New York Public Library e o que uma biblioteca pode ser

Por: Mariana Tomazelli

“Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca” 
(Jorge Luis Borges)
 
 
O turista desavisado que resolver caminhar da Grand Central Terminal até a Times Square irá se deparar com uma série de placas de bronze na calçada contendo citações sobre a importância e o impacto da literatura. Dois quarteirões decorados com essas placas conduzem o visitante ao prédio principal do sistema de bibliotecas públicas de Nova York (New York Public Library, ou NYPL). As obras foram executadas pelo artista Gregg LeFevre, sendo a curadoria feita pela própria NYPL e pela revista The New Yorker. O trecho foi batizado oficialmente pela prefeitura como Library Way (Caminho da Biblioteca). Um pequeno detalhe poético da cidade.
 
Uma das placas do Library Way

Uma das placas do Library Way

Renomeado Stephen A. Schwarzman Building alguns anos atrás em homenagem a um doador, o prédio principal da NYPL é considerado patrimônio nacional arquitetônico. Enquanto os apressados se contentam em bater uma foto da fachada e tirar uma selfie com os leões (que possuem nomes: Patience and Fortitude), os turistas mais curiosos passeiam pelos corredores de mármore recheados de colunas e visitam a famosa Rose Room, a imensa sala de leitura no terceiro andar.
 
Fachada da NYPL (esq.) e o prédio por dentro

Fachada da NYPL (esq.) e o prédio por dentro

O prédio não abriga uma biblioteca circulante. Trata-se de uma biblioteca de pesquisa, com acervo voltado para as ciências humanas, e cujos livros não podem ser retirados do prédio. Aliás, os frequentadores também não podem passear pelas estantes procurando por volumes pelos quais se interessem: as estantes não estão abertas ao púbico. Atualmente a quase totalidade do acervo fica armazenada abaixo do Bryant Park (o parque vizinho da biblioteca), onde 30 funcionários são responsáveis por localizar os itens solicitados pelos pesquisadores. Os itens são organizados por tamanho, para economizar espaço, e são enviados diretamente à Rose Room (cinco andares acima) através de um… trenzinho! O intervalo entre a solicitação e o recebimento de um item é estimado em 5 minutos. 
 
 
Mas a NYPL é muito mais do que o belo prédio na Quinta Avenida. Trata-se de um dos maiores sistemas de bibliotecas públicas do mundo. Possui um acervo de 53 milhões de itens, e 92 unidades espalhadas pelos bairros de Manhattan, Bronx e Staten Island (Brooklyn e Queens possuem sistemas de bibliotecas públicas independentes). Das 92 unidades, quatro são dedicadas exclusivamente à pesquisa e as outras 88 são bibliotecas circulantes. Para retirar um livro você só precisa de um cartão da biblioteca, feito na hora mediante apresentação de um documento de identidade e um comprovante de residência do estado de Nova York. Segundo o site da NYPL, o número de pessoas com cartões da biblioteca chega a 2.2 milhões, o que é expressivo se considerarmos que a população dos bairros que abrigam as unidades da biblioteca é de 3.6 milhões.
 
Nos últimos anos a NYPL tem feito um esforço para digitalizar e disponibilizar via internet uma boa parte de seus documentos. Nesse caso a consulta pública é livre para qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo (numa leva recente, foram digitalizadas imagens raras do Brasil Imperial). E-books também tem sido continuamente acrescentados ao acervo e emprestados via internet. Aliás, pela internet é possível fazer buscas no catálogo, se cadastrar na lista de espera para um item que esteja emprestado e renovar empréstimos em curso. Como as unidades estão integradas, é possível retirar o livro em uma unidade e devolvê-lo em qualquer outra. Uma comodidade.
 
Rose Room, a sala de leitura com aproximadamente 24m x 90m (esq.) e detalhe do Empire State Building enquadrado pela janela da sala de leitura

Rose Room, a sala de leitura com aproximadamente 24m x 90m (esq.) e detalhe do Empire State Building enquadrado pela janela da sala de leitura

Além do acesso a seu extenso e precioso acervo, a NYPL proporciona outros benefícios às comunidades às quais serve. Aulas de inglês acontecem em diversas unidades todos os semestres, assim como cursos de informática, cursos preparatórios para o teste para obtenção de cidadania americana ou para a busca por emprego nos Estados Unidos. Todos esses serviços são gratuitos e claramente voltados para a população pobre e imigrante de Nova York, que os utiliza intensivamente. Nenhum “papel” é requerido: não é necessário ser um imigrante legal para ter acesso aos cursos. Outros programas oferecidos pela biblioteca incluem ainda leitura para crianças, auxílio com lição de casa, bolsas de pesquisa, conversas com autores e até alguns eventos menos ortodoxos...
 
Assim como outras bibliotecas públicas nos Estados Unidos e no mundo, a NYPL tem lutado para se manter relevante em uma realidade cada vez mais digital – e parece estar conseguindo. Se o volume total de empréstimos de itens físicos vem diminuindo levemente desde 2012, a participação nos programas educativos vem aumentando apesar dos cortes de verba. Há alguns anos a comunidade deu outra prova de seu engajamento: quando a biblioteca anunciou seus planos para a reforma do prédio principal, organizações civis como a “Library Lovers League” e a “Citizens Defending Libraries” se manifestaram contra a ideia e provocaram uma discussão que terminou trazendo alterações significativas ao projeto final. 
 
De fato, se pensarmos nas bibliotecas como entidades dedicadas à organização, preservação e garantia do acesso ao conhecimento, parece uma contradição considerá-las obsoletas no momento em que vivemos. Afinal, nunca se produziu tanta informação em tão pouco tempo. Nunca se precisou tanto de ferramentas para analisá-la (e os numerosos workshops sobre como identificar fake news mostram que as bibliotecas públicas americanas estão bem conectadas ao momento histórico). 
 
Meus últimos empréstimos e a minha carteirinha da biblioteca #leiamulheresimigrantes

Meus últimos empréstimos e a minha carteirinha da biblioteca #leiamulheresimigrantes

Nunca a educação e a colaboração andaram tão próximas, e as bibliotecas podem responder a uma parte dessa demanda por espaços públicos que promovam a interação com o objetivo de produzir e adquirir conhecimento (e fornecer ao nosso estômago uma alternativa à cafeína do Starbucks). O prédio principal da NYPL, por exemplo, permite a reserva e a utilização de suas salas de reunião sem custo, desde que não se faça nenhum uso comercial.
 
Por fim, muito embora tenhamos a impressão de viver em um mundo de acesso irrestrito a todo tipo de conteúdo, de tempos em tempos ainda temos que sair em defesa da liberdade de expressão e lutar pela diversidade das vozes que se manifestam. E as bibliotecas podem ser importantes aliadas também nesse campo (como a American Library Association nos demonstra ao promover a Banned Books Week). 
 
Vida longa às bibliotecas públicas!
 
Mariana é engenheira atuante, atriz amadora e poetisa aposentada.

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