[Mania de listas] As melhores leituras da Duda

Por: Eduarda Sampaio

O ano de 2016 foi de grandes transformações para mim, tanto no nível profissional quanto no nível pessoal, então acabei lendo menos e mais lentamente. Eu decidi respeitar o meu ritmo e não adicionar mais informações a uma cabeça já em turbilhão. E foi um aprendizado ler menos e viver mais. Os livros sempre foram o meu refúgio e sempre vão ser, mas esse ano exigiu de mim ficar um pouco mais exposta às intempéries e aceitar que mesmo assim está tudo bem.
E vamos à lista de melhores leituras do ano!

kevin10º Precisamos Falar sobre o Kevin –  Lionel Shriver (Ed. Intrínseca)

Eu confesso que morria de preguiça de ler esse livro. Só li porque ele foi escolhido no Leia Mulheres daqui de Salvador. Já tinha visto o filme e gostado bastante, mas não sentia que o livro acrescentaria mais elementos interessantes à história. E essa narrativa do psicopata americano que atira nos colegas de escola já virou nossa velha conhecida, né? Pois então. Quebrei a cara.

O livro extrapola em muito o filme porque é basicamente dedicado a dois assuntos que me encantam: a complexa dinâmica dos relacionamentos humanos e os tabus que envolvem a maternidade. Tanto Eva quanto Kevin são personagens fascinantes e que nos envolvem completamente. Quanto o livro terminou eu queria ser amiga de Eva de tanta empatia que senti por essa figura que carrega nas costas uma culpa que nunca terá fim. Também achei bem curioso o fato de que alguns leitores consideraram Eva uma pessoa terrível e optaram por culpa-la junto com a própria personagem. Para mim essas diferentes leituras falam muito sobre a complexidade da narrativa.

O Papel de Parede Amarelo – Charlotte Perkins Gilman (Ed. José Olympio)papel

Quanto eu vi o tamanho desse pequeno grande livro, nunca imaginei que ele seria responsável por um dos melhores debates do Leia Mulheres.

O tom confessional da narrativa faz com que o leitor encontre respostas nas entrelinhas, muitas vezes vendo além da protagonista. E é desesperador acompanhar o processo de enlouquecimento dessa mulher tão inteligente e com tanto potencial. Não é à toa que esse livro foi considerado por muito tempo um terror psicológico. E tem coisa melhor do que discutir a história da loucura feminina e a histeria com pessoas das mais diversas áreas de conhecimento? 

medoMedo Líquido – Zygmunt Bauman (Ed. Zahar) 

Tempos de crise pedem livros sobre a crise da pós-modernidade. De Bauman eu já tinha lido Modernidade Líquida, um livro que mexeu muito comigo por falar tão claramente e de forma tão inteligente sobre as dinâmicas do meu tempo e da minha geração. É libertador perceber que muitos dos problemas que eu enfrento não são só meus; são frutos da atual organização da nossa sociedade capitalista.

Em Medo Líquido Bauman fala mais especificamente sobre o medo e a ansiedade, esses sentimentos que sempre acompanham a vida do cidadão pós-moderno. Ele vai investigar porque nos sentimos tão inseguros em uma sociedade que historicamente é a mais segura que o ser humano já teve e como isso afeta as relações que estabelecemos. É um livro que vou levar para vida.

7º  O Despertar – Kate Chopin  (Ed. Estação Liberdade)despertar

Outro pequeno grande livro. Um clássico do século XIX com uma protagonista feminina que parece saída do século XXI. Sempre tive uma certa implicância com Madame Bovary, Ana Karenina e a Luísa de O Primo Brasílio, todas mulheres supostamente fortes, mas que foram criadas por escritores homens apenas para sofrer intensamente as pressões sociais. A apatia e a desesperança delas me incomodavam e pareciam dar às histórias um tom sempre fatalista. Já Edna Pontellier, a protagonista de O Despertar, é uma personagem que me encantou desde o início. Me identifiquei logo de cara com essa mulher inteligente, forte e decidida que começa a questionar todos os papeis sociais que exerce, em um despertar que nos faz querer buscar nossa própria independência e liberdade. Um livro que ao invés de nos resignar, nos inspira a transformar.

ovelhas Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? – Philip K. Dick (Ed. Aleph)

Para mim um livro que mistura ficção científica e filosofia já é amor à primeira vista. Philip K. Dick não se limita a contar uma história, que serve apenas como fio condutor para intensos questionamentos acerca da condição humana. Como é possível diferenciar um androide de um ser humano quando eles têm uma biologia idêntica? Nossos sistemas morais pressupõem que características humanas? E tudo isso em meio a uma distopia onde as vidas humanas passaram a ser regidas pelo consumo, tema para o qual Philip K. Dick está sempre voltando em seus livros. É ao mesmo tempo assustador e curioso observar nossa sociedade pela lente de aumento desse escritor tão controverso.

