[Faltou uma vírgula] Vende-se Tempo

Por: Laís Pragana

Só no coração de Caetano Veloso alguma coisa acontece ao virar uma esquina cosmopolita. Há tanto a se fazer, tão pouco tempo para pensar, que as ruas sumariamente apenas atravessamos. É uma tal de pressa, pressa, pressa, e um tal de com licença pra lá e pra cá, e de deixar a esquerda livre para que possamos passar! Imagino quantas vezes, por exemplo, Roberto Piva já cruzou lentamente a Ipiranga com a Avenida São João à procura de resquícios de Mario de Andrade; em paralelo, nós atualmente podemos por estes caminhos até procurar por estes dois poetas, por todos ou por nenhum – desde que não nos atrasemos para nossos próximos compromissos.

Para o mercado literário, é esta vida acelerada a maior pedra no sapato. No salão de uma livraria, posso apostar que a frase que mais se ouve seja: “gostaria de ter mais tempo para ler”. Como alimentar, então, o hábito da leitura e o prazer do contato com novas narrativas, num mundo em que sequer conseguimos ler os caminhos urbanos pelos quais passamos, e em que a diversão é primordialmente digital, direcionada, “algoritmizada”? Ou então: num cotidiano em que convivemos tanto com a falta, ou pelo menos com a precariedade do ócio e do lazer offline, como inserir nele a Literatura, e ainda por cima fazê-la cumprir seu papel de suplementar o vazio e de (se) fazer enxergar?

Em março deste ano comemorei o primeiro ano (de muitos, espero) da minha profissão de livreira. Foram sem dúvida os meses mais intensos, recompensadores e apaixonantes da minha vida. Venho tentado, desde então, responder às perguntas anteriores por meio de observações diárias; respostas objetivas, no entanto, ainda são difíceis de alcançar. Primeiro porque o livro, para além do custo elevado, ainda carrega em si um estigma elitista e de soberba que afasta dele uma parcela da população. Segundo porque muitas pessoas condenam o livro a um castigo utilitarista cruel: o de que ele deve, de algum modo, ser revolucionário. Ou seja: me parece que há uma busca incessante pelo carimbo de “livro que irá mudar/salvar a sua vida”, cujo resultado pode ser frustrante. Terceiro porque a inclinação para a leitura em tempos acelerados, como dito nos parágrafos anteriores, é algo que precisa ser a duras penas conquistado.

Com tudo isso em mente, então, aprendi que a base do trabalho de um livreiro é a humildade. A empatia para com a preferência literária do outro é a essência para contribuir com o hábito da leitura – que é, afinal, nossa missão. Afastar do leitor a possibilidade de entrar em contato com novos livros por meio de frases desdenhosas como “como assim você não conhece o escritor Fulano de Tal?”, ou “não leia isso, é uma porcaria”, ou “não vendemos esse tipo de livro aqui” é mortal. Corrói-se em seu próprio preconceito o livreiro que não se dispõe a transitar por entre os diversos mundos da Literatura. Claro: é natural, positivo, esperado e valorizado que tenhamos nossas preferências e inclinações pessoais. Eu, por exemplo, ganho meu dia quando consigo apresentar um escritor ou uma escritora que amo a um cliente! Mas é preciso exercitar sempre a reverência e o respeito: se tem algo que um livreiro tem a fazer é aprender, constante e diariamente.

Aqui vai uma história de que gosto muito. Uma colega de trabalho atendeu certa vez uma moça que dizia detestar ler. Conversa vai, conversa vem, e ela acabou confessando: não é que ela a detestasse… é que ela tinha medo. Medo de não entender, medo de se perder por entre os personagens, medo. Minha colega então retirou da estante o Milton Hatoum e seu Dois Irmãos e disse: “tente pelo menos este”. A moça aceitou experimentar e prometeu voltar à livraria para contar como foi a experiência. Eis que pouco mais de uma semana depois, ela reapareceu maravilhada: disse que amou o livro, que se soubesse que era tão bom assim ler um romance ela já teria se entregado ao gênero há muito tempo. À minha colega restou ostentar um sorriso enorme até o fim do dia, satisfeita pelo dever cumprido: nasceu ali mais uma leitora! Penso, portanto, que pode ser este o papel primordial do livreiro: o de apresentar novos mundos, o de encorajar a leitura, o de repassar um pouco do amor que sentimos pelos livros aos clientes.

Contudo, não há livros que, de maneira isolada, nos salvem. Não há um livro que mudará nossas vidas definitiva e radicalmente, já que não é a isto, originalmente, que se presta a Literatura. Mas parafraseando Matilde Campilho, os livros podem não salvar o mundo, mas salvam o minuto. É esta a missão do livreiro: salvar os minutos, desacelerar, multiplicar o tempo.

A verdade é que somos, enquanto livreiros, pessoas completamente devotas àqueles milhares e milhares e milhares de livros que estão à venda nas estantes. Na Livraria convivo com colegas de trabalho tão empolgantes, que tanto me ensinam…! São os livros, no acúmulo do exercício da leitura, que materializam o lampejo da possibilidade de voltar a ver. De fazer o coração bater mais rápido com uma poesia linda, com um romance bem escrito, com uma biografia embasada. E é como perceber nisso o gatilho de levar esta visão apurada pra vida, pra rua, pro cruzamento das avenidas que fazem com que alguma coisa, aí sim, aconteça no coração.

Vendem-se livros. E com eles vende-se tempo.

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