A redoma de vidro

Por: Michelle Henriques*

I was supposed to be having the time of my life.”

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Em 1963, foi publicado o livro A Redoma de Vidro, único romance de Sylvia Plath. Nele, Plath nos conta sobre a jovem Esther Greenwood, que está fazendo um estágio em uma revista de Nova York. Aos poucos, acompanhamos o declínio de Esther: sua vida glamourosa se torna um peso e culmina em uma tentativa de suicídio.

A escrita de Plath acompanha a evolução de sua depressão. O livro começa cheio de otimismo, de acordo com as coisas que Esther vive: as festas, os encontros e os jantares. Mas ela se vê presa na “redoma de vidro” que a impede de sair da cama, de escrever e de se sentir bem consigo mesma.

Esther havia planejado escrever um romance durante as férias de verão que iria passar na casa de sua mãe, mas não consegue sequer levantar da cama. Ela tem dificuldade em tomar banho, lavar o cabelo ou as roupas, alegando que não fazia sentido limpar algo que irá sujar depois. É quando a mãe a convence a procurar ajuda médica.

Plath usou o pseudônimo de Victoria Lucas. Ela mesma classificou essa obra como autobiográfica, com alguma ficção e um exercício para se livrar do passado. Seu único romance foi publicado um mês antes de seu suicídio.

A narrativa em primeira pessoa aparece, também, como uma escolha feita por um dos autores prediletos de Sylva Plath (ao lado de Virginia Woolf e D. H. Lawrence), J. D. Salinger, o autor de O Apanhador no Campo de Centeio. Em ambos, temos personagens que se sentem desconfortáveis e deslocados dos ambientes por onde transitam, fazendo observações agudas desses locais e das pessoas com as quais são obrigados a conviver, e há um toque de rebeldia, marca daqueles anos em que os padrões de comportamento começavam a mudar. A emancipação gradativa das mulheres, sobretudo nas grandes cidades, o rock como referência não só musical mas de costumes, a desestruturação familiar, a hipocrisia da vida mesquinha, da mentalidade tacanha, pequena, das cidadezinhas do interior — de algum modo, ou seja, nem sempre de maneira explícita, deixam-se entrever em A Redoma de Vidro“, escreveu a jornalista Heloísa Fonseca de Arruda.

redomaEm A redoma de vidro a autora traz importantes questionamentos a respeito do papel da mulher na sociedade. Escrito no início do anos 1960, ele acompanhou o crescimento do movimento feminista. Plath trata da mulher enquanto escritora e em busca de uma carreira, quando o esperado era que fosse esposa, mãe e dona de casa.

Ao escrever sobre depressão, ela também foi contra diversos mitos de que a mulher com algum tipo de problema psicológico poderia ser considerada histérica. Além disso, ela também explorou a sexualidade feminina, a questão da virgindade e a ideia de que a mulher poderia de escolher seus parceiros sexuais, não se limitando ao casamento.

O suicídio também foi um tema bastante explorado nas poesias de Plath, como em “Lady Lazarus” e “Daddy”. Em A Redoma de Vidro, ela trata da depressão com uma linguagem bastante dura, mas ainda assim poética.

Um sonho ruim.

Para a pessoa dentro da redoma de vidro, vazia e imóvel como um bebê morto, o mundo inteiro é um sonho ruim.

Um sonho ruim.

Eu me lembrava de tudo.

Lembrava-me dos cadáveres, de Doreen, da história da figueira, do diamante de Marco, do marinheiro no Common Park e da enfermeira vesga e dos termômetros quebrados e do negro com dois tipos de feijão e dos nove quilos que ganhei graças à insulina e da rocha que se erguera entre o céu e o mar como uma caveira cinzenta.

Talvez o esquecimento, como uma nevasca suave, pudesse entorpecer e esconder aquilo tudo.

Mas aquilo tudo era parte de mim. Era a minha paisagem”.

A redoma de vidro

Autora: Sylvia Plath

Tradução: Chico Mattoso

Editora Globo

280 pgs

*Este texto foi originalmente publicado no site Confeitaria

 

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