Butcher’s Crossing

De tempos em tempos “aparece” um autor como John Williams. Se bem que no caso dele está muito mais para “redescoberta”. No meio da década de 2000, mais especificamente em 2006, o autor irlandês Colum McCann em sua lista de 10 melhores livros do ano colocou um desconhecido autor no topo de sua lista: o americano John Williams e seu livro Stoner. Em seu texto, Colum diz ter comprado mais de 50 exemplares nos últimos anos para presentear amigos queridos. Pouco depois a edição de 2002 publicada na Inglaterra se esgotaria.

Em 2011 a autora Anna Galvada traduziu para o francês Stoner, segundo romance publicado de Williams, originalmente lançado em 1965. Pode-se dizer que foi a partir dali que o autor “explodiu” na Europa, mesmo que longe de números impressionantes, mas ainda assim um best-seller no continente. E não só isso: ele foi lido e recomendado por grandes nomes como Ian McEwan, Nick Hornby, Geoff Dyer entre outros. Depois desse sucesso na Europa, o autor foi traduzido em mais de 30 países e voltou a ser destaque também nos EUA. E foi a partir de um texto da New Yorker (sempre ela <3) que essa redescoberta ganhou destaque e é muito fácil você encontrar elogios rasgados de jornais e autores ao livro Stoner

Junto com toda essa “onda”, em 2014 a editora Rádio Londres lançou Stoner por aqui e o sucesso não foi diferente dos outros lugares do mundo. Ele esteve presente na lista de melhores livros do anos de muitas pessoas e também dos jornais, revistas e blogs de literatura e claro que nas listas do Espanador de melhores leituras de 2015: Michelle, Ju e na minha.  

Toda essa introdução para dizer que ao ver que a Rádio Londres lançou um “novo” John Williams, e por mais que eu ficasse empolgado de uma maneira que apenas o novo livro de um dos seus autores favoritos pode causar, é difícil não manter a expectativa ou mesmo comparação com Stoner. Foi com toda essa bagagem que comecei a ler Butcher’s Crossing.

E um spoiler sobre este texto pra quem chegou até aqui: eu gostei tanto quanto do Stoner e estou me segurando para não dizer que gostei um dedinho a mais dele.

Agora que estamos livres de spoiler, posso contar um pouco sobre o livro. Em Butcher’s Crossing encontramos o jovem Will Andrews, 23 anos, chegando ao pequeno vilarejo que dá nome ao livro. Esse minusculo vilarejo, que não tem mais que três ruas, fica localizada no meio do Kansas na década de 1870. Ele deixou para trás a civilizada Boston e a universidade de Harvard (3º ano de Direito) para buscar uma vida que fizesse mais sentido, experimentar mais da vida do que ele fez até então.

Will chega ao vilarejo à procura do Sr. McDonald, conhecido do seu pai que falecera. Ele é uma espécie de comerciante mais bem sucedido da cidade e que compra peles de búfalo para revender. Já no primeiro momento Sr. McDonald sabe que Will, apesar de ser um bom garoto, educado, está ali em busca de aventura (apesar do mesmo Will não saber exatamente o que ele busca). Will conhece Sr. Miller (indicação do sr. McDonald), um autêntico cowboy durão e caçador que conta a ele de uma suposta manada com milhares de búfalos nas montanhas do Colorado. Algo que talvez ele apenas tenha visto há mais de uma década. Logo eles saem nessa caça. Will Andrews, Sr. Miller, Sr. Schneider (o esfolador das peles, que vai ser auxiliado por Will) e Charlie Hoge (que vai cuidar das comida e guiar os bois na carroça).

A história começa a se desenrolar de uma forma lenta, quase letárgica e a partir do momento que a jornada começa, o livro começa a se transformar. A narrativa de John Williams é simples, direta e quase sem emoção. Estamos acompanhando essa jornada e vamos descobrindo tudo junto com os personagens e principalmente Will Andrews, novato nessa aventura. O livro é narrado em terceira pessoa e com muitos detalhes.

Butcher’s Crossing a princípio parece fazer uma homenagem a conquista do Oeste americano. Só que no fundo ele desmistifica o idealizado, e mostra uma realidade brutal de homens que passavam as mais absurdas provações e no meio disso perdiam sua própria humanidade.

Depois da “Corrida do Ouro”, na década de 1850, na Califórnia, veio a Guerra Civil Americana, nos anos 1860, e após isso a “conquista do Oeste”, de planícies e espaços imensos sob domínio dos índios americanos. A instalação de uma ferrovia transcontinental auxiliou nessa “colonização”. Junto com essa expansão vieram caçadores, veteranos de guerras que nos anos 1870 fizeram a caça dos búfalos atrás do seu couro. Estima-se que mais de 28 milhões de búfalos foram mortos em um pouco mais de uma década.

A relação entre Will e Sr. Miller é uma mostra desse confronto que acontece entre civilização X vida selvagem, a sabedoria dos livros X sabedoria da vida. E apesar de ter muito mais “ação” do que em Stoner, depois de terminada a leitura de Butcher’s Crossing, é possível fazer um paralelo entre os dois livros, principalmente a busca de um sentido maior da vida de seus personagens principais. Eu nunca tinha visto a natureza descrita de uma forma tão simples, bela, harmônica e completamente assustadora. E apesar de aparentemente parecer um romance de formação, ele funciona como um “roadbook”.

As últimas 100 páginas do livro, são de uma força e beleza assombrosas. Elas passam que você não percebe. E tenho certeza que essas páginas vão te surpreender. Butcher’s Crossing é um romance de força impressionante e confirma que John Williams era mesmo um grande autor.  

Ps. Curioso é pensar que dos quatro romances publicados por Williams, foi com Augustus (que a Rádio Londres já confirmou que vai publicar ano que vem) que ele ganhou o National Book Awards em 1974. Se eu gostei tanto de Stoner e Butcher’s Crossing, não sei o que esperar deste próximo livro.

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Autor: John Williams

Tradução: Alexandre Barbosa de Souza

332 pgs

Editora Rádio Londres

(O livro será discutido no nosso [Leituras Compartilhadas] no dia 19 de agosto)

 

Links adicionais

Texto da New Yorker de 2013 

O obituário ddo John Williams no New York Times  

10 livros de 2006 de Colum McCann 

Quantidade de reviews positivo da Amazon 

Sobre a colonização das planícies dos EUA         

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