[Kalebices] Raduan Nassar e a importância de nos posicionar

Esse texto já nasceu praticamente como uma notícia “velha”, mas na verdade é que queremos eternizar esse discurso. E nesses momentos tão complicados que vivemos, é sempre importante nos posicionar.


raduan

 

Raduan Nassar é um caso curioso na literatura brasileira. Em 1984 em uma entrevista a Folha de S.Paulo, contou que estava se afastando definitivamente da literatura, pois ela tinha pouco a ver com o que estava fazendo no momento, e que a partir de então iria se dedicar a cuidar da Fazenda Lagoa do Sino, que ele compraria um ano depois. 

Sem grandes gestos ou algo do tipo, Raduan simplesmente parou. Até então tinha lançado dois livros que rapidamente se tornaram fundamentais na literatura brasileira: Lavoura Arcaica (1975) e Um Copo de Cólera (1978). Ele ainda iria publicar o livro de contos Menina a Caminho (1994). E mais nada. 

Apesar de ser algo bem resolvido por Raduan, é difícil entender porque ele nunca mais escreveu. O autor sempre foi avesso a noites de autógrafos, e outras coisas do tipo. Em uma entrevista para o Caderno de Literatura do IMS dedicado a ele, afirma que diferente de outros escritores que tem vários escritos em suas gavetas, com ele não tem nada disso. Acabou mesmo. 

É bom lembrar que Raduan não está sozinho em seu silêncio. O mexicano Juan Rulfo, autor do brilhante Pedro Páramo parou de escrever. Assim como Salinger, que buscou refúgio e anonimato. Ou ainda Thomas Pynchon, que continua a escrever mas é avesso a aparições públicas. Existe uma lista extensa de autores que simplesmente pararam de escrever. Aliás, existe um livro sensacional do catalão Enrique Vila-Matas, chamado Bartleby e companhia que trata desses escritores. 

Não que Raduan fosse um ermitão ou coisa do tipo. É possível lembrar de duas aparições marcantes do autor: na Balada Literária de 2012, ano em que foi o homenageado e acabou fazendo uma aparição surpresa (mas sem discurso ou autógrafos) e ano passado no evento de 30 anos da Companhia das Letras, onde ele foi um dos homenageados (novamente sem discursos e sempre discreto). 

Apesar do silêncio, vale lembrar que há alguns anos a Revista Piaui fez uma matéria sobre a sua reclusão e a doação de seu sítio para a Universidade de São Carlos e em janeiro deste ano, a revista New Yorker fez um texto sobre a reclusão do maior escritor brasileiro vivo.

E então veio o prêmio Camões… 

O prêmio Camões foi criado em 1988 pelos governos do Brasil e de Portugal para premiar autores que, com sua obra, enriquecem o patrimônio cultural de língua portuguesa. É considerado o maior reconhecimento em língua portuguesa. Desde sua criação, nomes como Saramago, Jorge Amado, Pepetela, Lygia Fagundes Telles, João Ubaldo Ribeiro, entre outros, já foram laureados. Em maio de 2016 foi anunciado que o prêmio daquele ano iria para Raduan Nassar. No entanto, a cerimônia de entrega aconteceu apenas em fevereiro deste ano, no museu Lasar Segall, em São Paulo. 

Durante a cerimônia, Raduan fez um discurso impactante, denunciando o golpe e o absurdo que está acontecendo no Brasil, sob o comando de Temer, Jucá e companhia. 

Segue o discurso na íntegra.

