhei o meu presente. Estávamos falando sobre Vinicius de Moraes, eu relembrei uma fala de Antonio Candido no documentário sobre o poetinha, quando eles se conheceram. Divagando, ele me contou de uma noite há muitos anos, em São Paulo, onde Vinicius foi à casa dele e depois de uma ou dez doses de uísque contou sobre sua mais recente composição, chamada “Balada de Pedro Nava”. Contou e cantou, ali, para o Candido. E não mais se ouviu falar, a balada foi parar em livro, mas nunca foi cantada por ninguém. Depois da morte de Vinicius, Antonio Candido se encontrou com outro Antonio, o Jobim, e se gabou de conhecer uma música de Vinicius que nem ele, Tom conhecia. Diante da incredulidade de Tom ele cantou e, é, Tom realmente não a conhecia. E pra ninguém nunca mais ele havia falado sobe, ele me disse, mas já que eu gostava tanto de Vinicius, ele achou que era a hora de mais alguém conhecer.

E ali, na minha frente, Antonio Candido cantarolou as duas primeiras estrofes de uma música inédita de Vinicius de Moraes. Eu pedi licença e gravei, mas, por algum motivo, perdi o vídeo entre o meu celular e o computador. Acredito que tenha sido um recado do universo para que esse momento permanecesse para sempre na minha mente, e eu jamais me esqueci.

Antonio Candido partiu em maio desse ano, e a ausência de suas palavras e ideias há de se sentir para sempre por todos aqueles que leram o que ele escreveu ou ouviram o que ele disse. Eu também sentirei para sempre, mas ainda mais intensamente sentirei saudades das tardes passadas com ele, falando sobre livros, amigos e literatura. E da música que eu ganhei de presente dele.

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