[Tirando o pó] Por que fazer aparas de livros é mais barato que doar?

O assunto ficou em evidência nos últimos dias quando o diretor da Cosac Naify anunciou que os livros que não forem vendidos até o final de dezembro, virarão aparas. A notícia causou diversas reações nas redes sociais. Vamos aqui evidenciar dois dos mais importantes para a conversa: uns comentam o absurdo de se destruir livros quando eles podem ser doados a escolas, instituições e bibliotecas ou ainda vendidos a preços mais baratos; outros ponderam que o mercado editorial é um negócio e como tal, visa lucros. Os dois lados têm sua razão. 

Sempre seremos contra a destruição de livros quando eles poderiam ter outros destinos. No entanto, é preciso pensar novas solução para a doação de livros, sem que editoras sejam tão penalizadas com esse procedimento. Mandar os livros para fazer aparas também gera custos, mas parte desses custos são abatidos nesse papel que foi vendido para reciclagem. E essa é a conta. (vamos detalhar mais sobre isso mais pra frente) É meio impressionante, mas acontece com muitas editoras, que preferem mandar excessos de estoque para destruição, para não pagar os altos custos de aluguel de depósito.

Isso mostra que as editoras calculam errado a tiragem dos livros? Em muitos casos pode ser. Mas muitas vezes a tiragem é aumentada para que o preço de impressão fique mais baixo, barateando um pouco o preço final. Como podemos ver, a coisa é mais complexa do que se anuncia numa nota do diretor de editora. A Cosac errou em muitas tiragens, como Charles Cosac comenta num entrevista ao Estadão tentando apaziguar os ânimos das pessoas. E ele também diz que procura apoio para manter o seu estoque.

Achamos meio difícil que isso aconteça, a não ser que os livros salvos do acervo sejam destinados para doação. Ainda sobre a entrevista, Charles lembra que alguns livros do seu catálogo tiveram seus direitos adquiridos por outras editoras (ele dá o exemplo da Companhia das Letras, mas Sesi, Planeta e a nova Ubu – com ex-diretoras da Cosac – também adquiriram livros) e que seria antiético vendê-los em saldões, pois esse excesso de livros saturaria o mercado e, com isso, diminuiria o interesse do público em edições nas novas casas editoriais.

Os custos implicados em doações ou num novo saldão acabam tornando inviáveis essas práticas para uma editora que já fechou ou que não quer fechar suas contas no vermelho. Porém é preciso que o exemplo da Cosac (que foi a editora que causou furor ao anunciar a prática de transformar livros em aparas, enquanto outras tantas fazem isso cotidianamente) para repensar as políticas de doação de livros.

Abaixo, detalhamos alguns dos custos implicados em doação ou no saldão (que também foi uma alternativa bastante comentada) de livros e também algumas dificuldades dos processos.

Os custos de uma doação

Os direitos autorais variam de livro e contrato, mas ficam entre 6% e 30% do preço de capa. Quando o livro já está em domínio público há casos de tradutores que recebem um porcentagem. Essa parte dos contratos e porcentagens é bem variada, mas fica bem claro que para cada livro vendido uma parte desse dinheiro vai pro autor. Nos contratos também existem algumas cláusulas sobre o pagamento de direitos autorais em caso de doação do livro ou mesmo quando a tiragem vai para destruição. 

Tudo isso pra chegarmos a uma equação simples. Uma editora que ainda tem no seu estoque milhares de livros e mesmo depois de incessantes promoções continuam com eles lá, a solução mais simples poderia sim ser a doação. Porém em boa parte dos livros, por contrato, está estipulado que mesmo em livros doados deverá ser pago o porcentual do direito autoral e fiscalmente ele também incide nas contas da editora. Para você doar um livro você precisa pagar. Normalmente os donos dos direitos autorais são informados das tiragens e mesmo a movimentação desses livros, de modo que esses livros simplesmente não podem desaparecer. Não tem como você doar eles sem que dê saída desses livros fiscalmente. 

Os autores e tradutores podem desistir dos seus direitos em caso de doação (mas aí temos que lembrar que autores vivem de direitos autorais, que não é das verbas mais polpudas). Mesmo assim, a editora tem encargos fiscais do livro, como se o tivesse vendido. 

Além disso, tem os custos mais caros: logística e frete, afinal é preciso de pessoal para triar esse livros e os custo de envio ou transporte até as bibliotecas (que não tem verba para buscar esses livros nas editoras – por isso Charles fala que procura parceiros da iniciativa privada para ajudar nessa parte).

Outro empecilho para essa prática (no caso de grandes estoques) é que as bibliotecas não aceitam doações de uma grande quantidade de um mesmo título. Por um motivo óbvio: as bibliotecas não podem virar depósitos de um livro só. E há títulos que não são do interesse da biblioteca também; cada uma tem o seu perfil de catálogo e às vezes não faz sentido um livro sobre a história da arquitetura numa biblioteca infantil, como a Monteiro Lobato. Então as doações demandam tempo e conversa entre editora e bibliotecários para ver para onde mandar cada livro e em qual quantidade.

Saldão

A alternativa que muita gente deu pra questão de aparas da Cosac, foi a ideia de um novo saldão. Pode parecer uma boa ideia, mas isso tudo tem um custo. Para colocar esse plano em ação, seria preciso uma equipe de logística. Muitas pessoas. 

O Saldão feito pela empresa em 2015 no seu antigo depósito no Belém (zona leste de São Paulo), antes da mudança da logística para Itapevi, movimentou mais de 40 pessoas. Entre operadores de estoque, vendedores, caixas, seguranças e transporte. Hoje seria muito difícil organizar tudo isso, pois a editora não tem mais esses funcionários. 

Além de tudo, existe um grande fator que parece estar sendo ignorado por todos. Os livros que acumularam no estoque, em sua grande maioria, foram livros que passaram por inúmeras promoções e as pessoas não se interessaram. Mesmo no saldão de 2015, boa parte desses livros estavam lá e ficaram entre os menos vendidos. Ou seja, esses livros realmente venderiam?

No início desse ano o site da Cosac foi desativado e a Amazon passou a vender os livros da editora. Além disso a loja comprou parte do estoque. E a parte que vende muito bem, obrigada, do estoque. Até chegaram a reimprimir alguns títulos. Ou seja, os títulos mais vendidos e queridos pelo público, em teoria, estão a salvo.

 

Alguns links:

Matéria da Raquel Cozer (no finado Sabático) sobre o estoque da editora Record. Nela, Sérgio Machado admite a prática de mandar livros para fazer aparas. E uma continuação da matéria algumas semanas depois.

Coluna do André Palme “Vão se os papéis, ficam os conteúdos” (não concordamos com tudo pontuado pelo autor, mas vale a reflexão)

Coluna do Henrique Farinha que detalha ainda mais os custos de doação de livros

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