[Foguete feito de papel e tinta] A pressa

Por: Paula Queiroz

A pressa é inimiga. De tudo, eu acho. Principalmente da aquisição de qualquer tipo de conhecimento.

Há uns anos venho pensando sobre a questão do conhecer. No dicionário Houaiss, conhecer é definido como “1. Obter informações sobre, saber. 2. Ter consciência de. 3. Ver, visitar. 4. Saber muito sobre; dominar. 5 experimentar, sentir. 6 ser apresentado. 7 manter relações pessoais. 8. Ter consciência das próprias características, sentimentos, etc.”.

Ok, tio dicionário. Vamos refletir: se conhecer é obter algo e, ao mesmo tempo, adquirir consciência – note-se que a palavra “consciência” aparece duas vezes na definição – temos aí uma relação de ter um contato mais afundo naquilo que nos é apresentado. E ter consciência sobre aquilo que é estudado, assistido, lido demora. Bastante. Ciente disso, acho que os passos para aprender qualquer coisa se tornam menos pesados.

Explico.

Estudo desde os 5/6 anos. Na infância e adolescência, vieram a matemática, as ciências, português, história e outras tantas coisas que precisei assimilar para chegar à faculdade. Cursei Direito, daí veio a Letras logo depois. E após ter flertado com várias habilitações – na USP o curso de Letras é separado por línguas e linguística, tendo o calouro a árdua escolha para optar por uma delas – escolhi russo. Língua difícil, outro alfabeto. Nos primeiros meses, fui deparada com inúmeras questões em relação à minha capacidade de aprendizado, e principalmente se eu estava de fato adquirindo algum conhecimento com a faculdade. E vieram mais questionamentos não só em relação à língua russa, mas em toda a constituição cerebral e cognitiva dessa que vos escreve. Eu tive um siricutico, como já diria eu mesma.

Daí eu lembrei do ditado da pressa. Inimigo, segundo o Houaiss, “1. Que está em oposição; contrário. 2. O que tem ódio a alguém ou algo. 3. Adversário militar; político.  4. Quem tem aversão a algo. 5. Que se opõe a algo.” Meu santo Puchkin, eu basicamente entro em guerra com a pressa quase todo dia (aliás, a sociedade inteira. Pressa x Mundo, essa é a verdadeira 3ª guerra mundial.). A pressa, portanto, como um bom oponente militar, estava me podando do conhecimento. E eu, uma adversária meio ambígua, concordava com esse ataque silencioso – mas não tanto – no meu próprio cotidiano e nos meus próprios prazeres tais como ler, escrever, escutar música, assistir filmes e, claro, estudar.

Essa necessidade de absorver tanta informação e não conscientizar todo o meu corpo daquilo que estava sendo dado ao meu cérebro atrapalhou muito em vários momentos da minha vida; o russo só aflorou algo que já acontece há tempos.

Caminhar com o próprio conhecimento adquirido (e com o que vai ser adquirido) é o lema que tento seguir depois de tantas noites mal dormidas pensando no alfabeto cirílico e nos livros/filmes que eu não tive a oportunidade de conhecer. Como nosso querido Houaiss já explicou, conhecer é sentir, manter relações e não é simplesmente um corte no espaço-tempo que você pode fechar como se nada tivesse ocorrido (se bem que em Doctor Who isso dá problema, mas isso é outro assunto pra outro texto.). Ou seja, take it easy. Se a pressa é nossa inimiga, sejamos companheiras e companheiros da lentidão: respeitando nossos limites, estabelecendo relacionamentos com a nossa própria capacidade de aprendizado, tendo prazer em visitar todos esses campos diversos de cultura, língua e porque não, pessoas. A partir dessa perspectiva, nossas próprias vidas pessoais e profissionais respiram com um pouquinho de dignidade em mundo que martela para sermos mais rápidos que a velocidade da luz. Deixem a luz ser veloz, ela não tem consciência dela mesma, nós temos. Por isso, se um dia você, seus amigos, seus parentes estiverem na mesma linha de frente da pressa, puxe-os com afeto para o lado da lentidão. Nem que seja só um pouquinho. Degustar da vida e do que ela fornece exige tempo.

“Ando devagar porque já tive pressa.” Essa música possui o verbo “conhecer” reiterado várias vezes ao longo da composição. Coincidência? Não. Para conhecer, existe pausa. E reflexão. “O sabor das massas, das maçãs” e outros sabores, as sensações exigem calma. Colocar isso em prática é, de fato, uma guerra contra o relógio que nos é imposto diariamente: tenha diplomas, emprego, casa, carro, conhecimento, dinheiro, viagens…ufa! Uma lista imensa a ser preenchida no mínimo de tempo possível. A nossa estratégia, no caso, é andar ao contrário: pausando, temos um pouco de paz. Nem que seja por 10 minutos.

E um dia se vocês me encontrarem na rua e me perguntarem “como vai o russo?”, eu responderei: “tá bem lerdo. Mas tá indo.” Respostas curtas que dizem muito, meus caros.

O aforismo grego “conheça-te a ti mesmo” nos leva a uma questão: como nos conhecer, então, Oráculo de Delfos? Com lentidão. Sempre. 

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