Excelentíssimo Senhor Embaixador de Portugal, Dr. Jorge Cabral.
Senhor Dr. Roberto Freire, Ministro da Cultura do governo em exercício.
Senhora Helena Severo, Presidente da Fundação Biblioteca Nacional.
Professor Jorge Schwartz, Diretor do Museu Lasar Segall.
Saudações a todos os convidados.
Tive dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro ter sido contemplado no berço de nossa língua.  
Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandecente desde a Revolução dos Cravos no ano anterior. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios acadêmicos lusitanos.
Portanto, Sr. Embaixador, muito obrigado a Portugal.
Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil.
Vivemos tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Episódios todos perpetrados por Alexandre de Moraes.
Com curriculum mais amplo de truculência, Moraes propiciou também, por omissão, as tragédias nos presídios de Manaus e Roraima. Prima inclusive por uma incontinência verbal assustadora, de um partidarismo exacerbado, há vídeo, atestando a virulência da sua fala. E é esta figura exótica a indicada agora para o Supremo Tribunal Federal.
Os fatos mencionados configuram por extensão todo um governo repressor: contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim. Governo atrelado por sinal ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração da riqueza, o que vem desgraçando os pobres do mundo inteiro.
Mesmo de exceção, o governo que está aí foi posto, e continua amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal.
Prova da sustentação do governo em exercício aconteceu há três dias, quando o ministro Celso de Mello, com suas intervenções enfadonhas, acolheu o pleito de Moreira Franco. Citado 34 vezes numa única delação, o ministro Celso de Mello garantiu, com foro privilegiado, a blindagem ao alcunhado “Angorá”. E acrescentou um elogio superlativo a um de seus pares, o ministro Gilmar Mendes, por ter barrado Lula para a Casa Civil, no governo Dilma. Dois pesos e duas medidas
É esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com seu passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados e réu na Corte, instaurasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.
O golpe estava consumado!
Não há como ficar calado.
Obrigado”

Se posicionar de uma maneira tão clara, num tempo que cada vez mais figuras públicas fogem ou se escondem, só demonstra a grandeza de Raduan Nassar.

Esse movimento do autor já vem acontecendo há algum tempo de forma muito lenta, com sua aparição em alguns eventos políticos, mas sempre silencioso e discreto. E ainda teve a doação da sua fazenda para a UfSCar que merece um destaque. Em 2011, Raduan decidiu doar a sua fazenda, a Lagoa do Sino, de 643 hectares altamente produtivos à UFSCar (Universidade Federal de São Carlos).

Segue texto do próprio site do Campus Lagoa do Sino da UFSCar (você pode ler na íntegra aqui

A UFSCar foi escolhida por ser a única universidade federal a ter Campus no interior do Estado e aceitou o desafio com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento da região. Foi feito um pacto do aceite da Universidade, que recebeu 643 hectares do imóvel bem como todas as instalações e parte dos equipamentos da propriedade, como tratores, colheitadeiras e silos de armazenagem. Além disso, foram mantidos os empregados da fazenda, que continuaram a trabalhar na propriedade, e as casas foram preservadas, passando por reforma para adaptação das instalações às necessidades da Universidade.

O Campus fica a 130 km da cidade de Sorocaba, em uma região caracterizada pelo contraste entre alguns municípios muito industrializados e outros com economia voltada para a pequena agricultura, de base familiar. A região também tem características ambientais interessantes, com remanescentes de Mata Atlântica e de Cerrado, sendo uma das regiões do Estado de São Paulo com os maiores índices de preservação da vegetação nativa.”

Aparentemente, para poder concluir a doação, Raduan teve que pagar 400 mil reais em impostos e, ao invés de pedir a isenção, ele os pagou. Mas só encontrei essa notícia numa fonte, essa aqui

Talvez o conjunto de acontecimentos políticos dos últimos anos justifique esse movimento das aparições públicas do autor, mas pode ser também que chega o momento (para qualquer cidadão) em que não é possível se calar sobre as atrocidades que estão acontecendo. Tudo isso convergiu ou culminou com o Premio Camões.

Após o discurso de Raduan, o atual Ministro da Cultura presente na cerimônia, Roberto Freire (como uma demonstração das pessoas pequenas que estão no poder atualmente), se viu no direito de “defender” o governo. Poucos momentos se viu uma diferença tão abissal entre duas pessoas e duas ideias de país. Roberto Freire, figura nefasta é a cara de toda essas pessoas que estão no poder. E com toda a certeza, Raduan mais do que nunca nos representa.

Talvez esse texto seja influenciado por Raduan ter se posicionado diante do Golpe e esse governo repleto de canalhas. Dificilmente ficaria feliz se por acaso algum dos meus escritores ou escritoras favoritas se posicionassem a favor dos golpistas. Mas acho fundamental que exista esse posicionamento. Esse talvez seja um momento para que isso aconteça. Não estou falando de literatura panfletária. E sim se posicionar em momentos decisivos. 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *