[Mania de listas] As melhores leituras da Tatianne

Por: Tatianne Dantas

2016 acabando e chegou o momento de escolher o que mais gostei de ler esse ano. Como boa fanática por listas que sou é sempre um prazer imenso percorrer o caderno em que anoto as impressões de cada livro terminado pensando quais foram as leituras que mais me afetaram, as que vou carregar para além do ano que está terminando e que pretendo reler em algum momento no futuro. Sempre fiz isso e acho um exercício interessante, principalmente quando pego a lista de 2012, por exemplo, e percebo que ainda lembro em detalhes dos livros que considerei meus favoritos naquele ano. Ao contrário de outros anos, não foi difícil escolher esses títulos que vou elencar aqui. Tomei um susto ao perceber o grande número de não ficção, achei que por 2016 ter sido um ano particularmente difícil, o refúgio na ficção seria maior. Aconteceu o oposto, pelo menos entre os favoritos. Essa foi provavelmente a maior surpresa.

Chega de blá blá blá, vamos aos livros. Só ressaltando que essa é uma lista particular então tem muito livro lançado em 2016 mas também tem livro do século passado. Não está em ordem de preferência, tentei seguir mais uma ordem cronológica, então os que aparecem primeiro são os que li no começo do ano. Deixei de fora também as releituras que fiz em 2016.

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Vasto Mundo – Maria Valéria Rezende (Ed. Alfaguara)

Em janeiro/fevereiro eu fiquei um pouco obcecada pela escritora ganhadora do Jabuti em 2015 e li três livros dela, um depois do outro. O que mais gostei foi Vasto Mundo, um livro com contos que conversam entre si através do lugar onde as histórias acontecem, a cidade Farinhada no interior da Paraíba. Divididos em três partes intituladas “A voz do chão”, os contos são curtos mas com uma força impressionante. Maria Valéria tem um jeito de narrar muito próprio, onde dá para sentir de forma muito nítida a cadência das vozes que ela pretende que sejam ouvidas.

Bagagem – Adélia Prado (Ed. Record)

Também no começo do ano resolvi saldar essa dívida literária e que pedrada eu levei. Esse é o livro de estreia de Adélia e pelo que já pude folhear nos livros seguintes já dá para notar aqui todos os elementos que serão importantes na sua obra: questões a respeito da religião, do lugar da mulher e da poesia. No meu caso a intimidade com a poesia de Adélia foi imediata porque sei muito bem o que é crescer imersa em uma religião cristã e ter um pouco da sua vida marcada para sempre pelo embate furioso entre fé, pecado e redenção. É dessa bagagem que ela fala em seus poemas, do peso que não podemos simplesmente deixar para lá sem encarar de frente em algum momento mesmo que seja extremamente doloroso fazer isso.

A história dos meus dentes – Valeria Luiselli (Ed. Alfaguara)

Provavelmente o livro mais leve dessa lista (mas não menos maravilhoso) e que delícia foi conhecer Valéria Luiselli em 2016. Ela consegue promover uma discussão gigante sobre arte, literatura e o papel que elas desempenham na sociedade de forma divertida e sem se levar muito a sério. A comparação com o argentino Jorge Luis Borges é praticamente inevitável mas Valéria cria uma voz muito original a partir de todas as referências que tem. Eu senti na história de Estrada, o melhor leiloeiro do mundo, um convite para experimentar a parte lúdica que a literatura tem a oferecer e foi incrível.

Linha M – Patti Smith (Ed. Cia das Letras)

É sempre muito difícil falar de um livro que me afeta muito, as palavras parece que ficam dançando na minha frente e eu não consigo pegar as que quero e organizar um pensamento. Linha M é um livro cheio de lacunas, as memórias de Patti vem e vão de forma não linear e foram esses elementos que o tornaram uma leitura tão especial. Senti uma proximidade tão grande e palpável com a escrita dela, com os sentimentos, mas não no sentido da identificação, foi algo além. Patti é o tipo de ser humano que parece ter alcançado o sentido de alguma coisa que a maioria passa a vida inteira sem atingir. Resta sentar, admirar e torcer para que ela publique mais livros assim. Os livros não estão em ordem de preferência mas preciso dizer que Linha M foi minha leitura favorita em 2016 e em um ano tão difícil eu só tenho a agradecer por ele ter existido.

Vozes de Tchernóbil – Svetlana Aleksievitch (Ed. Cia das Letras)

Outro livro que é difícil falar a respeito pela sensação que nada é capaz de resumir o que ele trata. O trabalho de Svetlana ao tentar elaborar essa tragédia sem precedentes na história da humanidade é mais do que necessário, não só por mostrar como tudo aconteceu mas por permitir que as vozes que importam sejam ouvidas. Provavelmente nunca esquecerei a sensação que tive ao terminar as primeiras 50 páginas do livro, quando olhei para o chão e senti ele balançando, como se a realidade estivesse prestes a fugir da minha frente. As questões que ela levanta a respeito da temporalidade, do que significa lidar com um inimigo invisível, sobre a força da natureza se unem àquelas que são levantadas sobre o que há de mais básico nos sentimentos humanos. Talvez por essa razão Vozes de Tchernóbil seja um livro tão dolorosamente único.

