[Mania de listas] As melhores leituras da Isa


Por: Isa Leite

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A Amiga Genial – Elena Ferrante (Ed. Globo)

Meu livro do ano. Elena Ferrante consegue traçar perfis de forma delicada e profunda, sem superficialidades. A história de Lena e Lila é marcante porque nos parece real, possível: duas mulheres capazes de se amar sem que esse amor seja exagerado, irreal, ou invejoso, falso. É a descrição perfeita da amizade nua e crua, em seus defeitos e qualidades, enlaçada por uma trama angustiante e sensata na medida certa.

A Lista Negra – Jennifer Brown (Gutemberg)

Um romance adolescente de tirar o fôlego – e a paz. Narra a história de uma menina em sua volta pro último ano do colégio após um afastamento. Tudo certo, não fosse o motivo desse hiato: seu ex-namorado atirou – e matou alguns – colegas deles da escola. Tudo isso seguindo a ordem de uma lista elaborada por ela, de pessoas que eles odiavam. As dificuldades em lidar com o luto, especialmente de pessoas jovens, a necessidade de se perdoar, as crises de pânico e depressão, a relação entre paciente e terapeuta, tudo isso é abordado pela autora de uma maneira dura, sem muitos floreios, e sem respostas prontas. Difícil, mas absolutamente necessário.

Placas Tectônicas – Margaux Motin (Ed. Nemo) 

O divertido quadrinho lançado pela Nemo esse ano narra, por meio de esquetes independentes, a vida de uma mulher por volta dos 30 anos que acaba um casamento e se vê só, com a filha pequena, precisando retomar a alegria, o emprego, as amigas e um novo amor. Numa autoficção deliciosa, a quadrinista francesa nos faz rir com as confusões de sua protagonista, enquanto nos vemos refletidas também em todas as dificuldades cotidianas apresentadas por ela.

O Tribunal da Quinta-feira – Michel Laub (Ed. Cia das Letras) 

O autor consegue trabalhar bem um tema delicado: o escracho em tempos de internet. Por meio de um protagonista facílimo de detestar ele põe em xeque os julgamentos que fazemos diante de “fatos” que parecem tão óbvios no mundo virtual mas que nem sempre são capazes de dar conta da história completa. Isso enquanto resgata os efeitos da epidemia de aids nos anos 80/90 e sua repercussão nos adultos de hoje, que foram jovens numa época onde sexo livre era sinônimo de sexo inseguro. Minha única crítica vai ao final do romance: eu esperava um desfecho mais agridoce (mas só lendo para entender!)

Um dia, um rio – Leo Cunha e André Neves (Ed. Pulo do Gato) 

A tragédia em Mariana parece a essa altura esquecida pela maioria das pessoas, mas no final do ano a Pulo do Gato nos presenteou com um livro maravilhoso e tocante sobre o assunto. Pela visão do Rio, que conta sua história e sua tristeza, Leo Cunha retrata o desastre num texto emocionante, casado com as ilustrações de André que nos levam à lama que tomou conta da região antes abençoada pelo Rio. Para ser lido várias vezes, por adultos e crianças.

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Chapeuzinho esfarrapado e outros contos feministas do folclore mundial – org. Ethel Johnston Phelps (Ed. Seguinte) 

Sem Branca de Neve, Cinderela ou Bela Adormecida: a proposta é resgatar histórias antigas, da mesma época dos contos de fada mais tradicionais, cujas protagonistas femininas mostrem independência, força, astúcia e tantas outras características sempre atribuídas aos homens. Por meio de um prefácio longo, mas bastante esclarecedor, a organizadora explica como essas histórias ficaram “perdidas” durante tanto tempo, fala sobre a finalidade última de todas as mulheres na literatura clássica – o casamento – e reflete sobre escritores como os Irmãos Grimm e Charles Perrault e seu papel na difusão do mito da mulher frágil e incapaz. Uma leitura essencial.

Uma morte horrível – Penélope Bagieu (Ed. Nemo) 

Mais um quadrinho francês publicado pela Nemo esse ano, Uma morte horrível é irônico e divertido na medida certa. Cansada de uma vida cheia de mesmices, uma jovem se vê envolvida por um escritor, bem mais velho, que guarda um segredo… peculiar. Com uma reviravolta surpreendente ao final, é um dos melhorar livros do gênero publicados este ano, sem sombra de dúvidas.

O Livro das Semelhanças – Ana Martins Marques (Ed. Cia das Letras)

A mineira Ana Martins Marques é uma das minhas melhores descobertas do ano. Uma poesia simples, sem muitas pretensões, e que acaba por inundar uma sala com a força dos versos. Para se ler sozinho, deitado na cama, embaixo das cobertas, ou a dois, a três, no meio de um coreto recitando em voz alta – mas ainda assim baixa, porque de alguma forma ela pede silêncio na multidão – pros transeuntes que passam. Poesia para todos.

Fuga da biblioteca do Sr. Lemoncello – Chris Grabenstein (Ed. Bertrand Brasil) 

Uma fantástica fábrica de chocolates… de livros! Impossível não pensar isso sobre a maravilhosa biblioteca do título, que guarda segredos sobre a literatura como Willy Wonka guardava sobre a manufatura de doces. Enquanto as crianças se aventuram tentando decifrar os enigmas do dono meio maluco para escapar da biblioteca, o leitor vai sendo apresentado a diversos títulos e tramas essenciais da literatura universal. É um livro para se fechar e acrescentar mais um tanto na lista de livros a serem lidos.

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Série “O Legado Folclórico” – Felipe Castilho (Ed. Gutemberg) 

A série começou em 2012, mas eu fui ler apenas em 2016. Acompanhando um menino que descobre algo incrível: os seres do folclore brasileiro, como a Iara, Curupira ou Saci, são reais e estão por aí o tempo todo escondidos entre nós. Uma recuperação brilhante da mitologia brasileira, compilada e documentada com.maestria por Câmara Cascudo, os livros da série unem fantasia, aventura e questões bem mais difíceis e importantes, como racismo, homofobia e feminismo. Vale a pena conhecer os três primeiros volumes enquanto o quarto e último – previsto para 2017 – não sai.

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Coleção Livros para o amanhã – vários autores (Boitatá)

Por meio do seu recém criado selo infantil, Boitatá, a editora Boitempo publicou uma série de livros curtos, ilustrados e de fácil compreensão sobre questões sociais e políticas, que foram escritos na década de 70 e traduzidos somente agora para o português. A democracia pode ser assim, A ditadura é assim, As mulheres e os homens e O que são classes sociais? trazem à tona discussões sobre governo, questões de gênero, luta de classes e outros vários temas, por meio de uma abordagem direta e sem medo algum de ser enfática nos pontos que deseja defender.

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