Livrarias em Nova York – Strand, uma sobrevivente

Por: Mariana Tomazelli

Uma janela para Nova York emoldurada por livros raros

Uma janela para Nova York emoldurada por livros raros

Da última vez que visitei a Strand eu estava acompanhada por uma amiga. Assim que entramos ela me disse: “Isso sim é uma livraria de verdade”. O ambiente é como aquele das livrarias antigas que imaginamos: móveis de madeira, chão de parquet já gasto, estantes ocupando todas as paredes, pessoas folheando concentradas algum exemplar, e um cheiro de livro velho contaminando tudo. O cheiro de livro velho você só encontra em sebos e bibliotecas, ou em livrarias como a Strand – que além dos lançamentos, também comercializam livros usados. 

Acho que a impressão de livraria “de verdade” está também ligada ao fato de que é uma livraria feita por pessoas. Explico: tudo na Strand, desde a disposição/categorização dos livros até as recomendações de leitura, proporcionam uma… intimidade, digamos, que nunca poderia ser alcançada através de algoritmos (Sim, Amazon, estou falando com você). A equipe de livreiros é formada por indivíduos que, assim como seus clientes, amam o universo dos livros. Todos eles andam com adesivos “Ask me” colados nas camisetas, e normalmente um monte de bottoms engraçados também (o meu preferido foi um bottom com a frase: “Talvez eu seja um socialista”). Eles conhecem o acervo a fundo e defendem suas recomendações com paixão e energia. Muitas estantes possuem bilhetinhos do staff escritos à mão (alguns possuem desenhos coloridos) indicando determinado livro ou autor, com dicas úteis do tipo: “Se você nunca leu o autor X, comece pelo livro Y”.

Recomendações de leitura da equipe, com bilhetinhos justificando cada escolha

Recomendações de leitura da equipe, com bilhetinhos justificando cada escolha

A disposição é extremamente interessante: além das infinitas estantes com as categorias tradicionais (livros de receitas/ livros sobre cinema/ ficção/ história, etc) há mesas com categorias mais originais, indicadas em plaquinhas vermelhas. Alguns exemplos:
 
Bucket List Books – para aqueles livros clássicos que a gente diz que vai/ deveria ler um dia. Ex: Anna Karenina, Moby Dick. Qual o leitor contumaz que não tem uma bucket list? Na minha, apenas por curiosidade: O Segundo Sexo, Grande Sertão: Veredas, O tempo e o Vento. Citação na placa: “It’s often said that before you die your life passes before your eyes. It is in fact true. It’s called living” (Terry Pratchett).
 
Banned Books – eu amei essa seção! Engloba livros que já foram ou estão proibidos por algum governo ou associação. Ex: Lolita e Harry Potter (pois é, parece que alguns religiosos dos Estados Unidos e do Reino Unido proibiram os livros do bruxinho nas escolas porque ele promove a bruxaria e dá maus exemplos. Não parece inacreditável?). Citação na placa: “There are worse crimes than burning books. One of them is not reading them.” (Ray Bradbury)
 
Notable non-fiction – autoexplicativo, outra seção linda. Ex: Blues Legacies and Black Feminism, da Angela Davis. Citação: “Those who don’t know history are destined to repeat it” (Edmund Burke)
 
New York for kids – essa seção fica no segundo andar, na ala infantil (que é enorme e conta inclusive com literatura infantil estrangeira). Tem livros sobre a história de alguns monumentos, livros de colorir com paisagens da cidade, ou simplesmente histórias infantis que se passam em Nova York.
 
Real books cheaper than e-books – uma bela jogada de marketing, essa seção é um grande hit da livraria e existe também no site. As etiquetas indicam o preço da Strand e o preço do mesmo livro em formato para kindle (sempre mais caro). Quem resiste? 
 
Esq.: Um canto da parte de livro infantis, que fica no segundo andar.  Dir.:No estande de "livros reais mais baratos que e-books", no subsolo.

Esq.: Um canto da parte de livro infantis, que fica no segundo andar. Dir.:No estande de “livros reais mais baratos que e-books”, no subsolo.

Esq.: Uma categoria fundamental. Dir.: A Strand compra e vende livros usados

Esq.: Uma categoria fundamental. Dir.: A Strand compra e vende livros usados

Pois é, a Strand é um case de sucesso porque conjuga a paixão pela leitura e a competência para os negócios. Quando foi fundada, em 1927, ela fazia parte da famosa Book Row, um pedaço da Quarta avenida que chegou a abrigar quase 50 livrarias. Hoje, de endereço novo (828 Broadway), a Strand é a única sobrevivente do grupo. Todas as outras foram fechando aos poucos pela pressão da concorrência com as grandes redes e os livros digitais. Um fenômeno que infelizmente se repete em muitos lugares no mundo e que ultimamente tem começado a provocar algumas reações. Leia aqui sobre o projeto One Book, One New York, da prefeitura de Nova York. 
 
O segredo da Strand sem dúvida passa pela tecnologia, com a criação de um bom website e o uso intenso de mídias sociais. Ao contrário das redes assépticas como a Barnes&Noble, a Strand possui posições políticas definidas e se manifesta nas redes de forma incisiva, irônica, bem-humorada. Logo na porta de entrada há uma placa que diz: “Refugiados são bem-vindos aqui”. Também são realizados eventos com autores famosos, cujo ticket de entrada consiste apenas na compra do livro que estiver sendo lançado. Nessas ocasiões a livraria bate recorde de livros vendidos, e aumenta sua legião de seguidores nas mídias sociais ao arrebatar os seguidores do autor convidado. Entre os convidados recentes podemos citar Neil Gaiman e Chimamanda Adichie.
 
A diversificação também é um fator de sucesso. Além dos livros comuns em varejo, a Strand comercializa livros raros e também vende ou aluga livros “por metro” para formar bibliotecas pessoais ou exercer função decorativa. Hotéis e lojas rechearam suas prateleiras com livros da Strand, e programas de televisão e cinema alugam os livros (e a curadoria) para montar sets de filmagem – o seriado Law & Order é um dos clientes, a rede de hotéis Hyatt é outro. Parcerias inteligentes são feitas para criar coleções especiais (como por exemplo a de livros de arte com a curadoria de Art Spiegelman), e a sala de livros raros é alugada para eventos. E muitos objetos relacionados ao mundo dos livros também são exaustivamente expostos para venda: bottoms, sacolas, canecas, postcards, camisetas. 
Bottoms feministas à venda ($1 dólar)

Bottoms feministas à venda ($1 dólar)

Essa criatividade e o faro para negócios garantiram que a livraria chegasse aos 90 anos. Considerada um ícone da cidade, a Strand recebe grande afluxo de turistas e também celebridades ocasionais. Perder-me entre os seus quase 29km de livros é um programa que me diverte bastante, embora não consiga esticá-lo por muito tempo porque praticamente não há bancos ou cadeiras para ler por ali. Mas esse meu incômodo não é unânime – muitos clientes sentam-se no chão mesmo, depois de escolher algum beco sem saída para não atrapalhar o fluxo. Qualquer hora vou sugerir aos donos que além das sacolas e bottoms, passem a vender também almofadas…
 
Parte do andar térreo vista da escada.

Parte do andar térreo vista da escada.

Um senhor aproveita as únicas poltronas disponíveis na livraria. Elas ficam na sala de livros raros.

Um senhor aproveita as únicas poltronas disponíveis na livraria. Elas ficam na sala de livros raros.

Mariana é engenheira atuante, atriz amadora e poetisa aposentada.


A Mariana já falou de outra livraria de NY que é também sensacional, a Bluestockings. Para ler, acesse este link.

2 comentários em “Livrarias em Nova York – Strand, uma sobrevivente

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