O Reino

Por: Ana Claudia

No começo dos anos 1990, o autor francês Emmanuel Carrère enfrentou uma profunda crise pessoal e profissional e se converteu ao catolicismo por influência de sua madrinha. Passa a ir todo dia à missa e a escrever anotações em cadernos sobre a Bíblia, principalmente sobre o evangelho de Paulo.

Vinte anos depois, ateu novamente, Carrère examina essa fase da sua vida através desses cadernos e de uma revisão da história das origens do cristianismo. O objetivo é tentar entender os motivos da sua conversão – para além das motivações óbvias – através de uma analise brutal de si mesmo, que só a maturidade permite, e dos princípios do cristianismo. 

Não, acredito que Jesus tenha ressuscitado. Não acredito que um homem tenha voltado dos mortos. Entretanto, que seja possível acreditar nisso, e por eu mesmo ter acreditado, isso me intriga, fascina, abala – não sei qual o verbo mais apropriado. Escrevo este livro para não achar que, deixando de crer, sei mais sobre isso do que aqueles que creem e do que eu mesmo quando acreditava. Escrevo este livro para duvidar da minha própria opinião.” 

Ele foca sua areinotenção nas figuras de Paulo e Lucas. O primeiro, que era um judeu perseguidor por cristãos e convertido pelo próprio Cristo, passando a ser um dos principais discípulos. Depois da conversão passa três anos no deserto refletindo e em seguida viaja pelo oriente convertendo e criando várias comunidades cristãs. 

Já Lucas, médico culto helenizado e simpatizante do judaísmo, foi o fiel escudeiro de Paulo por anos e principal escritor de várias passagens importantes da Bíblia. Aproveitou enquanto Paulo passava um longo período preso para pesquisar a vida de Jesus com as pessoas ainda vivas que o conheceram para os evangelhos que escreveria posteriormente. Com a sua prosa singular e descontraída, Carrère usa exemplos inusitados e contemporâneos para aproximar o leitor de hoje da sociedade e do cotidiano do antigo Império Romano. 

Nunca ninguém falou assim antes

O cristianismo é uma entre outras tantas seitas que surgiram durante o Império Romano. Segundo Carrère, o que chama a atenção e a difere das outras seitas oriundas do judaísmo é a negação do que o humano tem de ruim, mas é intrinsecamente humano, como o desejo de vingança; e a elevação do sofrimento, da doença e da pobreza como condições desejáveis para atingir o reino dos céus, além da criação de uma hierarquia complexa ausente nas demais seitas da época, que já se ensaiava com Jesus (o líder) e os apóstolos (seus subordinados).

A Bíblia, antes de qualquer outra coisa, é uma narrativa. E Carrère aborda o processo de escrita e organização dela, mais especificamente o Novo Testamento. Ele busca pequenos detalhes nos textos sagrados, filtrando o que tem de real nas histórias dos evangelhos e faz comparações entre os diferentes estilos de escrita que os livros
apresentam. Pela forma irreverente com que Carrère trata alguns temas tabus da igreja, como os irmãos de Jesus e seu relacionamento com Madalena, não é uma leitura recomendada para pessoas tradicionais.

Ana Claudia: Livreira há dois anos, até onde consegue se lembra, lê e escreve desde sempre, mesmo quando não sabia nem ler nem escrever. E comprar mais livros do que consegue ler.

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