E assim por diante… – Kurt Vonnegut dá formas às suas histórias

Por: Fernanda Rossin

Conheci Kurt Vonnegut (1922 – 2007) através de uma frase que então era muito comum e erroneamente atribuída a ele. Imagino que ele acharia graça no equívoco de tanta gente, e de alguma forma analisaria isso de sua peculiar forma satírica. Para mim, a sensibilidade da frase me motivou a buscar mais sobre o autor, o que me deixa bastante grata porque imagino que teria demorado mais para chegar em Vonnegut se fosse por algum outro caminho.

Aí descobri que a maioria dos seus livros estão disponíveis para leitura através do Kindle Unlimited, serviço de assinatura da Amazon, e foi assim que escolhi minha primeira leitura dele, a coletânea de contos Welcome to the Monkey House.

Apesar de não ter gostado tanto das histórias, alguns elementos na escrita dele me chamaram a atenção. Vonnegut escreve de um jeito simples, direto e fluído, expondo sua visão sobre a sociedade com uma ironia sempre presente, mas nunca cruel. Mesmo que os temas fossem difíceis, havia leveza na escrita, como se tudo aquilo estivesse sendo contado por uma pessoa confiável que espera sempre o melhor dos outros.

Depois dessa coletânea, li Matadouro 5, que aí me deixou completamente apaixonada. O romance mais famoso de Vonnegut traz muitos elementos autobiográficos, em uma história alinear que acompanha o protagonista Billy Pilgrim em diversos momentos de sua vida. Pilgrim tem a habilidade de transitar pelo tempo, mas não consegue controlá-la.

Então o acompanhamos na vida adulta, quando é um dentista de sucesso que começa a ter algumas ideias estranhas, mas também como um soldado adolescente na Segunda Guerra Mundial, sem equipamentos nem treinamento adequados, vagando a esmo pela Alemanha e sobrevivendo por sorte. Através do personagem, Vonnegut conta um pouco de sua própria experiência na guerra, tema recorrente em muitas de suas histórias.

Depois do início na ficção científica, ele desenvolveu um gênero de escrita muito próprio, misturando vários gêneros da ficção especulativa. Seus protagonistas costumam serem homens resignados e sensíveis à realidade que vivem, enquanto as personagens ao redor deles carregam uma série de estranhezas. Vonnegut é muito crítico em relação à política e sociedade que vive, trazendo uma visão pessimista de mundo. Ainda assim, ele não soa fatalista, parece somente um homem cansado dos horrores que viu e não consegue acreditar que algumas coisas ainda não foram resolvidas.

Ele expressa isso através das muitas situações satíricas de seus romances, seja em um cientista que acidentalmente criou a bomba nuclear, ou no neonazista que tem um homem negro como um dos seus companheiros. Com toda a simplicidade, sua escrita carrega tantas nuances que às vezes tenho que voltar para um trecho, relendo-o, para conseguir entender tudo que ele passa.

É isso que me encanta em Vonnegut – a habilidade que ele tem de trazer tantas reflexões, jogar tantas verdades na nossa cara, fazer tantas críticas sociais, sem muitos floreios e também não se exaurindo de sua responsabilidade. Os protagonistas, que parecem sempre carregar um quê pessoal do autor, estão longe de serem perfeitos.

Além das obras de ficção, Vonnegut também investiu seu tempo escrevendo ensaios e era bastante chamado para fazer commencement speeches, os discursos para alunos de graduação no dia da formatura, onde seu pessimismo motivador ficava bastante claro. Alguns desses discursos foram reunidos em “f This Isn’t Nice, What Is?: Advice for the Young, uma leitura que recomendo bastante.

Em relação aos romances, recomendaria começar com Mother Night, que é a transição do Vonnegut da ficção científica para esse estilo tão próprio dele. Mas as opções são muitas nos cinquenta e tantos anos que ele escreveu, e confio que ler qualquer obra dele não será uma viagem perdida.

Pratique qualquer forma de arte, música, canto, dança, atuação, desenho, pintura, escultura, poesia, ficção, redação, reportagem, não importa o quão bem ou mal, não para conseguir dinheiro e fama, mas para experimentar tornar-se, para encontrar o que está dentro de você, para fazer sua alma crescer.” Carta de Vonnegut a alunos da Escola Xavier, tradução livre.

Fernanda Rossin – tem 25 anos, pesquisa sobre feminismo em âmbito internacional e adora gatos, livros e aprender coisas estranhas. 

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