A Flip está diferente. E por que isso é bom?

flip

A Flip 2017 está diferente. O discurso oficial pode tentar nos fazer acreditar que tudo continua igual, mas não.

A Flip deste ano aparentemente parece menor que os anos anteriores. Com os acontecimentos desastrosos (GOLPE) no último ano e o estado do país, era de se esperar que isso também afetasse a Festa. O resultado é que de fato a arrecadação para a festa foi bem reduzida.

E logo de cara percebemos que a Flip diminuiu. A tenda dos autores não será montada e as mesas acontecerão dentro da igreja da Matriz. Ainda que seja curiosa a ideia de poder ver as discussões acontecendo dentro desta estrutura, é preciso lembrar que o espaço, e, consequentemente, os ingressos a venda caíram pela metade.

Nos anos anteriores a Festa vinha crescendo num ritmo quase alucinante, chegando ao seu ápice em 2012, com a edição de 10 anos. A partir de então, ela foi lentamente introduzindo outras mesas com aspectos diferentes e menos pop.

Pode parecer um exagero, mas uma Festa mais enxuta (diminuindo a presença de autores internacionais) e com nomes não tão famosos nesse ano (ano passado tivemos a última vencedora do Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch), pode ter vindo em boa hora. A vontade de uma Flip menor e o momento difícil podem produzir um evento muito melhor do que o planejado.

Voltamos, então, ao título do texto: A Flip está diferente. E por que isso é bom?

O maior motivo do nosso otimismo é a diversidade. A Flip desse ano conseguiu trazer autores que infelizmente nem sempre tem o espaço que deveriam. O eixo Estados Unidos-Europa deu lugar a autores da África e America Latina, bem como países mais periféricos do velho continente, como a Islândia.

E essa mudança de certa forma tem muito a ver com a ideia inicial da Flip, que é apresentar novas vozes da literatura. A curadoria, este ano nas mãos da jornalista Joselia Aguiar, levou isso para patamares ainda maiores. Muitos autores que estarão em Paraty nos próximos dias não tinham edição ainda no país. E a sua maioria foi editada por pequenas casas editoriais, aumentando também a variedade de editoras presentes na Festa.

Outro ponto que vale destacar é que a 15ª edição da Festa será a primeira em que a paridade entre homens e mulheres entre os convidados foi atingida. Algo muito diferente da “Flip das mulheres” ano passado, quando a porcentagem de autoras era cerca de 20% do total. Outro destaque é participação de autores negros nesta edição, com 30% dos autores participantes. É um número que esperamos que cresça, claro, mas em comparação aos anos anteriores, que a presença de autores negros era de um ou dois autores, já podemos vislumbram um avanço. Podemos então ver que houve uma preocupação com a diversidade de vozes e experiências literárias, o que só pode enriquecer o debate.

Durante a apresentação da programação, Joselia comentou que normalmente tenta-se trazer mulheres e negros para a programação sempre de uma forma segmentada e estigmatizada, com mesas como “a mulher na literatura” ou “a narrativa negra”. Este ano fica bem claro que isso passou longe da proposta, integrando todos a variados temas. Sobre essa pluralidade, a curadora escreveu um texto no último domingo (link aqui

Outra exemplo que pode justificar esse otimismo é a escolha do homenageado. Lima Barreto sempre foi um autor que ficou dividido entre a academia e a boêmia. Um autor que foi deixado de lado por gerações e gerações. Retomar Lima Barreto é fundamental para entender um pouco da Nova República e quem sabe até mesmo o Brasil de hoje. E a programação vai oferecer um bom número de mesas para investigar a obra do autor. 

Entre uma série de autores ainda desconhecidos pela maioria dos visitantes da Flip, talvez um dos grandes nomes da Festa desse ano seja o da mineira Conceição Evaristo. Aos 70 anos, finalmente ela tem toda sua obra publicada e acessível. Num movimento que tem acontecido nos últimos anos, a autora está sendo reconhecida pelo seu trabalho e participa de uma mesa no domingo.  Neste texto, a professora Carla Rodrigues para o blog do IMS, fala um pouco mais sobre esse aspecto da carreira de Evaristo.

É difícil fazer previsões (como já fizemos em anos anteriores) do que será destaque na 15ª edição da Festa. Nos próximos dias pretendemos compartilhar nossas impressões sobre essa Flip que nos parece mais plural e cheia de possibilidades.

PS- Para quem for a Paraty: Uma dica é ficar de olho nas casas editoriais deste ano. Ao contrário das edições anteriores, em que grandes editoras montavam sua casa na cidade, este a ano a maioria delas traz coletivos de editoras, sempre com uma programação bem interessante.

PPS- Para quem não for a Paraty: As mesas oficiais serão transmitidas ao vivo pela internet no site do evento.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *