A Mulher Que Chora

Por: Paula Queiroz

Eu possuo uma mania mulhermuito comum entre os frequentadores de bibliotecas que consiste em olhar para as capas dos livros sugeridos e julgá-los, como em uma feira livre de sábado, se são merecedores do meu espaço mental tão caótico, ou se ignoro pra dedicar meu tempo aos livros da minha estante.

Pois bem. Estava eu perambulando pelo espaço de devolução de livros no Centro Cultural de São Paulo – a biblioteca estava em reforma mês passado, então só tinha uma sala com poucas prateleiras – e me deparei com uma capa muito bonita, colorida. Vejo no título: A mulher que chora. Autor: Su Tong. Pensei: “hum, um oriental, capa bonita, título fofo. É nois.”

Obviamente, só depois de uma semana que eu lembrei do empréstimo do livro – oi, cérebro, cadê vc funcionando – e iniciei a leitura.

E nossa.

Su Tong reconta um mito milenar chinês, que foi transmitido oralmente durante séculos, sobre a história de Binu, mulher provinda da aldeia do Pêssego na qual é proibido chorar. Devido a essa “lei”, os moradores choram pela pele, unhas, narizes, mãos. Binu é a mulher que chora pelos cabelos, em uma quantidade definida pelos outros habitantes de exagerada. Tal “excesso” de lágrimas se iniciou quando seu marido foi levado para trabalhar na montanha Grande Andorinha para ajudar na construção da Grande Muralha da China.

Binu, obstinada a entregar ao marido roupas para o inverno rigoroso que assola na região norte – onde é a construção da Muralha – encara uma jornada fascinante pelas estradas dessa China misteriosa, mitológica e perigosa. No caminho, Binu arranja um companheiro inusitado de viagem: um sapo cego que a ajuda a percorrer esse caminho obscuro e repleto de armadilhas. Nessa – por que não? – epopeia, a obstinação de Binu é assustadora: é o ser humano no seu limite de desespero e amor, é a persistência de quem ama.

A saga dessa heroína – chorando desesperadamente pelos cabelos à busca de seu amado – é um dos textos mais belos que já li na vida. A forma sublime da narrativa nos coloca na antiga sociedade chinesa em que as fábulas e mitos predominavam nos costumes chineses. E o mais incrível é observar e identificar características idênticas entre o mundo moderno e o mundo milenar chinês ao embarcamos nessa história.

Devolvi o livro. E, novamente, procurei avidamente por mais sugestões. Pois são nelas que descobrimos a China antes da Grande Muralha. E descobrimos a nós mesmos.

A Mulher Que Chora
Autora: Su Tong
Tradução: Fernanda Abreu
256 pgs
Cia. das Letras – 2010

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