[meu país das maravilhas] Sobre ser leitora, sobre ser livreira, sobre ser profissional, sobre ser.

Por: Isa Leite

Oi, sou a Isabela. Ao menos é o que diz a identidade.

Diz também que tenho 26 anos, recém completados.

Aprendi a ler aos 4 anos. Minha mãe ensinava à irmã, dois anos mais velha que eu, e na falta do que fazer, aprendi junto. Costumo dizer que, desde então, nunca mais parei. Mas a história não é exatamente assim.
Eu lia? Claro que lia. Acho que até os 9, 10 anos, lia qualquer coisa. Se aparecesse na minha mão, eu lia. O primeiro livro que me lembro de ter lido, talvez com 5 ou 6 anos, foi Falando pelos cotovelos,  da Lúcia Pimentel Góes. Irônico, já que falar demais sempre foi minha maior característica. Isso, e o livro a tiracolo.

Cresci, e segui lendo. Descobri o romance policial e Agatha Christie. Depois, os infanto-juvenis, Pedro Bandeira e seus karas, a coleção “Vaga-Lume”. Machado de Assis, seu Dom Casmurro. Érico Veríssimo e Olhai os lírios dos campos. Harry Potter, muito Harry Potter, mergulhar nesse universo. Ler, ler, ler. 

Sempre me achei uma ótima leitora… até a Faculdade. Letras. Ali, encontrei um novo mundo e novos livros. Gente que nunca tinha ouvido falar, outros que eu conhecia só de nome. Borges, Cortázar, Dostoiévski, Tolstoi, Drummond, Boccaccio… a lista é interminável. E foi ali que descobri minha ignorância e incompletude. Foi muito difícil assumir meus limites e encarar que a grande aluna e prodígio era pequena diante da vastidão do mundo.

A faculdade me ensinou muito. E ensinou, na prática, nas lágrimas de trabalhos de noites viradas, de textos absorvidos no balanço do ônibus, ensinou que eu jamais saberia tudo. E que estava tudo bem, contanto que eu jamais desistisse de aprender mais. De conhecer mais. Durante aqueles cinco anos eu me debrucei em cada texto clássico que chegou às minhas mãos, e me apaixonei pro Madame Bovary, Moll Flanders, Elizabeth e Darcy, tantos russos e alemães, italianos e franceses, tantos, e ainda assim tão poucos. Diante da imensidão da Literatura é fácil sentir-se pequena. 

Depois da faculdade  – e mesmo ao final dela – houve um hiato literário na minha vida. Um breve período em que ler não era a primazia dos meus hábitos, em que poucos livros foram comprados e diversos foram vendidos. Até que… a Livraria entrou na minha vida.

Não havia em mim o hábito da livraria. A biblioteca, sim, era meu lugar de origem, mas a livraria não. Eu pouco ou quase nada conhecia desse ambiente, não entendia o que era receber ou dar recomendações de livros, eu lia o que meus professores indicavam (Percy Jackson veio do meu orientador de teoria literária!), o que meus amigos liam, tudo muito clássico e antigo. Literatura contemporânea? Best sellers? Nada disso fazia parte do meu dia-a-dia. Mas eu precisava aprender, dominar. Quando me vi livreira, o antigo não era suficiente, eu precisava dominar o novo. E a minha ignorância e incompletude tomou dimensões ainda maiores.

Mas, dessa vez, as coisas foram diferentes. 

A Livraria não foi hostil em momento algum comigo. Foi acolhedora e amiga como ambiente de troca. Porque ela queria de mim a compreensão, e em troca, queria que eu oferecesse aos outros aquilo que eu dominava. Mais que isso, eu me vi em meio aos livros infantis e juvenis, tendo a responsabilidade de ler e indicar para crianças e adolescentes, participar da formação desses leitores. Eu me joguei nesse mundo, que eu não conhecia, e me senti satisfeita em poder dividir tanto que tinha aprendido até então. Dentro da livraria, muitos outros nomes surgiram e muitas outras perspectivas. Durante muito tempo, o universo Young Adult foi o meu domínio e eu o consumi da fantasia ao chick lit, do sci-fi ao sick lit. John Green, Rick Riordan, Suzanne Collins, Veronica Roth. Novos nomes se tornaram comuns aos meus ouvidos e novas histórias surgiram na ponta dos meus lábios (lábios de vendedora…).

Depois, veio o tempo da Literatura, do “andar de cima” da loja. Outros nomes, outras trocas, outros prazeres. Aí, as influências dos colegas – de alguns, especialmente – foram fundamentais pra me descobrir. Conheci Kundera e A Insustentável Leveza do Ser, Marçal Aquino e seu Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, a poesia de Ana Martins Marques, a atualidade de Michel Laub, a intrigada intensidade de Elena Ferrante… Cada dia no chão de loja me ensinou um pouco mais e me fez ver o quanto ainda me faltava. E o quanto eu só seria completa juntando tudo isso, o popular e o erudito, o moderno e o clássico, o best seller e o Nobel.

Recentemente, numa conversa com um amigo, discutimos justamente isso: a escolha dele por uma literatura que se julga melhor e elevada, e a perda inestimável em negar o pepel e o lugar do simples na sua vida. Era um incentivo pra que ele também se permitisse apreciar a beleza na simplicidade, porque a literatura feita pra vender ou para elevar a alma, será sempre um espelho da beleza procurada por quem a lê.

Hoje, longe da loja, sigo firme no mundo da literatura. Os planos do futuro, da carreira e do profissionalismo, me levam cada vez mais perto da menina que aos 4 anos aprendeu a ler e decidiu que leria pra sempre.

Hoje, mais do que nunca, sei o quanto me falta e o quanto essa falta é mola propulsora para que eu descubra mais e mais e sempre me mantenha em dívida com a literatura, com o conhecimento que posso ter. E mais ainda queira dividir tudo isso com qualquer um ao meu redor, com os clientes que se tornam amigos, que se tornam cúmplices. Que me mudaram e transformaram, junto com os livros, e alteraram aquilo que a identidade dizia.

Prazer, eu sou a Isa, livreira.

Isa Leite livreira, é apaixonada por YA e não suporta que digam que não é literatura séria. Sofre de síndrome do impostor mas busca tratamento na escrita. Lê muito menos do que deveria e assiste mais Masterchef do que é aceitável, mas pelo menos sabe fazer bolo.

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