Não era você que eu esperava

na eraFabien Toulmé tinha uma vida relativamente normal. Francês que vivia no nordeste do Brasil, tinha um emprego ok (do qual não era o maior entusiasta), casado e com uma filha pequena. Quando sua esposa engravida pela segunda vez é que as coisas parecem tomar outro rumo. Entre os primeiros exames de acompanhamento pré-natal, a família muda-se pra França. É lá que nasce Julia, a segunda filha do casal. Mas algo não parece muito bem. Entre desconfianças de Fabien e diagnósticos demorados, a pequena Julia é identificada com trissomia 21, mais conhecida como Síndrome de Down.

Não era você que eu esperava é um quadrinho autobiográfico que conta o processo de Fabien se descobrindo pai de uma criança com Síndrome de Down. O que chama atenção neste relato é a sinceridade dele durante todo o relato. Ele leva muito tempo para aceitar a condição de sua filha, e admite que por muitos meses não a amava como amava Louise, a primeira filha do casal. 

O livro mostra, então, essa construção do afeto, a aceitação de Fabien, além da importante desmistificação da Síndrome de Down. Aos poucos, vamos percebendo, através do olhar do narrador, que ter trissomia 21 não é estar condenado a uma vida isolada e sem oportunidades de trabalho e estudo, mentalidade muito comum até uns anos atrás.

A partir daí, acompanhamos os pais tentando educar Julia da melhor forma possível. Entre consultas com especialistas, conversas com amigos próximo e familiares, somos apresentados um pouco melhor ao que é a Síndrome de Down. Apesar do desenvolvimento motor e de fala ser um pouco mais lento em crianças com esta condição, elas podem se desenvolver sem nenhum problema, se estimuladas. Como toda criança, aliás, tudo depende do estímulo certo e de um ambiente seguro.

Fabien mostra que ainda há muito preconceito e desinformação sobre a doença. Inclusive muitas vezes por parte dos pais, como numa cena em que ele e a esposa estão em um encontro de pais com filhos com Síndrome de Down e uma mãe pegunta se eles têm outros filhos. E se eles são normais. O estigma da trissomia 21 o incomoda muito.

Assim como Pílulas azuis, quadrinho de Frederik Peeters, Não era você que eu esperava mostra uma experiência muito pessoal diante doenças estigmatizadas. Enquanto a HQ de Peeter é um relato dele sobre sua convivência com a namorada e o filho dela que têm o vírus da AIDS, Tolmé mostra sua vivência ao descobrir o que realmente é a Síndrome de Down. Ainda que sejam história extremamente pessoais, elas se tornam universais quando mostram que é possível ultrapassar a primeira barreira do preconceito e seguir a vida da melhor forma possível.

21 de março é o Dia Internacional da Síndrome de Down. É um dia para que a trissomia 21 seja melhor compreendida pela sociedade. Há uma série de entidades que podem dar mais informações e apoio às pessoas com este diagnóstico. Associações como a Fundação Síndrome de Down e a ADID (Associação para Desenvolvimento Integral do Down), que cuidam desde o desenvolvimento da criança, aprendizagem e inclusão no mercado de trabalho. 

Não era você que eu esperava

Texto e ilustrações: Fabien Toulmé

Tradução: Fernando Scheibe

256 pgs

Editora Nemo

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