[uma rima obsessiva] And the aperture shuts, too much exposure

Por: Michelle Henriques

Este é um blog sobre livros e esta é uma coluna sobre obsessões, então nada mais óbvio do que eu falar da minha obsessão com os livros. Quando eu tinha 11 anos eu passei a reparar na estante de livros dos meus pais, nas capas e comecei a lê-los. Até meus 17, 18 anos eu lia basicamente o que eles tinham ali, que ia de Sidney Sheldon a Agatha Christie, passando por Stephen King e alguns clássicos de terror da década de 70.

Logo descobri os sebos e assim passei a montar a minha própria estante. A estante em si, de madeira e tal, veio alguns anos depois com o advento de um emprego melhor. Acho que como todo entusiasta de livros, eu me empolguei. Comprei mais livros do que podia. Enchi a estante, comecei a empilhar e aí me dei conta de que deveria existir limite e bom senso. Comecei a desapegar. Dei livros, troquei, emprestei, vendi.

Minhas regras para manter um livro em casa: certamente lerei de novo, foi presente de uma pessoa querida ou está autografado. Li e não gostei? Passo adiante. Li e achei mais ou menos? Adiante também. Ter clube de leitura me ensinou que o conhecimento deve circular, não ficar parado na estante. Nem sempre pensei assim, obviamente, mas com o tempo foi o que aconteceu.

Se tem uma coisa que eu nunca liguei foi capa de livro. Os livros dos mais pais eram do Círculo do Livro, com as capas mais bizarras deste universo que conhecemos. Meus primeiros livros vieram de sebos, com capas igualmente toscas e ainda por cima bem surradas.

Eu tenho visto uma quantidade imensa de fotos de livros bonitos, de livros compondo um cenário, de estantes arrumadinhas. Lindo, ótimo, mas e o conteúdo desses livros? Eles prestam? As traduções são legais? A revisão está bacana? Não há comentário algum sobre conteúdo, apenas fotos e mais fotos.

Obviamente não há problema algum com esse tipo de foto, inclusive meu Instagram serve basicamente para eu ver foto de livro e de gato.

catsFico triste que na maioria das vezes fica só nisso. Sou obcecada com livros, mas não mais com o livro enquanto objeto. Mentira, eu sou sim, eu abraço meus livros do Karl Ove e da Sylvia Plath, fico babando nos autógrafos da Liv Ullmann e da Svetlana, mas minha obsessão vai além disso. Eu quero marcar trechos, quero reler poesias, quero ver o livro amassadinho porque andou dias na minha mochila, me fazendo companhia no metrô.

Livro para mim é uma experiência, não apenas um objeto de decoração. Que fique claro que não estou criticando quem apenas coleciona livros, estou dissecando a minha obsessão. Até porque capas bonitas podem ser bem traiçoeiras, nem sempre elas vendem corretamente o conteúdo que carregam.

Eu adoro ver fotos de livros bonitos, mas eu prefiro que você me conte porque amou ou odiou um livro, que sentimentos ele causou em você, se ao fim da leitura você abraçou o livro ou se teve vontade de tacá-lo pela janela. Livro para mim é uma obsessão enquanto ideia e memória. A capa bonita é só um complemento, e não precisa ser algo decisivo. E quem escreve isso cresceu lendo Círculo do Livro, sempre bom frisar.

circulo


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