[Mania de listas] As melhores leituras da Ana

Por: Ana Claudia

2016 não foi um ano fácil e eu infelizmente não escapei dos diversos reverses que esse ano teve; mas fiquei feliz em conhecer tantas novas pequenas editoras e iniciativas para publicações independentes como a Feira Plana e a Miolos.
No começo do ano até consegui manter um bom ritmo de leitura, engatando um livro no outro. Até que chegou abril e eu comecei a me envolver com a proteção de animais e à medida que eu me ocupava, perdia o foco nas leituras e acabei deixando alguns inacabados.

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10º A Distância do Resgate – Samanta Schweblin (Ed. Record)

Livro curto e denso, fala que não importa quantas medidas de segurança tomamos, o perigo sempre nos alcança. Leitura angustiante, uma prova de que o realismo mágico continua vivo na América Latina. 

Atlas de Nuvens – David Mitchell (Ed. Cia das Letras)

Verdadeira matrioska literária, surpreende a maestria com que David domina tantos gêneros literários e vozes diferentes. Do diário a ficções científicas, da correspondência ao romance policial; acompanhamos o mesmo personagem em diferentes épocas e em distintas reencarnações através dos séculos, começando no período colonial e indo até um futuro pós-apocalíptico.

Cada historia é única, porém se liga com a precedente e à próxima numa grande trama sobre a vontade do poder e como ele leva à ruína. As diferentes camadas que formam a nossa realidade e quanto nossas vidas dependem das conexões que temos com os outros.

Eu estou vivo e vocês estão mortos – Emmanuel Carrère (Ed. Aleph)

Difícil imagina autor melhor que Carrère, fã de Dick desde a adolescência, para fazer uma bibliografia romanceada do escritor. Só outro autor talentoso para demonstrar como os altos e baixos de uma vida errática inspiraram uma obra tão original.

Missoula – Jon Krakauer (Ed. Cia das Letras)

Missoula aparenta ser mais uma cidade universitária do meio-oeste americano. Até uma série de investigações sobre estupros no campus da universidade revelar uma série de crimes cometidos pelos jogadores de futebol americano da cidade. Mesmo confessando ou com evidências comprometedoras, os acusados se livraram das acusações e penas facilmente.  

Além da cultura de responsabilização da vitima, os jogadores são vistos como heróis pela comunidade por causa do seu desempenho em campeonatos regionais, e por isso contam com uma forte rede de proteção formada por funcionários da universidade e membros proeminentes da comunidade. 

Nesse livro, às vezes perturbador, Jon Krakauer desconstrói os principais mitos acerca do problema e demonstra que a maioria dos crimes é cometida pelas mesmas pessoas que saíram impunes das primeiras acusações. O pior é que não é uma epidemia, é algo recorrente que esteve oculto por tanto tempo graças ao silêncio e estigmatização das vitimas.

Stoner – John Williams (Ed. Rádio Londres)

O começo é chato, entediante (aliás a vida do personagem é resumida na primeira pagina). Parei e recomecei várias vezes, mas depois do começo ele engata um ritmo tão envolvente que é difícil lagar o livro. William Stoner é um professor universitário de literatura de origem pobre e rural que se formou com esforço. Casa-se com uma moça bonita e decente, seu primeiro amor, e com ela tem uma filha. A narração dessa vida aparentemente banal é tão apaixonantes, os acontecimentos e sentimentos tão intensos que temos a impressão de vivenciar a historia.

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O Reino – Emmanuel Carrère (Ed. Cia das Letras)

Livro difícil de definir. Carrère mistura a historia da origem do cristianismo, com considerações sobre a verossimilhança e o poder da narrativa e a sua relação pessoal sui generis com a religião; tudo isso num livro divertido e complexo. 

História de quem Foge e de quem Fica – Elena Ferrante (Ed. Globo)

Não li todos os livros que gostaria, mas dos autores que eu li nenhum descreveu a experiência feminina tão visceralmente como Ferrante. Sim, é novelão, mas também é muito mais do que isso. Neste terceiro livro da tetralogia acompanhamos a vida e amizade de Lila e Lenu entrando na maturidade durante os anos de chumbo da Itália. Maternidade, militância política, feminismo, casamento, relacionamentos e muito mais são postos em cheque. Só lendo para entender o quanto é envolvente e viciante.

A vida Invisível de Eurídice Gusmão – Martha Batalha (Ed. Cia das Letras) 

Meu livro nacional preferido deste ano; a vida de Eurídice Gusmão é a vida de milhões de mulheres invisíveis que tiveram suas capacidades e sonhos tolhidos pela vida doméstica. Em volta dela outras mulheres sofrem também por não terem escolhido (ou por não terem tido nem a oportunidade de escolher) o caminho tradicional que foi reservado às mulheres. Apesar de o livro ser curto, o panorama da vida na época é grande e bem feito e a linguagem consegue reproduzir a fala da época com elegância.

A Guerra Não tem Rosto de Mulher e Vozes de Tchernóbil – Svetlana Alexievich (Ed. Cia das Letras) 

Aprendemos história pelos grandes fatos e acontecimentos, e tudo parece distante e abstrato; mas Svetlana não se interessa pela historia grandiosa e sim pela íntima. Sua investigação em como os acontecimentos afetaram as pequenas partes daquele todo faz com que a história seja próxima e significativa. Pelos depoimentos que ela extrai as tragédias ganham rosto, passado e sentimento.

As Meninas Ocultas de Kabul – Jenny Nordberg (Ed. Cia das Letras) 

Jenny é uma jornalista sueca que enquanto fazia uma reportagem sobre a única parlamentar afegã na época, descobre por acaso a prática milenar do bacha posch. Essa prática consiste em fazer meninas se passaram por menino por um tempo para melhorar o status da família perante a comunidade, já que meninos são muito mais valorizados que meninas, e dar mais liberdade e autonomia para elas durante seu desenvolvimento. Por cinco anos Jenny investigou e entrevistou várias meninas, adolescentes e mulheres que são ou foram bacha posch e o impacto disso em suas vidas. Durante as investigação ela revisa o passado recente do Afeganistão e alguns dos principais aspectos do atraso social e econômico do Afeganistão são revelados.

Ana Claudia: Livreira há dois anos, até onde consegue se lembra, lê e escreve desde sempre, mesmo quando não sabia nem ler nem escrever. E comprar mais livros do que consegue ler.

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