[Foguete feito de papel e tinta] Sobre ter aflições

Por: Paula Queiroz

É. Isso mesmo. Aflições.

Explico.

Sou dessas que torce por personagens. Ou que é indiferente à história, mas se envolve com alguns capítulos, situações. E, principalmente, sou dessas que possuem aflições quando ocorrem eventos constrangedores ou violentos na narrativa.

Sim, isso mesmo.

Enquanto leio ou assisto a um filme, se me apego a algum elemento da narrativa – personagem, história, imagem, trilha sonora, figurino (?) – e acontece algo que me deixa com vergonha, comichão na barriga e vontade de me enfiar debaixo da cama, eu simplesmente….cubro meus olhos ou pulo o parágrafo.

É.

A sensação é tão forte que torna impossível a continuação da leitura/filme, pois eu fico AFLITA. Não há uma razão lá muito lógica – até porque eu vou perder parte da história fazendo isso – mas é inevitável. Parece que eu tenho medo de ver as personagens falhando ou sendo apanhadas pela vida – se o mundo real é assim, porque o mundo fictício tem que ser desse jeito também? – e acabo não lendo ou não vendo as cenas constrangedoras – p. ex., no filme Cisne Negro em que a Nina cai no meio do palco na noite de estreia – ou violentas – quando Jude, personagem do livro Uma Vida Pequena da Hanya Yanagihara, sofre uma série de agressões durante a narrativa – por ser incapaz de lidar com essa aflição que transborda nos meus sistemas respiratório e digestivo simultaneamente.

Daí vocês me questionam: então como você consegue gostar de literatura russa, p. ex., pois se há uma cultura de narrativa que possui sofrimento e situações embaraçosas essa cultura é a da Rússia.

Então. Né.

O mais bizarro é que tal fenômeno aflitivo ocorre quando quer e não com qualquer livro. Não dá para explicar. Em A Morte de Ivan Ilitch de Tosltói, minha aflição tomou forma em toda a narrativa, mas o livro é tão bom e os questionamentos trazidos são tão pertinentes a minha pessoa que eu tive que lidar com a minha particularidade insólita sobre narrativas a fim de prosseguir na leitura. Já em O Nariz, de Gogol, me senti tão acalentada pelas situações insanas e constrangedoras narradas que o meu riso dominou a aflição (E Gogol é o tipo de autor que eu me identifico demais na narrativa, sua ironia e sarcasmo me abraçam na alma e acho que se eu vivesse na Rússia no século 19, eu muito seria amiga dele.)

Nota-se que tal fenômeno além de ser bizarro, é temperamental: nunca sei quando, onde ou o porquê de surgir. Porém, em filmes é mais frequente. Em Persona, de Ingmar Bergman, quando Alma descobre que Elisabeth escreveu uma carta ao marido descrevendo todas as conversas que ambas tiveram, comentando, inclusive, os detalhes mais íntimos, lembro de ter ficado muito aflita, querendo me enfiar debaixo do lençol – acho que eu me enfiei, aliás – e na primeira vez que assisti, eu PULEI ESSA PARTE e É JUSTAMENTE ONDE NASCE O CONFLITO DO FILME, MINHA GENTE. (depois assisti de novo, e percebi que era o filme da minha vida. Mas né. Olha a minha insanidade). Em Homem Irracional, do Woody Allen, quando Abe é desmascarado por Jill – não darei spoilers caso alguém não tenha assistido – eu quis me enfiar debaixo da cadeira do cinema e/ou bater na Jill (confesso que no final, eu ria muito. E torcia pelo Abe. É. Podem me excluir do recreio, eu torci por ele.) e quase coloquei minha cabeça dentro do saco de pipoca.

Pois é.

(E a primeira vez que usei Tinder, quando deu o famoso “match”, eu literalmente me enfiei debaixo do cobertor com VERGONHA. E eu fazia isso constantemente – claro que, se eu estava em locais públicos, quando vinha a notificação do match no meu celular, eu me controlava um pouco, mas a sensação de vergonha era imensa e se perpetuava por horas. Mas Tinder não é filme nem livro, é tentativa de vida real amorosa por via tecnológica. Enfim.).

Não há psicanalista que explique.

E vocês?

Possuem algumas reações bizarras ao ler ou assistir filmes?

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