5º e 4º Só Garotos e Linha M – Patti Smith (Ed. Cia das Letras)

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Esse ano eu conheci Patti Smith. E que descoberta! Ouvi os discos dela, procurei entrevistas e mergulhei de cabeças nesses dois livros de memórias que possuem tons tão diferentes, mas que são ambos tão bonitos. 

Em Só Garotos eu fui apresentada a uma Patti jovem, inconsequente e rebelde, que tinha o sonho inocente de viver da própria arte e apenas para a própria arte. E o mundo dessa Patti é de arrebatar. Essa é uma mulher que pertenceu à geração beat e que participou de alguns dos movimentos literários e musicais mais importantes do século XX. Patti sem dúvida é uma artista porque em Só Garotos ela consegue transformar Nova Iorque em um protagonista, sempre criando no leitor a sensação de fazer parte daquele cenário.

Linha M me apresentou a uma Patti mais velha e madura, um tanto traumatizada pela vida. E é muito bonito ver que, apesar de não existir mais inocência, permanece a intensa curiosidade da artista, seu caráter sempre questionador e revolucionário. Esse é um livro dedicado ao café, às viagens e às séries policiais, mas também a tudo que está associado ao cotidiano e ao passar do tempo: o tédio, a tristeza, a solidão, o luto, os pequenos prazeres, as lembranças, os objetos e as fotografias.

3º  As Crônicas Napolitanas – Elena Ferrante (Ed. Globo)

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Esse ano eu li os três primeiros livros das crônicas napolitanas: A Amiga Genial, História do Novo Sobrenome e História de Quem Foge e de Quem Fica. E mal posso esperar pelo quarto! Estou seriamente cogitando comprar o livro em inglês de tão ansiosa que estou.

Eu não conheço nenhum livro que retrate a amizade feminina tão bem quanto Elena Ferrante faz aqui. As duas personagens principais, Lila e Lena, são fascinantes e multifacetadas, o que torna o relacionamento delas extremamente complexo. Acompanhar a vida dessas duas mulheres desde a infância até a idade adulta, com todas as reviravoltas que a história dá, é de tirar o fôlego. Eu nunca deixo de me surpreender com os rumos da narrativa e com a força das personagens. Precisamos de mais mulheres assim na literatura.

2º e 1º Os Resíduos do Dia e Não me Abandone Jamais – Kazuo Ishiguro (Ed. Cia das Letras)

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2016 também foi o ano em que conheci Kazuo Ishiguro. E já falei tanto, mas tanto desse homem que ninguém aguenta mais. Ele fala sobre a memória e sobre a morte. Ele fala sobre o papel da arte e sobre a subjetividade de todo relato humano. Ele fala sobre limites éticos e sobre o valor da vida. E fala de tudo isso com uma narrativa fluida e bonita, que envolve o leitor do começo ao fim. 

O protagonista de Os Resíduos do Dia é um mordomo que acompanhou a decadência da aristocracia rural inglesa, passando pela 2ª Guerra Mundial. É um personagem que fascina por sua ignorância sobre si mesmo e por sua tristeza quase lírica, sempre deixando escapar para o leitor todas as suas incongruências e inconstâncias. 

Não me Abandone Jamais é uma distopia que merece ser descoberta. Costurar os detalhes da trama é umas das coisas mais interessantes desse livro, junto com a análise de seus três personagens principais. O grande questionamento do livro é justamente o que faz com que nos agarremos à vida mesmo sabendo que a morte é inevitável.

Eduarda é formada em direito, é uma das mediadoras do Leia Mulheres de Salvador e sabe de cor as músicas da Shakira de raiz quando ela ainda cantava em espanhol. Fala sobre livro em seu blog, Maquiada na livraria, e no seu canal do Youtube.

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