[Faltou uma vírgula] O Ócio Leitor

Por: Laís Pragana

E então eu comecei a bordar. Fui apresentada pela primeira vez a um bastidor, à técnica de puxar fios da meada sem torcê-los num nó indesejado, aos diferentes e inúmeros pontos que podem ser usados, à satisfação que é fazer algo artístico com minhas próprias mãos. Tanto é que agora passo horas e horas seguidas treinando, refazendo e criando. Mais do que isso, o bordado me trouxe uma surpresa inesperada: tive de volta o prazer da minha própria companhia.

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É que cheguei à conclusão de que se não estou com meus entes queridos, ou na internet ou no trabalho, estou acompanhada pelos livros. A leitura é sem dúvidas minha melhor amiga e está presente nos meus trajetos diários de transporte público, no meu horário de almoço, na meia horinha que precede meu sono…ou seja: não ter lido significa, basicamente, não ter vivido por um dia. Mas agora, quando bordo, fico inteiramente comigo mesma, foco em minhas próprias mãos e acompanho-me unicamente de meus pensamentos.

Com isso alcanço o ponto que gostaria de chegar com esse texto: eu percebi que eu não me dava o tempo necessário de solitude, de calmaria mental para digerir e pensar sobre as minhas leituras. Assim como disse no texto anterior, convivo com uma certa ânsia para ler tudo o que quero. Termino um livro, fecho-o, faço nele um carinho e já corro à estante em busca do próximo (o qual já inicio num ato contínuo). E, por conta disso, não me lembrava qual havia sido a última vez em que havia parado tudo o que estava fazendo para refletir sobre os personagens, os dilemas e os acontecimentos das narrativas por mim lidas. Mas com o foco na agulhinha desenhando sem pressa o tecido, pude relembrar calmamente todas as últimas ótimas leituras que fiz. E, meu Deus, como isso fez uma diferença enorme!

Como se não bastassem as mil e uma exigências de tempo para tudo em nossa vida – “você precisa de um tempo para cuidar de si!”; “você precisa de um tempo para descansar!”; “você precisa de um tempo para ter tempo!” -, você deve estar pensando, agora venho com essa de que precisamos de um tempo para digerirmos a leitura?! Tempo este, aliás, que poderia ser empregado em mais um tanto de inéditas páginas?! Pois é, meus amigos. É que foi assim que pude de fato sentir o impacto que uma reflexão mais demorada gera no remanescente íntimo das nossas experiências literárias.

Relembrei, por exemplo, das muitas risadas que dei com o novo adorável livro de crônicas do Antonio Prata, Trinta e Poucos. Também continuei quebrando minha cabeça com os desafios propostos por Cortázar em Final do Jogo, livro que reúne contos divididos em três níveis de dificuldade e cuja obrigação do leitor é justamente a de decifrar as armadilhas narrativas neles escondidas. Sem pressa para terminá-lo, quem sabe um dia eu escreva sobre este que é um dos livros mais originais que já li. E, é por bem dizer, só é possível ler esse livro se ele for justamente acompanhado de longas pausas para interpretá-lo.  

Já por meio de A Literatura como Turismo, de Inez Cabral, conheci e reconheci poemas de João Cabral de Melo Neto – e para a compreensão da poesia se faz necessário também um tempo de reflexão ao qual precisamos nos dar ao luxo. Quanto aos romances que mais recentemente li, a cena de que mais me recordava enquanto bordava era a da tempestade de areia enfrentada pelos personagens de No teu deserto, de Miguel Sousa Tavares, que passou a ficar muito mais viva e verossímil na minha imaginação.

Para minha ainda maior felicidade, tive, veja só, tempo para sentir a nostalgia de um livro lido há tempos. Fiquei com saudades de Manuela e da Japonesita retratadas em O Lugar sem Limites, livraço do Donoso e que gera até hoje discussões atuais e coerentes sobre a questão do gênero e da sexualidade.

Enfim: por meio da atividade do bordado, entendi que a leitura também se faz no ócio, na abertura da mente para o silêncio e para o pensamento livre, desimpedido. E nisso se configura, por que não?, um certo tipo de releitura das páginas que já atravessamos. Para além de tudo isso, integrar uma expressão artística minha à de outrem é uma baita novidade boa pra mim. Quem sabe então eu borde Manuela em seu lindo vestido vermelho, imortalizando-a tal qual ela tanto desejava, pensando nesse e em todos os outros grandes livros da minha vida…

Um comentário em “[Faltou uma vírgula] O Ócio Leitor

  1. Pingback: como ser quem sou se o que estou sendo não me agrada. – livro de mim.

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