[Outras mídias] Dois irmãos

A casa foi vendida com todas as lembranças
todos os móveis todos os pesadelos
todos os pecados cometidos ou em via de cometer
a casa foi vendida com o seu bater de portas
com seu vento encanado sua vista do mundo
seus imponderáveis
por vinte, vinte contos.” 

Liquidação, de Carlos Drummond de Andrade¹

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É normal que obras literárias sejam adaptadas a outras mídias. Ainda que seja normal, alguma coisa aconteceu com a obra de Milton Hatoum. Parece que perceberam possibilidades infinitas em suas narrativas, algo que o público do autor já percebia há tempos. 

Milton é um homem discreto e que escreve seus livros com muita calma, sem pressa alguma, o que torna cada lançamento um verdadeiro acontecimento literário. Ele é um desses raros escritores que aliam o sucesso da crítica e a adoração do público. E recentemente esse reconhecimento veio também através de outras mídias.

Dois Irmãos

Dois irmãos é um dos livros contemporâneos de autor brasileiro mais lidos nos últimos tempos. Desde seu lançamento, em 2000, vendeu mais de 300 mil exemplares e garantiu o Prêmio Jabuti ao autor no ano seguinte.

A trama da rivalidade entre os gêmeos Omar e Yakub traz uma gama de personagens e cenários muito vívidos. Entramos em contato com a Manaus pós guerra e seu crescimento desenfreado, enquanto a história desta família de origem libanesa vai se desenrolando e o envolvimento com cada um dos personagens parece impossível de evitar. 

O Quadrinho

hqEm 2015 os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá lançaram uma adaptação do romance para os quadrinhos. Numa edição cuidadosa, o quadrinho impressiona por ser tão fiel às palavras de Hatoum e o clima ditado no livro.

O talento dos irmãos quadrinistas, já tão bem consolidado, é inegável. Principalmente ao reconstruir os cenários. Aqui só uma lembrança, na obra multipremiada dos gêmeos, Daytripper (2011) eles recriam de forma muito marcante o centro de São Paulo e Salvador. E ainda vale lembrar que em 2009 eles também adaptaram para os quadrinhos O Alienista de Machado de Assis.

A tarefa de adaptar uma obra contemporânea para um novo público se mostrou acertada e é uma das provas consolidadas do amadurecimento dos gêmeos. O quadrinho acerta em descrever e preencher os silêncios do romance. E mesmo falando de um livro que de tão bem escrito dá a sensação de ver e sentir os cheiros de Manaus, é incrível poder ver esses personagens tomarem forma nos quadrinhos.

Entre os vários destaques que existem na adaptação, vale ressaltar dois personagens: Halim e Nael. No quadrinho fica muito mais claro o ressentimento de Halim com os gêmeos por terem “destruído” seu paraíso com Zana. Assim como no livro, o narrador do quadrinho também funciona muito bem e se beneficia pelo seu formato muito mais propício para essa narração puxada pela memória. 

A adaptação já foi publicada em alguns países e ganhou o prêmio Eisner Awards (maior premiação da industria de quadrinhos nos EUA) na categoria “melhor adaptação de outro meio”.

Dois Irmãos – A série

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Dois irmãos parece um livro difícil de adaptar por sua linha narrativa não linear, usando um narrador que você demora a descobrir, recriando uma cidade que infelizmente não é conhecida pelos próprios brasileiros. 

E quem melhor que o diretor que adaptou para o cinema o inadaptável Lavoura Arcaica, para assumir essa missão? A série segue a estética de outros trabalhos do diretor Luiz Fernando Carvalho, o que quer dizer que o trabalho é de uma beleza espantosa. A começar pela casa de Halim e Zana, onde se passa boa parte da trama (e que justifica a epígrafe brilhante do livro e que citamos no começo do texto). Talvez um dos marcos dessa série seja a apresentação da cidade de Manaus, que infelizmente foi pouco retratado no nosso imaginário, mas ganha vida, cores e até cheiro. Manaus aparece recriada através de alguns cenários e principalmente pela sobreposição de imagens antigas de arquivo.juliana-paes-dois-irmaos

Umas das preocupações da série foi abrangência de fatos importantes do século XX no Brasil. Apesar de estar no pano de fundo de toda a história dos gêmeos Yakub e Omar,ela não tem lugar de destaque no livro. Mas na série fica clara a preocupação de contextualizar grandes acontecimentos pós Segunda Guerra e como eles influenciam de forma clara na vida dos personagens. Vemos o surgimento de Brasília, os Anos JK e, é claro, a Ditadura militar.

Esse talvez seja o maior estranhamento da série com relação ao livro: Omar se mostra completamente desesperado e atormentado pela morte do professor Laval pelos militares e parece ali ganhar uma consciência política que não parecia existir anteriormente. 

Ainda sobre contextualização, série se preocupou em mostrar alguns dos costumes da colônia Libanesa que se mudou para Manaus e apesar de alguns exageros pareceu bem representado na primeira parte, principalmente com as jovens versões de Zana e Halim.

Entendemos que adaptaçcauaões para mídias diferentes requerem tratamentos diferentes e que nunca vai ser exatamente como o livro, mas o maior estranhamento em relação à adaptação foi o tom dos personagens. O enredo e todos os conflitos entre os irmãos estão ali retratados, no entanto, o tom dado a algumas interpretações parece bem acima do livro. Há um certo exagero na representação de Omar, um ar quase histérico que incomoda. Principalmente na segunda fase da trama, quando os gêmeos são interpretados por Mateus Abreu. Cauã Reymond (o ator da terceira e, última, fase) também parece seguir desta forma em muitos momentos, mas oscila em outros, dando um pouco mais de equilíbrio ao personagem. 

A escolha do elenco no geral foi boa, apesar do exagero de Zana em suas duas versões (Eliane Giardini e Juliana Paes), também subindo o tom por muitas vezes. Mas talvez a parte controversa tenha sido a representação de Nael (interpretado nas duas últimas fases por Irandhir Santos) em sua versão no começo da vida adulta. Apesar da presença dele seja pra justificar o narrador da história que acompanha os últimos momentos de Halim, ele parecia mais velho que os gêmeos (existia aí uma diferença de 15 anos pelo menos). 

A série pareceu seguir um ritmo lento e ter se apressado no seus capítulos finais. Isso causou alguns momentos estranhos, em que parecia que algo estava faltando para a compreensão dos fatos. E apesar da escolha acertada de utilizar uma narrativa que não segue uma linha normal e até mesmo por ser quase uma memória, ela vai e volta no tempo, o que nem sempre é uma escolha simples pra uma série na TV aberta. E que essa “confusão'”com a linha narrativa incentive as pessoas a buscarem o livro original ou mesmo sua adaptação para os quadrinhos. E que venham mais séries que nos instiguem e que nos façam pensar. 

Milton no Cinema

Como se não bastasse todas essas adaptações, ainda existe mais uma adaptação de sua obra: Orfãos do Eldorado (de 2008) foi levado aos cinemas por Guilherme Cezar Coelho e tem no elenco Daniel de Oliveira e Dira Paes. 

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¹ O poema de Drummond é a epigrafe do romance Dois irmãos e foi recitado em dois momentos durante a série.

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