[uma rima obsessiva] O dia em que respirei o mesmo ar que Karl Ove Knausgård

Por: Michelle Henriques

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Uma vez me perguntaram como eu escolhia os livros que eu lia. Alguns são por “obrigação”, dos clubes que participo e alguns que recebo para resenhar, mas quanto aos demais, eu não tenho uma explicação lógica. Às vezes é alguma obsessão com o autor (David Foster Wallace nasceu no mesmo dia que eu), ou sou atraída pelo hype (Elena Ferrante) e alguns eu simplesmente não sei, como foi o caso de Karl Ove Knausgård.

Seu primeiro livro publicado no Brasil foi A Morte do Pai, primeiro volume de uma série chamada “Minha Luta”. A capa simples e o título cru talvez sejam os motivos que me atraíram. Tive a oportunidade de lê-lo em março de 2014 e as coisas ficaram intensas ali. Sua série é toda autobiográfica, e como diz o título do primeiro volume, trata da morte do pai dele. Karl Ove fala da sua família da maneira mais direta possível, o que lhe rendeu alguns problemas na Noruega, seu país de origem. 

Para minha sorte, no mês seguinte foi lançado o segundo volume da série, Um Outro Amor. Neste livro as coisas desandaram e eu fiquei completamente obcecada com ele. Esses dois livros são minhas leituras preferidas daquele ano. Em 2015 li o terceiro, A Ilha da Infância, que não é tão bom quanto os outros, mas ainda assim merece cinco estrelas.

E assim continuei minha vida, obcecada por ele, atenta aos lançamentos, de olho em entrevistas e indicando seus livros para todas as pessoas. Eis que neste ano veio a maior surpresa: ele viria para a Flip. Não criei expectativas, afinal ele tinha cancelado sua presença na edição de 2014. 

Arrumei minhas malinhas e fui para Paraty. Claro que eu queria ver vários autores lá, mas a ansiedade máxima era por Karl Ove. Na quinta-feira tive a oportunidade de participar da coletiva de imprensa dele e foi bem uma coisa de fã, eu só olhava para ele. Eu tinha muito medo que ele fosse uma pessoa arrogante, impaciente, mas muito pelo contrário. 

Entrei na sala e de deparei com um sujeito altíssimo, charmoso, que falava baixo, soltava alguns sorrisos de canto de boca e respondia a todos da forma mais atenciosa possível. Não tive coragem de fazer nenhuma pergunta, mas anotei compulsivamente tudo que ele dizia. Ele contou um pouco de seu processo criativo e de seus novos projetos de livros. 

Apesar de sua escrita ríspida, em dados momentos, ele disse que odeia a imagem de ser um pai de família, mas que gosta bastante de o ser. Ele disse também que a série “Minha Luta” não é a história da vida dele, pois ele não fez nada de espetacular, ele chama de romances. O nome de Hitler surgiu na conversa, como era de se esperar. Karl Ove disse que é difícil entender a transição do ditador de um jovem tímido para alguém capaz de uma maldade extrema. O sexto livro de sua série aborda isso, segundo ele.

Durante a coletiva ele tocou num ponto interessante, que “falar demais” é considerada uma característica feminina. Ele sempre teve muito a dizer, mas percebeu ainda jovem que era melhor se calar, seguir a tal masculinidade. Bom, não é a toa que a pessoa escreveu mais de 3.000 páginas sobre sua vida, amor, morte e sobre o simples existir.

Após a coletiva, Karl Ove autografou alguns livros e eu fiquei parada olhando para ele sem reação. Não sou de tietar muitos artistas, mas para mim não há sensação melhor do que simpatizar com alguém que escreveu um livro que mudou a sua vida. Acho que é normal idealizarmos nossos ídolos, mas é maravilhoso perceber que eles são pessoas normais e acessíveis. 

Corta para o dia seguinte, Karl Ove seria entrevistado pelo ótimo Ángel Gurría-Quintana. Eu vou ser imparcial e dizer que amei a mesa. Alguns amigos têm críticas, disseram que foi um pouco tedioso e repetitivo (nisso eu concordo, ele abordou alguns assuntos que já tinham sido tratados durante a coletiva de imprensa), mas para mim foi tudo incrível, ainda mais quando ele leu um trecho do quarto livro, Uma Temporada no Escuro, recém lançado no Brasil. Após a mesa, fui para a fila de autógrafos. Levei Um Outro Amor e ao assinar, ele notou a quantidade de post its. Eu disse que era meu preferido e ele sorriu.

A Flip foi maravilhosa por diversos motivos (estar entre os amigos queridos, principalmente), mas ver meu escritor atual preferido cara a cara, duas vezes, foi o ponto alto. Voltei para São Paulo extremamente feliz. E ansiosa: ele estaria na Livraria Cultura para um bate papo e para outra sessão de autógrafos.

Segunda-feira, 16h, lá estava eu na fila mais uma vez. Não teve nenhuma grande novidade nesse bate papo, mas ele afirmou que essa era a última vez que ele falaria sobre a série “Minha Luta”. Ele vai lançar uma nova série de quatro livros, em que ele fala sobre suicídio, sobre amor e um dos livros é dedicado à sua filha.

Dessa vez eu estava menos nervosa e consegui conversar com ele enquanto pegava meu autógrafo. Fiz perguntas bestas, se ele estava gostando do Brasil (sim, eu sei, mais clichê impossível), ele disse que sim, que para ele e para o filho estava sendo como férias, e apontou para o menino loirinho sentado no chão brincando distraído.

Assim foram meus três encontros com Karl Ove Knausgård, meu escritor preferido. E essa sou eu em um dos momentos mais bonitos desta minha existência.

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3 comentários em “[uma rima obsessiva] O dia em que respirei o mesmo ar que Karl Ove Knausgård

  1. Imagino o quão catártico, tenha sido! É muito gostoso a gente ser surpreendido positivamente por quem admiramos. E arrisco dizer que nos próximos encontros de vocês ele te reconhecerá! 😉

  2. Coincidências tiete-literárias: Knausgard é meu escritor favorito, fui para a Flip principalmente por causa dele, meu livro estava cheio de post-it e provavelmente por causa disso eu ganhei uma dedicatória e não um simples rabisco (como ele fez em alguns livros).

    Gostei bastante do relato.

    Abs.

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