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Diários (1947-1963) – Susan Sontag (Ed. Cia das Letras)

O que dizer desses diários além de: que mulher foda você foi, Susan Sontag! Eu coloquei o primeiro volume porque gostei demais desse primeiro contato com a jovem e já tão brilhante Susan Sontang, mas estou lendo agora o segundo volume que abrange o período de 1964-1980 e de vez em quando fico sem ar. É impressionante não só a inteligência dela mas a capacidade de articular tanta coisa ao mesmo tempo e mesmo assim ainda aparecer com frases soltas do tipo: “Gosto de me sentir tola. É assim que sei que no mundo existem outras coisas além de mim”. Os diários de Sontag não tem o formato tradicional com entradas e datas dispostas de forma mais ou menos organizada, é mais um apanhado de coisas que ela pensou, ideias para livros, listas de livros, filmes, lugares que pretendia conhecer (como não amar essa pessoa?), opiniões sobre pessoas e principalmente uma profunda vontade de conhecer a si própria. Páginas inteiras que dão vontade de arrancar (não vou fazer isso, não se preocupem :P) e emoldurar para ler todo dia.

História do novo sobrenome – Elena Ferrante (Ed. Globo)

2016 foi o ano da Febre Ferrante no Brasil e eu fui pega por ela sem nenhum receio de ser feliz. Já li tudo que foi publicado até o momento da autora aqui no país e minha vontade é de de criar uma categoria Ferrante nessa lista porque quero citar tudo. A tetralogia napolitana é sem dúvida o que há de mais incrível e eu escolhi o segundo volume para representar todo o amor que sinto por essa escritora. Ferrante consegue falar de tudo em seus livros de uma forma que prende nossa atenção, a prosa é fluida e guarda muitas coisas nas entrelinhas, incluindo uma profunda e brutal sinceridade. Que venha o quarto volume da série porque eu já estou planejando reler tudo quando terminar.

Origens do totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo – Hannah Arendt (Ed. Cia das Letras)

Provavelmente a leitura de maior peso entre todas que cito aqui mas extremamente necessária, vide o que está acontecendo no Brasil e no mundo. É um livro extremamente denso e Hannah Arendt procura mostrar através de dados que vem de muito antes das duas guerras mundiais como o antissemitismo e o estado totalitário se desenvolvem e como o imperialismo europeu foi/é fator importante nesses processos. Não é algo que acontece de uma hora para outra, nem muito menos de um ano para o outro, são processos que estão sempre circundando a forma como a humanidade está organizada.

Uma vida pequena – Hanya Yanagihara (Ed. Record)

Talvez o livro de Hanya Yanagihara seja o favorito que mais me surpreendeu porque confesso que ela não escreve de um jeito que me atrai. Mas eu não posso deixar de citar por motivos de: Jude. Poucas vezes desenvolvi uma relação tão forte com um personagem a ponto de achar que ele ia bater na minha porta a qualquer momento (no caso dele, para sentar e ficar calado). Lembro de ter sentido isso com Eva de Precisamos falar sobre Kevin. Não é só o fato de ser um personagem bem construído, acho que posso dizer que todos os livros citados aqui são maravilhosos nesse sentido. Mas é a sensação nítida que ele existe. Sonhei várias vezes com ele enquanto lia e esse para mim é um sinal que a conversa foi muito mais longe do que eu posso sequer elaborar. Os outros também são maravilhosos, me apaixonei perdidamente por Willem mas Jude é inesquecível.

Pastoral Americana – Philip Roth (Ed. Cia das Letras)

O último grande livro que li em 2016 foi essa outra pedrada do Philip Roth, autor que estou lendo aos poucos. Não gosto de tudo que leio, mas o que eu gosto é cravado. Sem dúvida uma grande obra-prima e foi significativo ler esse ano durante a eleição de Trump nos EUA. Philip Roth não poupa ninguém, a ironia está ali o tempo todo e Pastoral Americana é todo construído em camadas de significado que dão muito pano para manga de quem se dispuser a desemaranhar. Uma grande história sobre a falência do sonho americano – se é que ele um dia de fato existiu – e como as aparências que normalmente ditam os costumes são só isso mesmo.

É isso, estes são meus favoritos. Como disse no começo, não foi difícil escolher, li muita coisa boa em 2016 mas os que sobressaíram foram com um destaque significativo. Espero que vocês tenham gostado e a gente possa trocar uma ideia nos comentários. Fiquei muito feliz com o convite do Espanador para publicar minha listinha aqui, sempre acompanhei as que são postadas nessa época aqui no site e é sempre uma das coisas mais legais do fim do ano.

Um abraço e boas festas!

Tatianne Dantas, psicóloga com os dois pés enfiados na pesquisa em literatura e psicanálise. Cresceu no sertão e aprendeu que pode levá-lo para qualquer lugar do mundo. Escreve sobre tudo o que gosta no blog No país das entrelinhas.  Seu poema favorito é Tabacaria. 

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