Um relato sobre a Flipop

Por: Isa Leite

Gargalhadas, lágrimas, amizades, selfies e livros, muitos livros. Esses foram alguns dos principais ingredientes que marcaram os dois dias da 1ª Flipop, uma feira dedicada a literatura YA organizada pela editora Seguinte, do Grupo Companhia das Letras. Planejado no formato de convenção, com mesas sobre diversos temas envolvendo a literatura pop, espaço para autógrafos, brindes e presenças internacionais, o evento aproximou diversos grupos que trabalham e se dedicam à cadeia do livro, do autor ao fã.

Fã, sim, porque mais que leitores, o público era formado por fãs dedicados, passionais e interessados em estar presentes, discutir e refletir sobre os mais variados aspectos que envolvem um livro, desde a sua concepção e escrita até as críticas dos blogueiros e booktubers – presenças em peso na feira -, no processo de compartilhamento de opiniões, gostos, paixões e expectativas.

As mesas de bate-papo foram as principais atrações dos dois dias. Foram nelas que os pontos mais relevantes foram trazidos à tona, como a importância da representatividade na Literatura, e como os romances YA são, nas palavras dos escritores Bárbara Morais, Eric Novello e Jim Anotsu, os livros mais corajosos, por abordarem assuntos como lgbtfobia, racismo, violência social e repressão, etc., em contrapartida à “alta literatura”, que tem rodado cada vez mais em torno de si mesma. Além disso, a importância da internet como “abridora de portas” para novos escritores mostrarem seu trabalho e os clichês literários – amados ou odiados – foram os temas do sábado. Já no domingo, as adaptações de literatura para outras mídias, como o cinema, com a participação de Luiza Trigo, que acaba de estrear com Meus 15 Anos, e como ser fã mudou a vida de profissionais ligados ao universo YA. A escritora Socorro Acioli, juntamente com a equipe do editorial da Seguinte conversou sobre o processo de escrita e dividiu com o público sua experiência e seus truques e dicas para escrever seus livros.

A feira contou, ainda, com duas presenças internacionais: a escritora Alwyn Hamilton esbanjou simpatia num bate-papo sobre seus livros A Rebelde do Deserto e A traidora do trono, além de fazer a alegria dos fãs com fotos, autógrafos, conversas, tweets – e ao dizer o quanto gostou das churrascarias brasileiras. Já o americano Benjamin Alire Saénz levou todos às lágrimas ao expor sua condição de descendente de mexicanos e gay. Com 62 anos, ele falou sobre escrever para jovens e a emoção de ver seus leitores poderem se identificar com personagens homossexuais sem preconceitos ou tabus. As perguntas da plateia foram emocionadas – a ponto do próprio Benjamin segurar as lágrimas.

A estrutura montada para o evento – no Pavilhão Amarelo da Expo Center Norte – possibilitou uma proximidade inestimável entre os fãs e autores. Era um espaço que não apenas permitia como incentivava a troca, o debate, o reconhecimento. Todos os livros de todos os mais de quinze autores envolvidos no evento estavam a venda no local, e um dos movimentos que mais se via era após os bate-papos formarem-se filas para comprar os livros dos que haviam participado naquele momento. E não era preciso esperar horas numa fila em pé, num espaço desconfortável: tudo que se tinha a fazer era aproximar-se de qualquer um deles, conversar, fazer a pergunta que não deu tempo ou que surgiu só agora, ouvir a resposta, tirar a sua selfie e ganhar o seu autógrafo. Foi intensa a troca entre os escritores e seu público, público esse de muitos escritores também iniciantes, que publicam na internet e claramente estavam absorvendo todas as dicas e se inspirando nos relatos dos que já alcançaram seu sonho de se ver publicado por uma editora grande. Além, é claro, dos fãs que vieram especialmente para ter a chance de conhecer esses escritores em questão. Era bonito ver gente vinda de diversos lugares, como Rio Grande do Sul e Goiás, e que abraçava o seu autor preferido e proferia as tão queridas palavras “seu livro mudou a minha vida”.

O espaço contava também com uma cabine de fotos, onde todos podiam entrar quantas vezes quisessem e levar de graça as três fotinhos impressas de recordação, com seus amigos ou seu autor favorito, sendo ele favorito de anos ou de minutos atrás.

Um dos poucos problemas reais encontrados pelo público era a internet. Sem wi-fi no local e com um sinal bem ruim de 3G e 4G, havia a constante reclamação de fotos que não subiam, stories não postados ou tweets que não eram enviados. Para a geração presente – a maioria entre 13 e 20 anos – dois dias com um sinal fraco de internet era um problema sério e que precisa ser resolvido em edições futuras.

No mais, apenas elogios podiam ser escutados em todo canto em que se encostasse. A escolha de autores, de temas, e a experiência como um todo foram únicas e a grande esperança é que se tornem constantes – que venha a 2ª Flipop!

Isa Leite: livreira, é apaixonada por YA e não suporta que digam que não é literatura séria. sofre de síndrome do impostor mas busca tratamento na escrita. lê muito menos do que deveria e assiste mais masterchef do que é aceitável, mas pelo menos sabe fazer bolo.

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