Bluestockings – uma livraria independente em Nova York

Por: Mariana Tomazelli

Nova York é a maior cidade americana, com cerca de 8,5 milhões de habitantes. Sua característica mais marcante é a diversidade: étnica, cultural, linguística, religiosa. Aproximadamente de 36% da população nova-iorquina nasceu fora dos Estados Unidos, e os imigrantes provêm de todos os cantos do globo – o último censo indica que 800 línguas são faladas em Nova York. Do ponto de vista econômico, a cidade é o maior mercado financeiro do mundo (Wall Street, Nasdaq), e também constitui um centro para empresas de comunicação, de alta tecnologia (“silicon alley“) e criativas de uma forma geral (marketing, fashion, design, arquitetura). Do ponto de vista educativo, possui centenas de museus e instituições culturais (Met, MoMA, Museu de História Natural e Solomon Guggenheim são apenas algumas das grandes). Também é a cidade americana com mais estudantes universitários, e entre as numerosas instituições de ensino superior que abriga, destaca-se o campus de Columbia (uma Ivy League School).

Trazendo o foco para o assunto do blog e do post, Nova York possui diversas livrarias interessantes, tanto lojas pertencentes a corporações, quanto estabelecimentos independentes. Isso sem falar do sistema de bibliotecas públicas espalhadas pela cidade (e o prédio principal, “Stephen A. Schwarzman Building, é maravilhoso e vale uma visita turística). Muitos de vocês, que são bookworms como eu, talvez já tenham ouvido falar da Strand, da Rizzoli ou até do The Morgan Library Museum, que além de ser um museu de arte também abriga livros e manuscritos raros.

A livraria que eu quero apresentar pra vocês hoje não é tão famosa, nem tão grande, nem tão antiga quanto essas outras referências. Mas ela é absolutamente interessante, tanto pela forma de gestão quanto pela escolha de acervo. Trata-se da Bluestockings ¹, localizada no Lower East Side, em Manhattan.

A Bluestockings é mais do que uma livraria – ela é também um centro de ativismo e um café “fair trade“. Toda a gestão é feita por voluntários, com graus de dedicação diferentes. As decisões são tomadas coletivamente e há um esforço para minimizar hierarquias. Há sempre entre 60 e 90 voluntários trabalhando para a Bluestockings.

O dinheiro para sustentar a livraria vem da venda dos livros e produtos do café, além de doações espontâneas. No café são servidos cookies veganos e café produzido na região de Chiapas, tudo a preços amigos. O bom (além do preço amigo) é que você é incentivado a ler por ali mesmo. Numa das mesinhas há um adesivo dizendo: “Acabou de folhear? Então ponha o livro de volta na estante”. Há uma certa inspiração anarquista e contracultural no ambiente, nos produtos, nos eventos que livraria abriga.

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O espaço e o acervo não são grandes. O piso e as estantes são de madeira, e a fachada é envidraçada (bem-vinda, luz natural!). O café possui duas ou três mesas apenas. Alguns produtos à venda estão expostos, como camisetas e bolsas de pano com frases do tipo “Smells like queer spirit“ou  “Speak up! This isn’t a library“. Uma lousa na calçada apresenta o calendário de eventos para a próxima semana.

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Há algo acontecendo quase todas as noites, sempre de graça, embora no início dos eventos um potinho circule pelo público pra recolher doações. O calendário inclui lançamentos de livros, aulas de yoga, discussões sobre política (“Will the Bern create a third party?“), um sarau onde mulheres trans apresentam seus poemas, um clube do livro feminista, encontros de adeptos do poliamor e fóruns para discussão de questões diversas, como políticas imigratórias ou o papel dos homens no feminismo.

Em seu site, a Bluestockings descreve como parte de sua missão construir um “ambiente seguro”, em que todos sintam-se livres, respeitados e protegidos para expor seus pensamentos e experiências. Estimula-se o ativismo contra todas as formas de opressão, conforme testemunham as etiquetas nas prateleiras, categorizando o acervo: raça e racismo, black lives matter, transgênero, queer, feminismos, feminismo radical, ficção feminista, teorias políticas, urbanismo e geografia, meio ambiente e sistemas alimentares, saúde e acessibilidade, classe e trabalho, ativismo hacker, ficção pós-colonial, etc. Também há categorias mais (digamos) ortodoxas, como ficção científica, poesia ou quadrinhos.

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Na primeira estante, logo na entrada, há uma categoria “Top recommendations“. Nela estão misturados livros de todas as outras categorias, numa seleção montada pelo staff. Se você olhar para a foto que eu tirei dessa estante, verá no canto direito inferior um exemplar de Pedagogia do oprimido, do educador brasileiro Paulo Freire, traduzido para o inglês.

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Saí de lá com duas aquisições, embaladas em sacola de papel reciclável: um livro de poesia e o próximo livro adotado pelo clube de leitura feminista. Ou seja, tenho um mês pra ler So Sad Today (Melissa Broder) e aí volto à Bluestockings pra debatê-lo com outras clientes e preencher minha cota mensal de ativismo radical. 

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A presença de estabelecimentos como a Bluestockings também faz parte da identidade de Nova York. A oferta cultural e educacional da cidade é riquíssima e diversa, e o potencial de inovação, pensamento crítico e tolerância decorrente desse ambiente é imenso. Por isso fica o alerta: vamos evitar o grande equívoco de reduzir Nova York aos supershows da Broadway, aos lobos de Wall Street ou a um simples destino de compras, ok? 


¹ O nome da livraria parece ser uma referência à Blue Stockings Society, um movimento de mulheres na Inglaterra no séc XVIII. O grupo fazia defesa da educação das mulheres, além de reivindicações sociais sobre o status e estilo de vida esperado das mulheres na sociedade. Mais informações aqui.

Mariana é engenheira atuante, atriz amadora e poetisa aposentada.

2 comentários em “Bluestockings – uma livraria independente em Nova York

  1. Amei conhecer essa livraria diferente aqui no blog. Adoro a proposta de lugares com essa pegada colaborativa, delicinhas veganas (mesmo sem ser exatamente vegana, mas simpatizo) e uma programação que vai além do habitual. Sabe que na cidade francesa onde morei, chamada Clermont-Ferrand, tinha algo bem parecido, mas não era uma livraria. Era um café-leitura, os livros não estavam à venda, mas eram disponibilizados para leitura no local. Tinha um café e uma programação bem parecida. Adorava aquele lugar!

    Beijão!
    Aline

  2. Pingback: Livrarias em Nova York – Strand, uma sobrevivente | O Espanador

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