[Foguete feito de papel e tinta] Carta de declaração à literatura

Por: Paula Queiroz

Queridas frases mágicas,

Sim. Você mesma. A literatura. A junção de letras, palavras, frases coordenadas e subordinadas. Você que me tira do cotidiano desde os meus cinco anos de idade e você, tão mais velha, antiga e sábia, me deixou pegá-la nas minhas mãozinhas e se tornou companheira dessa viagem alucinógena chamada vida. Você que me tira do sono, do chão. Tem dias que a gente se estranha né? Semanas que não nos vemos pois o dia a dia compete com a realidade que você tenta me mostrar nas páginas novas, velhas, infinitamente tocadas por outras mãos ou saídas novinhas e  fresquinhas de editoras.

Ei, você. Não se sinta abandonada quando faço isso, tá?

Às vezes, bem às vezes, eu me eclodo quando você sabe muito mais que eu. Você me conhece, me lê quando eu te leio, quase um Grande Irmão ao reverso, quase um scanner feito de papel e tinta. É como o próprio Orwell mesmo escreveu em 1984 (olha só você me fazendo citar você, literatura): você não me diz nada de novo, mas você me diz o que eu teria dito; organiza meus pensamentos, é menos amedrontada. Me diz o que já sei. É poderosíssima.

Você é tão entrona, não? Provavelmente é uma das únicas formas de escape desse universo que pode ser produzida em qualquer lugar, em qualquer casa. Basta uma criança, uma mulher, um homem escreverem duas palavras – ou uma só – e pimba: já tá sendo elaborada. Já tem alguém te conhecendo, alguém lidando com si. E basta uma superfície escrevível e você estará lá, aguardando o próximo a te escrever.

Escrevo essa carta para agradecer. Através de você, conheço as culturas do ocidente ao oriente – ou até fora da Terra-; conheço a minha própria cultura – orgulhosa e ferida -. (In) compreendo famílias, comunidades. Me dou conta que sou apenas um grãozinho, mas posso ser grande, se eu quiser. Reconheço-me assustadoramente, me estranho; tem palavras que não entendo: você não precisa ser totalmente entendida para ser bonita. É um transbordar de vernáculos difíceis, de metáforas que dão cambalhotas: quem sou eu diante desse mundo tão pandemônístico sem essas suas folhas que me caem como luva nas horas mais incertas?

Sou grata. Muito grata.

Você é uma das provas das incríveis coisas que o ser humano pode produzir. Por isso sua importância. Para relembrar que ao mesmo tempo que nós podemos pegar em armas e matar o próximo, podemos salvar esse próximo com poucas palavras. É uma salvação. Ou aniquilamento também. Se reconhecer em você dói. Ver a obscuridade do mundo através dos seus olhos dói. Mas é o jeito de criarmos alguma empatia. Ou de sermos antipáticos perante injustiças.

É lembrar o significado da palavra humanidade.

Por tudo isso e muito mais, obrigada.

De uma companheira assídua,

 

Paula Queiroz

São Paulo, 27 de novembro de 2016.

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